Por Gisele Agnelli*
O conflito entre Estados Unidos e Irã não é apenas mais um episódio no turbulento histórico do Oriente Médio. Ele expõe uma tensão mais profunda: a possível ruptura entre a doutrina estratégica que orienta parte do establishment de defesa norte-americano e a lógica política que define o segundo mandato de Donald Trump.
Na arquitetura estratégica defendida por Elbridge Colby, em The Strategy of Denial (A Estratégia da Negação), a prioridade estrutural da política externa americana é impedir a hegemonia chinesa na Ásia. O restante, Rússia, Irã e o Oriente Médio, deveria ser administrado, contido, gerenciado. O Irã sempre foi tratado como uma ameaça regional séria, mas gerenciável. A contenção poderia ocorrer por meio de dissuasão, alianças e superioridade naval e aérea. Mesmo a hipótese de um Irã nuclear, em versões anteriores desse raciocínio estratégico, não alteraria radicalmente o equilíbrio global. Complicaria o tabuleiro regional, mas não redefiniria a ordem internacional.
Essa lógica partia de um cálculo simples: o Oriente Médio não deveria consumir o foco estratégico dos Estados Unidos. Uma guerra aberta, porém, muda completamente essa equação. Conflitos na região raramente permanecem confinados ao espaço em que começam. No cenário internacional atual, o Irã não opera isoladamente. Está inserido em um ecossistema geopolítico que envolve o financiamento do Hezbollah, a proximidade com a Rússia e uma rede de cooperação pragmática que inclui fornecimento de drones para Moscou na guerra da Ucrânia, exercícios navais conjuntos e mecanismos paralelos para contornar sanções internacionais. Ao mesmo tempo, mantém negócios energéticos robustos com a China, exportando cerca de 80% a 90% de seu petróleo para o país.]
Uma guerra contra o Irã, portanto, não ocorre no vácuo. Cada navio deslocado para o Golfo Pérsico é um recurso a menos disponível no Indo-Pacífico. Trata-se exatamente do tipo de dispersão estratégica que Colby sempre alertou ser necessário evitar.
O elemento novo do momento é a transformação da doutrina “America First” em política externa sistemática. Durante a campanha do Trump 2, o slogan foi apresentado como um programa de retração internacional: menos guerras, menos compromissos multilaterais e maior foco doméstico.
Na prática, porém, o segundo mandato revela algo distinto. O “America First” opera simultaneamente em duas dimensões: interna e externa.
Internamente, reorganiza a política americana em torno da expansão do aparato coercitivo do Estado, do engrandecimento do poder executivo e da construção de uma identidade nacional cristã de matriz WASP. Externamente, questiona instituições multilaterais e relativiza o princípio clássico da soberania estatal quando interesses estratégicos dos Estados Unidos entram em jogo.
É a política do bullying do mais forte: unilateral e transacional.
Essa mudança altera não apenas a diplomacia, mas também a percepção global dos Estados Unidos. Quanto mais Washington age de forma unilateral, mais reforça a narrativa, difundida no mundo islâmico e em parte do Sul Global, de que a ordem internacional é apenas uma extensão do poder americano. O resultado previsível é a radicalização política e o crescimento do ressentimento antiamericano.
Um dos sinais mais reveladores dessa transformação é a mudança de linguagem dentro do próprio establishment de defesa. Em audiências recentes, Colby passou a descrever um Irã nuclear como uma “ameaça existencial”. À primeira vista, trata-se apenas de uma adaptação retórica. Estrategistas que entram no governo frequentemente adotam vocabulário mais duro para acomodar coalizões políticas e sensibilidades institucionais. Mas quando ameaças deixam de ser tratadas como “gerenciáveis” e passam a ser descritas como “existenciais”, a lógica estratégica se transforma.
É assim que o Departamento de Defesa começou, gradualmente, a funcionar como algo mais próximo de um Departamento de Guerra… não por uma questão meramente semântica, mas por mudança de mentalidade. E mentalidades moldam políticas.
O Irã cumpre funções importantes dentro do eixo informal que conecta Teerã, Moscou e Pequim. Militarmente, fornece drones e experiência operacional que fortalecem a Rússia na Ucrânia. Energeticamente, funciona como fornecedor crucial de petróleo para a China, grande parte vendido com desconto e fora do regime de sanções.
Além disso, o Golfo Pérsico permanece como uma das regiões mais estratégicas do planeta: cerca de um quinto do petróleo global passa pelo Estreito de Ormuz. Controlar essa região produz efeitos diretos sobre a economia asiática. Sob essa ótica, enfraquecer o Irã poderia ser interpretado como uma forma indireta de pressionar o eixo sino-russa.
A verdadeira questão, portanto, não é se os Estados Unidos têm capacidade militar para derrotar o Irã. A questão central é outra: se Washington consegue fazê-lo sem destruir a própria lógica estratégica que afirma defender. Uma guerra limitada, rápida e calibrada poderia ser enquadrada como instrumento de pressão dentro da competição global com a China. Além disso, internamente, Trump pode agir inicialmente sem aprovação do Congresso. Uma guerra prolongada, porém, teria o efeito oposto: exigiria autorização do Congresso, dispersaria recursos estratégicos, elevaria os preços de energia e aumentaria o risco de China e Rússia apoiarem Teerã.
No fundo, o dilema americano não é militar. É político.
Elbridge Colby construiu sua reputação defendendo disciplina estratégica e hierarquia de ameaças. Hoje, porém, opera dentro de um sistema político cada vez mais dominado por impulsos de curto prazo, polarização doméstica e escalada retórica.
No segundo governo Trump, a política externa americana corre o risco de perder algo fundamental para qualquer grande potência: a capacidade de hierarquizar ameaças. Quando tudo é apresentado como perigo existencial: da China à Venezuela, do Irã às drogas, da imigração às disputas comerciais. desaparece o espaço da estratégia.
No front doméstico interno, além de Trump 2 já ser o presidente mais impopular da história, a pesquisa da Reuters/Ipsos mostra que Trump entrou na guerra sem maioria doméstica. Apenas 27% dos americanos aprovam os ataques ao Irã. Mesmo entre republicanos, embora 55% apoiem os ataques, 42% dizem que retirariam apoio se soldados americanos morrerem. Ou seja, o suporte é condicional. Em um ano eleitoral, com a economia sendo a principal preocupação do eleitorado, qualquer alta no preço da gasolina ou aumento de baixas pode transformar essa guerra em um custo político significativo.
O dado mais significativo desta pesquisa não é só o baixo apoio geral, é a fragilidade do consenso republicanos. Para os “falcoes republicanos”, tradicionais, veem o Ira como uma ameaça, mas a base MAGA, nacionalista-populista, foi cria de Trump, do “America first” e se opõe a guerras intermináveis como Afeganistão ou Iraque da era Bush.
Sem prioridades claras, a superpotência passa a agir como a Rainha de Copas em Alice no País das Maravilhas: reagindo com fúria a tudo e pensando estrategicamente em nada.
*Gisele Agnelli é socióloga e analista política, autora do Autocracia made in USA, fundadora do Agnelli & Bauer Strategies e Fellow do Washington Brazil Office (WBO)



