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domingo, 1 março, 2026
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A Doutrina Netanydonroe – ICL Notícias

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Todos sabemos, ou deveríamos saber, sobretudo após a carnificina em escala industrial da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), que as guerras – todas elas, sem exceção – são a materialização do horror constante. Uma sinfonia macabra onde a vida de crianças e inocentes é a melodia mais dissonante e, paradoxalmente, a primeira a ser silenciada. Goya já o sabia quando pintou os “Desastres da Guerra”: a verdade jaz enterrada sob os escombros, e os “monstros” nascem do sono da razão. No entanto, o eco dos destroços de Guernica, dos fornos de Auschwitz, das cinzas de Hiroshima e Nagasaki parece ter se tornado um ruído branco para os ouvidos dos novos senhores da guerra. Os ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, deflagrados em 28 de fevereiro de 2026, sob a égide da “Operação Leão Rugidor”, não são apenas mais um capítulo na sangrenta história do Oriente Médio, são a certidão de óbito de uma era e a proclamação de uma nova e aterradora doutrina: a “Doutrina Netanydonroe”.

O nome não é fortuito. Ele funde, numa palavra-valise de horror, os sobrenomes de Netanyahu e Trump à velha Doutrina Monroe – aquela que, desde 1823, sob o pretexto de proteger as Américas do colonialismo europeu, serviu de biombo para o mais longevo projeto imperialista da história da humanidade. “América para os americanos”, dizia James Monroe, e o que se leu, na prática, foi: “América para os Estados Unidos”. Agora, dois séculos depois, a doutrina foi anabolizada e globalizada. Já não se trata de um hemisfério, trata-se do planeta inteiro. O “Mundo para os Americanos e seus Aliados” é a versão atualizada e sem pudor do velho imperialismo, agora com bombas de precisão e coletivas de imprensa transmitidas ao vivo.

A frágil ordem internacional, concebida sobre as cinzas do último grande conflito global e simbolizada por uma Organização das Nações Unidas cada vez mais espectral, foi simplesmente pulverizada. Não restou sequer o verniz. A linguagem cruel e didática de Donald Trump e Benjamin Netanyahu, uma mistura tóxica de messianismo, oportunismo e violência, nos devolveu a um estado de natureza hobbesiano em escala planetária, aquele “bellum omnium contra omnes” (a guerra de todos contra todos) que Thomas Hobbes descreveu no Leviatã, onde a vida é “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”. Vivemos, de fato, a era do Velho Oeste global, ou, para usar uma expressão que ecoa a brutalidade da nossa própria formação colonial, um mundo “sem fé, sem rei, sem lei”, como Pero de Magalhães Gândavo descreveu os indígenas brasílicos em seu Tratado da Terra do Brasil (1573), projetando sobre o outro a barbárie que era, na verdade, a sua própria. A ironia é brutal: os que se diziam civilizadores são, hoje (ou quase sempre) os bárbaros. Ou melhor, os únicos reis, absolutistas e com um poderio militar sem paralelo na história, são precisamente Trump e Netanyahu.

É absolutamente aterrador, e não apenas sob o prisma do direito internacional, essa ficção jurídica conveniente que só funciona para “os mais fortes”, testemunhar o sequestro e assassinato de líderes de outros países soberanos, como vimos com Nicolás Maduro e agora com Ali Khamenei, morto sob os escombros de seu próprio bunker em Teerã, sem que uma coalizão de nações se manifeste concretamente. Onde estão as sanções, os embargos, as condenações veementes que são tão rapidamente aplicadas a outros? O Conselho de Segurança da ONU se reuniu, é verdade, mas para expor suas visões de mundo irreconciliáveis, não para agir. António Guterres “condenou” e “lamentou”, verbos que, na gramática da impotência diplomática, são sinônimos de silêncio. Não seria preciso, mesmo que apenas na ordem do discurso, afirmar o óbvio? Que os Estados Unidos e Israel se tornaram o novo binômio, o novo “Eixo do Mal” do planeta? Que ambos, em sua simbiose de poderio militar e desprezo pela vida humana, representam a maior ameaça à humanidade desde Adolf Hitler? A expressão “Eixo do Mal”, cunhada por George W. Bush em 2002 para designar Irã, Iraque e Coreia do Norte, sofreu uma inversão dialética: o mal, como sempre, estava em casa.

