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quinta-feira, 4 junho, 2026
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A política não é apenas sobre representação

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Por Jamille Narciso Bezerra*

Damares Alves construiu sua trajetória política a partir de redes evangélicas conservadoras, defendendo pautas associadas à família tradicional e ao combate ao que convencionou chamar de “ideologia de gênero” e proteção à infância. Erika Hilton tornou-se uma das principais vozes do movimento LGBTQIA+ no Congresso Nacional, defendendo direitos sexuais, diversidade e inclusão.

Para muitos brasileiros, elas representam projetos políticos incompatíveis. E representam mesmo.

Mas existe uma pergunta mais interessante do que listar suas diferenças: por que ambas se tornaram figuras centrais da política brasileira?

A resposta ajuda a compreender algo importante sobre a democracia contemporânea.

Durante muito tempo, determinados grupos sociais existiam como objeto da política, mas raramente como sujeitos dela. Eram mencionados em campanhas eleitorais, apareciam em estatísticas e serviam de base para promessas de governo, mas tinham pouca capacidade de transformar suas próprias experiências em agenda institucional.

Isso começou a mudar.

A ascensão de Damares Alves não pode ser explicada apenas pelo crescimento dos evangélicos. Ela é resultado de décadas de organização religiosa, formação de lideranças, construção de redes femininas e ocupação gradual dos espaços institucionais. Antes de chegar ao Senado, houve um longo processo de mobilização que transformou presença social em capacidade de influência política.

Algo semelhante pode ser dito sobre Erika Hilton. Sua trajetória não surge apenas da ampliação da visibilidade LGBTQIA+ na esfera pública. Ela também é fruto de movimentos sociais, organizações da sociedade civil, disputas culturais e processos de formação política que permitiram transformar experiências historicamente marginalizadas em representação institucional.

Os projetos são distintos. As agendas frequentemente se chocam. Mas ambas revelam um mesmo fenômeno: grupos sociais compreenderam que não basta existir socialmente. É preciso disputar os espaços onde as decisões são tomadas.

A recente mobilização contra a escala 6×1 oferece outro exemplo desse processo.

Durante anos, a exaustão de milhões de trabalhadores foi tratada como algo natural. Trabalhar seis dias para descansar um parecia parte inevitável da vida. O tema aparecia em conversas de bar, redes sociais e reclamações cotidianas, mas dificilmente alcançava o centro do debate político nacional.

Isso mudou quando a demanda encontrou representação.

Para além da indignação aumentada, a discussão sobre a redução da jornada de trabalho ganhou força porque houve articulação política capaz de transformar uma experiência coletiva em pauta institucional.

Essa talvez seja uma das principais lições da democracia brasileira recente:

Os evangélicos entenderam isso.

Os movimentos LGBTQIA+ entenderam isso.

Os trabalhadores que hoje questionam a escala 6×1 também entenderam isso.

Direitos, interesses e reivindicações raramente avançam apenas porque são legítimos. Eles avançam quando encontram formas de organização capazes de convertê-los em disputa política.

A recente decisão do Senado de sustar a resolução do Conanda sobre o atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual foi recebida por organizações feministas e entidades de direitos humanos como um retrocesso na proteção das meninas vítimas de estupro. Seus defensores, por outro lado, argumentaram que a medida foi uma correção institucional diante do que consideravam uma extrapolação das competências do conselho.

Todos afirmam defender as crianças. O desacordo está em quem possui legitimidade para definir como essa proteção deve ocorrer.

Mais interessante do que decidir quem está certo é observar o que o episódio revela sobre a dinâmica democrática. A controvérsia não ocorreu apenas nas redes sociais ou no campo das ideias. Ela foi convertida em disputa institucional, mobilizando parlamentares, organizações da sociedade civil, movimentos religiosos e coletivos feministas.

Quando diferentes grupos conseguem transformar suas interpretações sobre proteção, família, infância e direitos em matéria legislativa, estamos diante de algo maior do que um desacordo moral. Estamos diante da disputa pelo poder de definir quais experiências sociais serão reconhecidas como legítimas pelas instituições.

Quando uma liderança evangélica assume protagonismo, determinados setores enxergam ameaça. Quando uma mulher trans passa a ocupar espaços historicamente reservados a outros grupos, a reação também aparece. Quando trabalhadores conseguem transformar sua insatisfação em pauta legislativa, surgem resistências econômicas e políticas.

Nada disso é sinal de fracasso da democracia.

Em muitos casos, é exatamente o contrário.

A democracia se torna mais complexa quando grupos diferentes passam a disputar legitimamente o direito de representar suas experiências e influenciar os rumos do país.

A mobilização contra a escala 6×1, a ascensão de lideranças evangélicas conservadoras, a ampliação da representação LGBTQIA+ e a controvérsia envolvendo o Conanda apontam para uma mesma transformação. Grupos historicamente sub-representados compreenderam que participar da política não significa apenas ocupar espaços institucionais. Significa disputar o poder de definir quais experiências sociais serão reconhecidas, protegidas e transformadas em direitos.

Afinal, quem tem autoridade para definir o significado dos direitos que orientam a vida pública?

* Doutoranda em Ciências Sociais pela PUC-Rio e pesquisadora das relações entre religião, política e gênero no Brasil contemporâneo. Investiga como grupos sociais transformam pertencimento, valores e experiências coletivas em formas de participação política e ocupação dos espaços de poder.





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