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terça-feira, 10 fevereiro, 2026
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A ginga de Exu e a caminhada de Oxalufã: desafios do Brasil

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Oxalufã é o orixá que tem como positividade a paciência, o método, a ordem, a retidão e o cumprimento dos afazeres. Tudo que é contrário a isso representa a negatividade que pode prejudicar seus filhos. Ifá revela que quando se desviou da missão a ser executada e tomou um porre de vinho de palma, Oxalufã comprometeu a tarefa da criação do mundo. Em outra ocasião, quando também tentou agir por instinto e teimosia, não seguindo a recomendação do babalaô, Oxalufã foi preso ao fazer uma viagem ao reino de Xangô, acusado injustamente pelo furto de um cavalo. Ficou preso durante sete anos.

A dança de Oxalufã é solene, marcada pelo ritmo lento e constante dos atabaques. Apoiado em um cajado, coberto por um pano branco, ele exige respeito e é reverenciado por todos os orixás. Seus filhos evitam bebidas destiladas e são submetidos a uma série de tabus alimentares que envolvem, por exemplo, os alimentos que levam dendê. Oxalufã é, enfim, o músico que não toca sem partitura e não quer firulas que driblem o rigor bonito e sério do que vai escrito na pauta. Oxalufã gosta de ficar em casa, mas sabe a hora de ir pra rua.

Exu vive no riscado, na fresta, na casca da lima, malandreando no sincopado, desconversando, quebrando o padrão, subvertendo os arrepiados do tempo e gingando capoeiras no fio da navalha. Exu é o menino que colheu o mel dos gafanhotos, mamou o leite das donzelas e acertou o pássaro ontem com a pedra que atirou hoje: Exu é chegado aos fuzuês da rua, mas sabe a hora de ficar em casa.

O Oxalufânico e o Exusíaco não são opostos, em dicotomia estática. Oxalufã, a retidão, tentou burlar o ebó no processo de criação do mundo. Exu, o desregrado, é também o que fiscaliza o cumprimento das regras. Foi ele que pregou peças em Oxalufã quando percebeu que este não estava cumprindo os deveres da criação conforme o que fora estabelecido por Olodumarê. Oxalufã pode ser Exusíaco e Exu pode ser Oxalufãnico. Oxalufã não quer fazer ebó. Exu pune quem não faz o ebó marcado. Viver o Exusíaco e o Oxalufânico demanda reconhecimento de qual impulso nos levará, em determindada circunstância, a trilhar o ona buruku (o caminho da morte) ou o ona rere (o caminho da vida).

O momento brasileiro me parece exigir ações exusíacas e oxalufânicas cruzadas, potencialmente desestabilizadoras da ordem normativa, de forma dobrada: há que se ter o poder da travessura/atravessamento, e o rigor tático/metódico para continuar.

A luta longa é para inviabilizar o buruku (o horror, a perda do axé, o desencanto, a violência, a pulsão aniquiladora, a ignorância, o descalabro, o mundo sem livros e tambores) e fazer o ebó cotidiano que abra caminhos no meio das ruínas. Só nos resta a invenção de um Brasil capaz de potencializar tudo que nos conduza, de forma não oposta ou mecânica, ao equilíbrio entre a conduta firme do caminho de Oxalufã, porque precisamos saber onde chegar e com quem chegar, e a travessura encruzilhada, brincalhona, incerta e implacável de Exu; para que não sejamos presas fáceis no meio da caminhada.



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