A objeção é previsível e condicionada: “mas e os Khameneis, os Maduros?”. Sim, não passemos pano para as violações de direitos humanos cometidas por regimes autoritários. A tirania é odiosa em qualquer idioma e sob qualquer bandeira. O regime iraniano massacrou seus próprios manifestantes – milhares de mortos na repressão aos protestos de dezembro de 2025, segundo estimativas. A Venezuela de Maduro violou liberdades. Nada disso está em disputa. Mas que medonha hipocrisia é essa que condena o cisco no olho do outro enquanto ignora o míssil Tomahawk no próprio? Os Estados Unidos e o Estado de Israel não representam, cotidianamente, uma mordaça material e simbólica ao mundo? Por que eles podem matar e sair impunes? Por que podem perpetrar um genocídio em Gaza (mais de 75.000 mortos em dezesseis meses, segundo estudo publicado no The Lancet) e agora, como um eco macabro, assassinar e feir centenas de meninas numa escola primária em Minab, no sul do Irã, e ainda serem vistos como os pistoleiros salvadores do mundo?

A morte de uma criança em Gaza não é menos trágica que a de uma criança em Tel Aviv. A dor de uma mãe palestina não é menos real que a de uma mãe israelense. E o corpo de uma menina iraniana soterrada sob os escombros de sua escola, a escola Shajareh Tayyebeh, que em árabe significa “uma boa árvore”, não é menos sagrado que qualquer outro corpo humano sobre a face da Terra. Quando a violência é seletivamente justificada, quando o luto é hierarquizado segundo a nacionalidade ou a religião da vítima, estamos diante daquilo que Hannah Arendt chamou de banalidade do mal: uma maldade que se torna sistêmica, burocrática, executada sem reflexão por homens que apenas “cumprem ordens” ou perseguem “interesses estratégicos”. Eichmann organizava trens para Auschwitz com a mesma frieza com que um burocrata do Pentágono seleciona coordenadas de bombardeio num mapa digital.

Essa violência estatal, que se coloca acima de qualquer lei, é o que Walter Benjamin, em sua Crítica da Violência (1921), chamaria de uma violência mítica, fundadora de um novo direito, o direito do mais forte. Trump e Netanyahu não buscam preservar uma ordem legal, eles buscam fundar uma nova ordem através da força bruta, uma ordem onde sua vontade é a única lei. Eles se tornaram os líderes do maior “Estado fora da lei” do mundo, um “rogue state” que se arroga o direito de decidir quem vive e quem morre, quem é soberano e quem é vassalo. Giovanni Arrighi e Immanuel Wallerstein nos alertaram, há décadas, que a crise terminal da hegemonia americana produziria um “momento caótico” de violência sistêmica. Pois bem: o momento chegou. E ele tem nome, sobrenome e endereço, é Mar-a-Lago, Palm Beach, Flórida. Bem pertinho da antiga mansão de Epstein, sintomático, não?

Não nos iludamos, ninguém e nada está a salvo. Enquanto isso, Netanyahu e Trump se abraçam, sorriem para as câmeras e brincam com o mundo feito “Hynkel”, o Adenoid Hynkel de Charles Chaplin em O Grande Ditador (1940). A cena em que o déspota da Tomânia dança com um globo terrestre, acariciando-o com uma lascívia doentia antes que ele exploda em suas mãos, nunca foi tão atual, nunca foi tão literal. O globo, para eles, não é o lar de oito bilhões de almas, mas um balão a ser chutado, um brinquedo para seu bel-prazer de machos tóxicos e odiosos. Eles jogam o mundo para lá e para cá, em um balé de poder e destruição, e nós, a plateia aterrorizada, assistimos, esperando o momento em que o balão finalmente estoure sobre nossas cabeças.

Chaplin, ao final de seu filme, fez o barbeiro judeu subir ao púlpito e proferir um dos mais belos discursos da história do cinema: “Não sois máquinas! Homens é que sois!” Era um apelo desesperado à humanidade, à compaixão, à paz. Oitenta e seis anos depois, o apelo permanece sem resposta. Os Hinkels venceram. Os barbeiros foram silenciados. E o globo, aquele frágil balão de sonhos, já não dança: ele arde. A “Doutrina Netanydonroe” não é uma política externa, é uma declaração de guerra contra o próprio conceito de humanidade compartilhada. E o silêncio que a acolhe, o silêncio dos governos, das instituições, dos que deveriam gritar, é o som da nossa própria rendição. Carpe diem, leitoras e leitores: o amanhã, se houver, não será como antes.





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