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‘A gente não quer mais sangue’: pastores se juntam após Massacre do Alemão e da Penha

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Por Catarina Duarte — Ponte Jornalismo

No Rio de Janeiro, onde megachacinas se repetem com a regularidade de um calendário próprio — uma a cada cinco meses e meio no governo Cláudio Castro (PL) —, um movimento menos ruidoso surgiu no intervalo entre o resgate de corpos na mata, o asfalto e o Instituto Médico Legal (IML). Mais de quarenta lideranças religiosas de diferentes igrejas evangélicas se articularam, movidas pela urgência de apoiar as famílias atingidas pelo massacre que matou ao menos 121 pessoas no Alemão e na Penha.

Nasceu ali a atuação conjunta do “Igrejas pela Vida”, grupo que reúne lideranças que já trabalhavam em diferentes pontos do território e passaram a se organizar de forma mais sistemática quando a demanda se tornou insuportável, após a chamada “megaoperação” policial de 28 de outubro.

A mobilização não foi planejada — ao contrário, nasceu do choque. Como conta Jefferson Rodrigues, o Reverendo Urso, que passou três dias seguidos no IML apoiando as famílias. Depois desse período, conta ele, o corpo cobrou o preço e Jefferson teve uma crise de ansiedade. Precisou ir à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) buscar tratamento médico.

“A gente não tinha nada. Nem banquinha pra colocar água”, lembra o reverendo. As mesas que levou de casa viraram ponto de apoio improvisado para orientar famílias e oferecer água. Segundo Jefferson, a partir dali, pastores e pastoras passaram a se reunir para organizar necessidades, trocar informações e pensar formas de continuar o apoio além dos primeiros dias. Ele resume o espírito dessa união ao afirmar que “não é um trabalho igrejeiro. Ninguém tá ali querendo ninguém pra igreja. É cuidado. Ponto”.

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Mesa com pães, bananas, café e outros itens montada por lideranças religiosas em frente ao IML do Rio de Janeiro para acolher familiares das vítimas do massacre no Alemão e na Penha  (Foto: Reverendo Urso/Divulgação)

Para pastor, o que houve em 28/10 foi “terrorismo”

Na Penha, o pastor Felipe Santos, da Comunidade com Jesus, também se somou ao movimento. Ele contou que o Igrejas pela Vida é formado por lideranças de denominações diversas, como anglicana, luterana, assembleiana e batista. O grupo esteve na comunidade após o que ele descreveu como “terrorismo”, caminhou até o local onde os corpos haviam sido deixados e fez uma oração com as famílias. “A gente não quer mais sangue derramado. Quer vida”, disse.

Felipe relatou iniciativas que já fazem parte da rotina dele e da igreja: a mesa de café para população de rua, o acolhimento de crianças que passam diariamente pelo templo, a reciclagem de tampinhas com moradores e a parceria com uma empresa que transforma plásticos recolhidos no mar em itens usados por comunidades. Depois da chacina, as ações se ampliaram, e o movimento passou a discutir novas formas de atuação, como rodas terapêuticas, apoio psicossocial e articulação com profissionais voluntários, médicos, psicólogos, fisioterapeutas e enfermeiras.

Antes mesmo desse esforço de solidariedade ganhar forma na comunidade, vozes do campo evangélico haviam se manifestado diante do massacre. Em discurso na tribuna da Câmara dos Deputados, Otoni de Paula (MDB-RJ), pastor da Assembleia de Deus Ministério Missão da Vida, afirmou que ao menos quatro mortos na operação seriam “meninos que nunca portaram fuzis” e “filhos de gente da igreja”.

Ele disse considerar inadequado o enquadramento dessas mortes como “baixas de bandido” e chamou atenção para o viés racial das abordagens ao afirmar que, no imaginário policial, “preto correndo na favela é bandido”. Nas comunidades, a presença da Igreja Universal do Reino de Deus também chamou atenção. Uma equipe da igreja montou um ponto de apoio no Complexo da Penha, distribuindo água gelada e oferecendo orações enquanto os corpos eram encaminhados ao IML.

Lideranças religiosas que integram o movimento Igrejas pela Vida durante encontro realizado no Rio de Janeiro após o massacre no Alemão e na Penha (Foto: Arquivo pessoal)

Esforço conjunto busca mitigar impacto econômico

O que antes acontecia na forma de ações isoladas, como a oferta de uma mesa de café, a reciclagem, o trabalho com população de rua, o apoio pastoral cotidiano e os encontros eventuais, ganhou corpo com o esforço conjunto. O Igrejas pela Vida passou a organizar reuniões para mapear demandas, definir grupos de orações com as famílias, apoio no IML, troca de informações sobre documentos e ajuda prática de forma mais integrada.

As lideranças religiosas também têm voltado sua atenção para o impacto econômico deixado por tantas mortes. Jefferson conta que muitas mulheres perderam os companheiros que garantiam a renda da casa e agora enfrentam, além do luto, a insegurança material. O grupo tenta mapear essas famílias, entender quem ficou sem sustento e buscar formas de apoio — ajudando a reorganizar a rotina das crianças, garantindo acesso a serviços básicos ou articulando iniciativas que aliviem sua situação financeira.

A pastora luterana Lusmarina Campos Garcia, teóloga e doutora em direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), rechaçou a operação conduzida pelo governo Cláudio Castro. “O que aconteceu ali foi uma chacina, uma política de extermínio. As famílias estão dilaceradas, vivendo uma dor que exige presença pastoral contínua”.

Lusmarina conta que as pessoas estão aterrorizadas e que a esperança que resta vem da fé, da confiança de que Deus acolhe quem teve a vida interrompida. Ela acredita que a presença pastoral é fundamental para afirmar a esperança da ressurreição, apoiar no processo de luto e identificar necessidades imediatas, como alimento, itens básicos e acesso à saúde.

Ela também menciona a mobilização institucional. O Sínodo Sudeste da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil publicou uma carta lamentando as mortes e pedindo que as comunidades acolhessem as famílias enlutadas. O contexto em que essa reação acontece é de agravamento da letalidade policial no estado. Segundo o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni/UFF), já são onze megachacinas na gestão Cláudio Castro, quatro delas entre as maiores registradas no estado.

Estudos do grupo mostram ainda que quase 85% das operações policiais no Rio são pouco eficientes, ineficientes ou desastrosas, e que a repressão é desigual, com 40,2% dos tiroteios com participação policial ocorrendo em áreas de tráfico, enquanto apenas 4,3% acontecem em regiões controladas por milícias. Mesmo assim, diante do massacre do Alemão e da Penha, em que houve mais mortos do que armas apreendidas e o principal alvo não foi preso, Castro classificou a operação como “um sucesso” na coletiva do dia seguinte.



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