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quinta-feira, 23 julho, 2026
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A “tigritude” de Angela Davis

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“Um tigre não proclama a sua tigritude, ele ataca”

(Wole Soyinka)

Nada agitou mais os dias que antecederam a Festa Literária de Paraty – FLIP deste ano do que o anúncio do encontro entre o Prêmio Nobel de Literatura, o nigeriano Wole Soyinka, e a já lendária ativista estadunidense Angela Davis. Os dois estariam em uma mesa promovida pelo SESC Rio, no evento que deu origem às festas literárias no país e que está em curso na cidade histórica do litoral norte do Rio de Janeiro até o próximo domingo, 26/07.

Na última segunda-feira, 20/07, Soyinka cancelou a vinda devido a questões pessoais, mas Angela desembarcou com toda a disposição no Brasil e tive a oportunidade de me juntar à equipe do Sesc que primeiro a entrevistou. Constatei algo fascinante: Ângela é a perfeita e mais bela exemplificação da famosa frase do autor nigeriano — “Um tigre não proclama sua tigritude, ele ataca”. No caso aqui, uma tigresa.

Primeiro, ela possui o porte de quem se conhece, sabe o que representa e não precisa fingir afetação. Tranquila, elegante, simpática e solícita, ela entrou na suíte reservada para as duas entrevistas agendadas. Um quarto com uma vista absolutamente deslumbrante e de tirar o fôlego da praia de Copacabana, em um dia perfeito. Céu azul sem nuvens, mar calmo, um calor nada sufocante com brisa que abraça.

Experiente, Angela pediu informações prévias sobre todo mundo que a entrevistaria. Ela sabia com quem estava falando. Mais uma lição aprendida: Saber com quem se fala torna o diálogo possível ou não. Uma tigresa analisa, mede, calcula… e isso ficou ainda mais provado em sua primeira fala, quando lamentou pela impossibilidade de uma troca intelectual com Soyinka. Contou que mergulhou de forma profunda em sua obra para este momento. Revisitou algumas coisas dele, outras leu pela primeira vez. Disse que estava ansiosa por conhecê-lo por tudo o que representa para a história da literatura mundial, para o continente africano, para as lutas todas de pessoas negras no mundo. Segundo ensinamento: Não importa quão grande seja. Cada encontro é novo e é preciso estar preparado para ele.

Nem sentimos a hora passar enquanto a enchíamos de perguntas sobre linguagens, ativismo, movimento negro, arte, Estados Unidos, Brasil, política, feminismo, abolicionismo e tantos temas que Angela Davis domina e está acostumada a falar a exaustão. Tudo estará na próxima Revista Paquetá, do SESC Rio.

Ela nos contou como conheceu Lélia Gonzalez em Nova Iorque, que o pensamento dela é complexo e sofisticado. Lamentou que não tenha vivido mais para conseguir elaborar suas teorias de maneira ainda mais poderosa. Citou Beatriz Nascimento e disse que há algo acontecendo de efervescente no Brasil que a está levando ao estudo de português, ou seja, seu interesse pelo pensamento produzido aqui a empurrou para o óbvio mergulho no idioma, o lugar onde tudo se assenta.

Perguntei: Representatividade ainda importa? Ela respondeu: “Yes!”

Tudo muito bom, tudo muito bem. Já estávamos todas e todos nos encaminhando para o encerramento, quando a tigresa atacou: “NINGUÉM ME PERGUNTOU SOBRE A PALESTINA”.

Entrevista Angela Davis, 2026. Sesc Rio. Foto: Claudia Dantas

A caixa alta usada na frase é minha, como a afirmação bateu no meu ouvido. Ela indagou delicadamente, suavemente e sentou-se outra vez para falar e falar e falar.  Emendou mais 20 minutos à entrevista acordada com sua equipe para acontecer em 40 e já havia passado dos 60 quando fez a (maravilhosa) provocação. Falou, em suma, sobre a conjuntura atual dos EUA e como diversos movimentos negros estão solidários e ligados com a causa palestina.

