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segunda-feira, 16 março, 2026
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A Musa chegou: os arquétipos imortais das CPIs brasileiras

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O Palco nunca muda

O Brasil tem uma relação antiga e ambígua com suas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs). Mais antiga do que se costuma lembrar: em 1826, apenas dois anos após a primeira Constituição brasileira, um grupo de parlamentares já se reunia para examinar as condições do Banco do Brasil. Não usavam o nome CPI, mas faziam exatamente o que se espera de uma: fiscalizar o poder.

Desde a redemocratização de 1988, o Congresso Nacional instalou mais de 50 CPMIs, além de dezenas de CPIs isoladas na Câmara e no Senado. Algumas mudaram o curso da história, como a que derrubou Fernando Collor em 1992, a que expôs o esquema dos Anões do Orçamento em 1993 e a que tratou das omissões do Governo Federal no enfrentamento da Pandemia da Covid-19. Outras terminaram sem relatório aprovado, sem indiciamentos, sem consequências: viraram sinônimo do que o vocabulário político brasileiro consagrou como “terminar em pizza.”

Mas há uma dimensão da CPI que transcende o seu resultado jurídico e que raramente é analisada com a seriedade que merece. A CPI é, antes de tudo, uma função atípica do Legislativo. Ela não legisla, não representa, não fiscaliza. Na prática, porém, tornou-se também um instrumento eficaz de desgaste político do governo, utilizado pela oposição sempre que o timing é favorável.

O Álbum de figurinhas da República

Toda CPI de grande repercussão no Brasil convoca, quase por instinto coletivo, um conjunto previsível de personagens. São arquétipos que se repetem com uma regularidade perturbadora, como se o país obedecesse a um roteiro já escrito e apenas distribuísse novos rostos para papéis eternos.

O primeiro é o Banqueiro ou Empresário Suspeito. Ele aparece impecavelmente vestido, assessorado por bancas de advogados caros, e responde a cada pergunta com uma variação de “não me recordo” ou “os documentos falarão por si.” Salvatore Cacciola na CPI do Sistema Financeiro, Marcos Valério na CPI dos Correios, Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS” na CPMI do INSS: diferentes épocas, mesmo figurino, mesma cadeira.

O segundo é o Servidor Honesto Indignado. Funcionário de carreira, tecnicamente competente, ele surge como uma anomalia virtuosa num sistema corrupto. Sua aparição provoca comoção genuína. Na CPI da Pandemia, Luis Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde, apresentou ao Congresso documentos que apontavam pressões irregulares na compra de vacinas. O país assistiu, emocionado, a um homem que escolheu o risco pessoal em nome do interesse público.

O terceiro é o Político Calculista, aquele que usa a CPI não como instrumento de verdade, mas como palanque. Ele pergunta com veemência para as câmeras e negocia nos corredores. Protagoniza confrontos que viram clipes nas redes sociais e, ao final, vota conforme as alianças do momento.

O quarto é o Operador nas Sombras, aquele cujo nome demora a aparecer, mas que, quando surge, conecta todos os outros. Na CPI dos Bingos, Waldomiro Diniz foi o operador filmado. Na CPI do Mensalão, o nome de Marcos Valério apareceu em tantos fios que parecia segurar a tapeçaria inteira. Agora na CPMI do INSS, essa cadeira parece ser ocupada por Daniel Vorcaro.

Esses quatro arquétipos formam o núcleo do álbum. Mas havia, na CPMI do INSS, uma figura que ainda faltava. Até a última semana.

A Musa

Existe um arquétipo que não aparece em todos os inquéritos, mas que, quando aparece, transforma a natureza do espetáculo. Ela não é a especialista que explica, nem a vítima que comove, nem a aliada que acusa. Ela é a Musa.

A Musa geralmente emerge do círculo privado do investigado. Ela carrega consigo algo que documentos contábeis e planilhas financeiras jamais conseguem transmitir: o ambiente, o contexto humano, os bastidores do poder. Ela conhece o acusado em sua dimensão mais pessoal, frequentou os espaços onde decisões eram tomadas informalmente, viveu a intimidade.

Sua função processual pode ser limitada. Mas sua função narrativa é ilimitada. A Musa não é uma testemunha comum. Ela é narrativa encarnada e permite a novelização da política, a transformação de um escândalo técnico, árido e repleto de jargão financeiro, em uma história com personagens de carne e osso e com tensão dramática.

É ela quem devolve a humanidade ao escândalo. E, com isso, devolve ao público a atenção que os gráficos de desvio orçamentário jamais sustentariam por mais de três minutos num feed de notícias.

Um inventário de musas

O papel da Musa tem história no contexto investigativo do Parlamento brasileiro, ainda que raramente narrada sob essa perspectiva.

