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quarta-feira, 1 abril, 2026
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‘A gente pede desculpas por estar apanhando’: o relato de uma brasileira presa por migrar aos EUA

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Por Heloisa Villela

“Às vezes a gente está tão acostumado a pedir licença pra existir que as coisas acontecem com a gente e a gente pede desculpas por estar apanhando”.

Essa foi a frase que Vivian Oliveira usou para tentar definir e resumir ao ICL Notícias o que passou em duas penitenciárias dos Estados Unidos entre agosto de 2024 e abril de 2025. Ela foi presa quando tratava da atualização dos documentos para permanência em território estadunidense, e só conseguiu a liberdade ao ser deportada. No tempo em que esteve presa, sofreu e viu violências que denunciou em um vídeo que viralizou nos últimos dias nas redes sociais (veja no fim do texto).

“Estou aqui como uma pessoa que passou 213 dias presa sem ter cometido crime algum. Porque migrar não é um crime, migrar é um direito humano. Durante 213 dias, o meu nome se tornou um número”, disse ela na gravação. “Eu vi muitas mulheres sendo abusadas, inclusive eu”.

A fala que impactou milhares de pessoas na internet foi feita durante depoimento na Câmara Municipal de Governador Valadares (MG) no último dia 12 de março, em uma audiência pública convocada para discutir migração. A iniciativa foi da vereadora Sandra Perpétuo (PT).

“Na minha cela, juntamente com mais 59 mulheres, eu convivi com russas, ucranianas, iranianas, mulheres do Paquistão, Afeganistão, China, Geórgia, Armênia, latinas, brasileiras, valadarenses, pessoas com quem eu cresci e estudei junto e me encontrei com elas na prisão”, recordou. Vivian relatou que elas sofriam com privação do sono e de medicamentos, sedação à força,  negligência médica e falta de acesso à água potável, entre outras violências.

A brasileira contou ao ICL Notícias que continua em contato com as ex-companheiras de cela. Estão determinadas a contar tudo que passaram nas mãos do governo estadunidense.

Ex-companheira de cela russa fez desenhos sobre o tempo de detenção

Retorno ao Brasil

Foi na volta ao Brasil que ela recuperou as forças, a dignidade. Vivian disse à reportagem que ao chegar em Natal, algemada e sem documentos, foi muito bem recebida por agentes da Polícia Federal brasileira que foram taxativos: “Os policiais falaram comigo que eu não deveria baixar minha cabeça, que tudo que aconteceu comigo foi errado, sim, que foi um erro gravíssimo. E eu nunca mais abaixei minha cabeça. Foi muito bom escutar isso da polícia da gente”, contou.

Nos meses de detenção injustificada — já que Vivian tinha documentação e um processo em andamento nos Estados Unidos –, a brasileira de Valadares encontrou apoio nas colegas de cela. Ela ainda guarda os desenho de uma das russas, com quem aprendeu até a falar o idioma. São imagens otimistas que mostram, claramente, o quanto a presença de outras mulheres na mesma situação ajudou a garantir um pingo de sanidade.

Juntas, elas presenciaram as cenas degradantes e violentas. Uma colombiana foi revistada na saída do refeitório, na penitenciária do Texas, conta Vivian. A policial julgou que a detenta não abriu as pernas o suficiente para a inspeção. Não teve dúvida: chutou com toda força a colombiana com o coturno pesado que calçava, quebrou a perna dela na hora. Quando a mulher gritou, a policial desferiu mais um chute e quebrou a outra perna. Dias depois, Vivian reencontrou aquela detenta na cela, com as duas pernas engessadas.

A brasileira sofreu na pele os desmandos e abusos do sistema carcerário estadunidense. Em uma ocasião, discutiu e levantou a voz com uma policial que estava xingando outras imigrantes. Como castigo, foi colocada em uma espécie de laboratório-cela, todo de vidro, por sete dias, completamente nua. Homens e mulheres passavam e a observavam. “O chuveiro também era exposto”, conta. E a cama, de ferro, não tinha nem uma espuma para permitir um mínimo de conforto.

De volta à cela, com outras três companheiras, os tormentos eram outros. Ninguém conseguia dormir. As guardas entravam na cela a cada meia hora, de madrugada. Faziam barulho e também abusavam sexualmente de todas elas.

Uma noite, Vivian se lembra bem, uma policial entrou na cela e tirou a coberta de uma por uma das presas. Passou a mão nas pernas de uma, alisou outra e veio na direção de Vivian. Passou a mão nas nádegas da brasileira e quando ameaçou avançar para outras as partes íntimas, Vivian deu um grito. No dia seguinte, quando chegou no refeitório, a mesma policial estava lá e a brasileira não conseguiu comer. Mas ainda tentou denunciar o abuso.

Na cadeia, ela conheceu uma russa que estava com câncer e disse às autoridades várias vezes que precisava de tratamento. Ninguém deu ouvidos e a mulher só foi deportada quando estava em estado terminal. “Ela saiu para morrer mesmo”, conta Vivian. Segundo a brasileira, ninguém recebia remédios ou tratamento na cadeia.

Prisão ilegal

Filha de uma família humilde de Santo Antônio do Pontal, distrito rural de Governador Valadares, Vivan tem 29 anos e viajou para os Estados Unidos, da primeira vez, como turista, já com a intenção de trabalhar e juntar dinheiro para pagar uma faculdade no Brasil. Por conta de problemas com um ex-marido violento, em Massachussets, ela voltou a Valadares, mas precisou regressar aos Estados Unidos para não perder o processo de legalização, que já estava em andamento. Na volta, foi aceita nos Estados Unidos mas do processo de triagem, acabou encaminhada à prisão e só conseguiu deixar o sistema carcerário com a deportação.

Hoje ela mantém contato com quase todas as companheiras de cela com as quais dividiu violências e agressões. Um grupo interessado em trazer à tona tudo que passou e dizer ao mundo o que realmente se passa atrás das grades do programa mais violento que os Estados Unidos já adotaram em relação aos imigrantes.

No último dia de trabalho a frente do Ministério dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo tomou conhecimento do vídeo com o depoimento de Vivian em Valadares e disse ao ICL Notícias que a política de Donald Trump contra a população imigrante é criminosa. Tenta criminalizar trabalhadores, pessoas que estão tentando melhorar de vida. “Por trás desse sonho tinha redes criminosas operando para tráfico de pessoas, exploração sexual de mulheres e crianças, para trabalho análogo à escravidão. Então, estamos tomando consciência do que estava por trás desse suposto sonho americano que nada mais é do que a exploração das pessoas”, afirmou.

A vereadora Sandra Perpétuo, que convidou Vivian a dar seu depoimento, representou a cidade mineira na Conferência Continental para a Defesa dos Direitos dos Migrantes e da Soberania Nacional, no México, em setembro do ano passado. No encontro, os representantes dos nove países presentes organizaram a Jornada Continental, e cada país promoveu alguma atividade em torno do tema. Por isso a audiência pública em Valadares, que agora vai ganhar mais destaque, com um evento semelhante, no mês que vem, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Vivian estará lá novamente.





ICL Notícias

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