Imitando Mrs. Davis, deixo para o final o “bote”: O QUE SOYINKA QUIS DIZER COM AQUELA FRASE?

O primeiro autor negro Nobel de literatura (1986) fazia referência mais direta ao movimento da “Negritude” de Senghor, primeiro presidente do Senegal.  Léopold Senghor era um poeta e, junto com nomes como Aimé Césaire e Léon Damas, encabeçou um movimento que buscava resgate histórico, valorização das artes e saberes africanos e afirmação de identidade. Muito legítimo.

Então, o que incomodava o autor nigeriano? A falta de urgência e praticidade.

Na visão de Soyinka, a África pós colonial tinha questões graves e urgentes demais e o caráter um tanto romântico do movimento liderado por Senghor dispersava, tirava o foco de uma luta de vida e morte com a Europa logo ali, no cangote de todos e todas, pronta para não aceitar perder o poder daquele pedaço de mundo. Ele achava os conceitos de identidade africana rígidos, esbarrando em definições biologizantes e em espiritualidade que não contemplavam a todo o continente. O que o movimento preconizava era um começo, mas não era tudo e muito menos definitivo. No texto “A negritude e o universal africano”, Wole esboça os argumentos de sua oposição a Senghor.

A discussão não poderia ser mais atual, visto que estamos em sociedades ainda perdidas e debatendo, afinal, o que seja “identidade”. É um debate pra gente grande e a frase de Soyinka fala sobre coragem para argumentar em altíssimo nível, com pessoas que, no fundo, desejam o mesmo que ele: a dignidade de um povo.

Estamos falando de um tempo em que estavam circulando ativamente as ideias de Senghor, Cesaire e León, mas também de Cheikh Anta Diop e seus estudos sobre a origem histórica africana no Egito e tantos outros intelectuais dos anos 60 tão efervescentes  quanto assassinos desses líderes e pensadores.

Hoje é fácil ver que, embora o movimento da negritude de Senghor tenha acendido o estopim, foi a coragem de todos eles para SER tigre, mais do que gritar que se é um felino de grande porte, que interferiu, moveu e mudou enormemente a percepção de um continente inteiro. É dessa valentia de ser que precisamos nos tempos onde é fácil se “esconder” atrás de um algoritmo, de um perfil de rede social ou de uma artificialidade performática qualquer. Quem verdadeiramente é interfere, move, faz mudar. Soyinka propõe e reivindica a “imaginação política”. O poder da imaginação que faz tudo acontecer.

A filósofa e professora Angela Davis, é tigresa, mas já foi pantera. Pantera Negra, Black Panter pelos direitos da população negra dos Estados Unidos e pelo direito das mulheres. Nascida num Alabama segregado, ou ela afiava as garras e atacava ou morreria engolfada pelos abusos da “color line”.

No dia 18 de agosto de 1970, seu nome figurou como o terceiro de uma mulher na “Lista dos Dez Fugitivos Mais Procurados do FBI”. Acusada de envolvimento na fuga da prisão de três ativistas, teve sua prisão decretada pelo estado da Califórnia. Angela fugiu do estado e desapareceu por dois meses, sendo alvo de uma das maiores caçadas humanas do país na época, acompanhada a cada dia por todos os veículos.

Foi presa em Nova Iorque, em outubro e seu julgamento durou 18 meses, colocando-a no centro das atenções de toda a mídia do país. Os debates intensos trouxeram à tona enorme discussão sobre a condição negra na sociedade norte-americana. A TV mostrava ao vivo para país inteiro as manifestações diárias por sua absolvição.

Ela foi inocentada de todas as acusações e libertada. John Lenon e Yoko Ono lançaram a música “Angela” em sua homenagem e os Rolling Stones, “Sweet Black Angel”. Angela Davis se tornava definitivamente um ícone de uma época.

Corta para 2026. Rio de Janeiro. Brasil. 82 anos completados em janeiro. Suavemente ela pergunta: “E a palestina?”

Lição final: Uma tigresa não nega jamais a sua natureza, ataca sempre corajosamente.

 

 

 

 





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