Na CPI dos Bingos, instalada em 2005 para investigar o ex-assessor da Casa Civil Waldomiro Diniz e suas ligações com o mundo dos jogos ilegais, o nome de Andressa Mendonça, companheira do contraventor Carlinhos Cachoeira, circulou nos bastidores da comissão com uma aura de potencial revelador. Ela representava a ponte entre o universo das contravenções e o ambiente político onde decisões eram tomadas. A possibilidade de seu depoimento mobilizou a cobertura jornalística de forma desproporcional à sua participação formal no esquema investigado.

Na CPI da Pandemia, em 2021, o arquétipo ganhou uma dimensão inédita e mais sofisticada. A médica Luana Araújo, especialista em doenças infecciosas pela UFRJ, indicada para a Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19 e que teve sua nomeação bloqueada pelo governo, compareceu à comissão com uma combinação rara: competência técnica inquestionável, coragem institucional e uma presença que paralisou as câmeras. Ela não era a musa no sentido convencional do termo, mas cumpriu o mesmo papel funcional: personalizou, humanizou e dramatizou o que poderia ter sido apenas uma sequência de dados epidemiológicos. Seu depoimento foi um dos mais assistidos de toda a CPI.

Foto: Bruno Haddad

 

Na CPMI do INSS, em março de 2026, a figurinha faltante finalmente chegou. Martha Graeff, ex-noiva do banqueiro Daniel Vorcaro, foi convocada para, segundo a justificativa, “como testemunha direta de comunicações e encontros que misturam interesses privados de uma instituição financeira sob investigação com a esfera pública”. Traduzindo: ela sabe quem estava na sala quando as coisas aconteciam. Ela é a testemunha do ambiente, não necessariamente do crime. E é exatamente isso que a torna irresistível para a narrativa.

A modelo e influenciadora Martha Graeff, ex-noiva de Daniel Vorcaro. Foto: Reprodução
A modelo e influenciadora Martha Graeff, ex-noiva de Daniel Vorcaro. Foto: Reprodução

Por que a Musa vende?

A resposta curta é: porque ela transforma o abstrato em concreto.

Fraudes em créditos consignados de aposentados são um escândalo grave, com consequências reais para milhões de brasileiros vulneráveis. Mas elas são difíceis de narrar de forma que prenda a atenção. Envolvem fluxos financeiros, intermediários, associações fraudulentas, siglas de instituições. São áridas.

A chegada de uma figura com apelo narrativo muda esse quadro radicalmente. O Google Trends dispara. Os cliques multiplicam. Os programas de variedades, que normalmente ignoram sessões parlamentares, passam a cobrir os bastidores. As redes sociais produzem memes, “análises” e especulações. A CPI, que estava confinada ao público habitual de acompanhadores de política, passa a alcançar uma audiência muito mais ampla.

Do ponto de vista da estratégia parlamentar, a Musa também serve. Ela desvia o foco das questões mais complexas e tecnicamente difíceis de explorar midiaticamente. Ela atrai para si a atenção que, de outra forma, estaria pressionando os parlamentares a aprofundar perguntas sobre fluxo de recursos, responsabilidade institucional e omissão regulatória. Ela é, simultaneamente, um acelerador de audiência e, paradoxalmente, um amortecedor de pressão sobre o núcleo duro da investigação.

Perguntas incômodas

Depois de quase duzentos anos de investigações parlamentares no Brasil, alguns séculos do instrumento no mundo ocidental e mais de 50 CPMIs desde a redemocratização, algumas perguntas persistem sem resposta satisfatória.

O que as CPIs de fato entregam, além do espetáculo? A maioria dos processos gerados por CPIs se arrasta por décadas no Judiciário. Muitos prescrevem. Outros se dissolvem em recursos e habeas corpus. A CPI produz narrativa. Produz desgaste político. Produz manchetes. Mas produz justiça com uma frequência que não conforta e não empolga.

Os próprios arquétipos não seriam uma forma sofisticada de impedir que investigações sérias avancem? Quando o foco recai sobre o Empresário Impecável, o Servidor Virtuoso e a Musa Misteriosa, quem está examinando os contratos, as cadeias de comando, as omissões dos órgãos reguladores? O espetáculo dos arquétipos pode ser, ele mesmo, uma cortina de fumaça.

E a Musa, especificamente? Ao inflamar o noticiário, ao atrair para si a atenção de uma audiência que de outra forma não acompanharia os trabalhos, ela não termina por proteger, paradoxalmente, os verdadeiros operadores do esquema? Enquanto o país debate o que ela sabe ou não sabe sobre o ambiente privado do banqueiro, quem está perguntando por que o sistema de controle interno falhou sistematicamente durante anos?

A CPI é um instrumento legítimo e necessário da democracia representativa. Mas é também um espelho fiel da política brasileira: capaz de revelar muito, de punir pouco e de transformar qualquer escândalo em narrativa com começo, meio e, quase certo, o mesmo fim ambíguo.

O palco nunca muda. A musa chegou e o roteiro continua sendo escrito.





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