Por Pedro Chê*
Esse será o primeiro de uma série de quatro artigos em que nos debruçaremos sobre como pensa o brasileiro a respeito da segurança pública e assuntos relacionados.
Com o acesso à maior pesquisa já realizada com o objetivo de compreender o pensamento brasileiro, conduzida pelo ICL em parceria com a Ágora Consultores, pude constatar um fato simples sobre nós: é arriscado presumir nossas opiniões a partir apenas de estereótipos e categorizações rígidas. É um erro achar que somos água destilada, somos água do mar.
A pesquisa demonstra que existem alguns espaços de maior previsibilidade, sobretudo quando o segmento analisado é definido a partir de posições ideológicas; ainda assim, trata-se, em certo nível, de uma exceção. Além da necessidade de uma revisão generalizada de nossas “certezas”, o estudo trouxe outra revelação. A maior preocupação do brasileiro contemporâneo já é reconhecida e tem nome: segurança pública.
Ao lançar um olhar sobre o primeiro produto interpretativo da pesquisa: a delimitação das seis “comunidades de sentido”. A partir das respostas e posicionamentos coletados, pode-se organizar os entrevistados em agrupamentos marcados por elevado grau de similaridade política/ideológica, onde já pudemos perceber o peso do tema, pois ao menos três dessas comunidades o consideram como central, reunindo 69% dos entrevistados.
O grupo mais numeroso nasce, inclusive, desse fenômeno: a comunidade “Direita da Ordem e Autoridade”, majoritariamente bolsonarista, representa nada menos que 30% da amostra. Ao seu lado aparecem o “Centro em Dúvida e Contradição” e os “Populares por Proteção e Ordem”. Estes últimos, embora não expressem uma visão explicitamente policialesca, como a primeira que enxerga as polícias como o “sal da terra”, ainda assim compreendem a segurança como uma estrutura basilar do campo das políticas públicas.
Governo Lula, a militância e o tema
Já que a segurança pública ocupa preocupação central para 69% da população, era de se esperar que emergisse com potência também no produto dedicado à “Avaliação do Governo Lula”. E a pesquisa confirma essa hipótese: entre aqueles que hoje avaliam negativamente o governo — grupo que alcança 55% — a segurança pública aparece como um ponto mencionado. Ainda assim, a forma como essa preocupação se manifesta difere, em certa medida, do que eu inicialmente supunha, abrindo espaço para uma análise mais cuidadosa e aprofundada.
Há algo próximo de uma boa notícia aqui. Apesar da crítica, não é possível apontar o tema como o principal “calo” da gestão, mas como um entre vários incômodos que, coexistindo na companhia de frieiras, unhas encravadas e outros males a serem administrados nessa podologia política.
Existe também um aspecto dúbio, desafiador — e até propositivo. No cartel de problemas onde está inserida a segurança, ela e suas companheiras são percebidas pela parcela crítica ao governo não de forma isolada ou concorrente, mas dentro de uma espécie de miscelânia. Trata-se de uma articulação desorientada e pouco racional, porém de fácil adesão, sendo as diferentes insatisfações percebidas como pares numa mesma experiência social.
Eles, em suas avaliações, não se restringem as estatísticas, tampouco a dimensão emocional associada à sensação de insegurança, sendo acrescidas de certas ideias, como: o direito favorece o criminoso, os direitos humanos e as leis atuariam como entraves ao trabalho policial, o PT teria conexões umbilicais com o crime organizado, o medo do comunismo e o país imerso em uma corrupção generalizada. Todas essas questões interagindo dentro um mesmo recipiente.
Evidentemente, tais variantes assumem maior ou menor relevância conforme o indivíduo, mas isso não reduz a complexidade do fenômeno. O efeito colateral — e tóxico — desse arranjo é relativamente simples: basta a “ativação” de qualquer uma dessas percepções para que se abra um campo fértil para a crítica.
É importante destacar que esse fenômeno não é um “privilégio” do governo Lula. Trata-se, antes, de uma condição recorrente enfrentada por governos percebidos como de esquerda independentemente dos resultados/indicadores. Inclusive há uma tentativa por certos atores que tentam distanciar a União desse debate, mas acredito que seja um argumento menos convincente do que seus defensores supõem.
Pesquisa da Atlas (2023) indica que 70% entendem ser uma responsabilidade compartilhada de forma equilibrada entre os entes federativos. Além disso, 20% dos entrevistados — contra apenas 6% — atribuem maior responsabilidade à União do que aos Estados, evidenciando que, no imaginário social, o governo federal não é percebido como ator secundário.
Inserida nessa miscelânea de percepções, a segurança pública acaba, enquanto imaginário social, parcialmente “blindada” às boas ações desses governos, e sofrendo em demasia com as intempéries. Por essa razão, mesmo diante da divulgação de melhorias em indicadores de violência e criminalidade, ficam nas cordas — chegando a cambalear — diante do impacto, por exemplo, da operação caótica como a conduzida pelas polícias do Rio de Janeiro nos complexos da Penha e do Alemão.
Essa miscelânea produz efeitos concretos, mas – paradoxalmente-, também aponta em sua razão de ser um caminho possível. Embora a direita utilize a segurança pública como instrumento de acossamento político da esquerda, faz isso apoiada em estruturas argumentativas bastante frágeis, ou seja, se devidamente confrontada – teria pouco a apresentar em termos de resultados e muito a explicar sobre os fracassos.
Pois, se vivemos uma situação crítica — como sugerem alguns indicadores —, a responsabilidade histórica deveria recair muito mais sobre a direita do que sobre a esquerda. É a direita que comanda a segurança pública brasileira em todos os níveis, ao menos desde a Ditadura Militar.
* Pedro Chê é policial e historiador



