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segunda-feira, 16 março, 2026
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A centralidade da segurança pública (parte 2)

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Por Pedro Chê*

Alguns ainda podem subestimar a centralidade da segurança pública no debate político nacional; acredito, porém, que ao menos entre nossos leitores essa percepção já não se sustente a partir deste artigo. Os dados da pesquisa são eloquentes. Quando questionados sobre as áreas às quais o governo deveria dedicar mais recursos e atenção — em pergunta de múltipla escolha —, 89% dos entrevistados indicaram a segurança pública, colocando-a em primeiro lugar.

Em seguida, ao serem perguntados sobre a gravidade de um cidadão ter seu celular furtado ou roubado, 86% classificaram o fato como “muito grave”, enquanto outros 12% o consideraram “grave”, totalizando 98% de percepção elevada de gravidade.

Especialmente este último dado deveria servir de alerta a determinados setores das militâncias de esquerda que, amparados em leituras mal compreendidas insistem em minimizar a importância — sobretudo — dos crimes patrimoniais. Muitas vezes, as pessoas que se preocupam ou reclamam da violência patrimonial, se pobres, são julgadas por alguns como alienados, consumistas, subordinados a um imaginário pequeno-burguês, minimizando o que se observa no cotidiano das cidades: são justamente eles (os trabalhadores) são as principais vítimas — não apenas desse tipo de crime, mas de toda e qualquer forma de violência.

Opinião: qual o maior medo de pais e mães?

Achei particularmente curioso o fato de a pesquisa ter incluído perguntas de natureza mais pessoal, pois também nesse campo as questões relacionadas à segurança pública dominam as preocupações. Quando questionados, em uma hipótese envolvendo seus próprios filhos, sobre o que mais lhes causaria apreensão, 43% dos entrevistados afirmaram temer que eles “virassem ladrões”, enquanto 31% apontaram como maior preocupação o envolvimento com drogas.

Embora, em tese, o consumo de drogas possa ser compreendido como um tema situado entre saúde pública e segurança, essa distinção parece restrita a nichos específicos do debate público. Para a maior parte da população, o tema ainda é percebido – sobretudo – como uma questão policial e moral. Um indicativo dessa percepção é o fato de que 70% dos brasileiros se declararam contrários à descriminalização do porte de maconha (Datafolha – 2024), apesar do que a ciência traz sobre o seu menor potencial danoso em comparação a drogas recreativas legalizadas, como álcool e cigarro.

Dessa forma, para 74% dos pais — presentes ou futuros — o maior temor em relação aos filhos está associado a questões que podem ser compreendidas como policiais. Além disso, 20% dos entrevistados não souberam responder, o que significa que apenas 6% deslocaram sua preocupação para outros temas — entre eles, o receio de que os filhos se tornem ateus (4%) ou gays (2%).

Não por acaso, grande parte dos homicídios no país envolvem indivíduos classificados como criminosos reais ou supostos (apenas as operações policiais respondem por 10% do total de mortes), e pessoas ‘relacionadas’ ao tráfico de drogas (há secretarias estaduais que estimem que 70% das mortes guardariam essa relação). Existe, portanto, uma forte recriminação moral e social dirigida a essas práticas, o que acaba funcionando, em muitos contextos, como uma válvula de permissividade para a ocorrência de outros crimes — incluindo homicídios e diferentes formas de abuso — ‘legitimados’ ou ignorados sob a alegação de combate a essas condutas ou a essas pessoas pretensamente envolvidas.

É só um celular?

Quando questionados sobre como encaram a ocorrência de um assalto cometido por jovens armados para o roubo de celulares, a maioria reconhece tratar-se de um problema social que deve ser enfrentado com rigor (53%). Outros 32% entendem que se trata de um ato que deveria ser severamente reprimido, inclusive com o uso da violência ou até mesmo da morte, se necessário (achei este um quesito que poderia ter sido mais bem formulada, o ideal é que fosse ser mais assertiva, algo como: “trata-se de um ato violento e considero legítimo que seja reprimido com violência, inclusive com o uso letal da força, caso o policial o entenda necessário”). Já 12% o interpretam como uma decorrência da falta de oportunidades, enquanto 2% declararam não saber opinar.

Entendo a opção majoritária como interessante não apenas pelos números que apresenta, mas pelos fundamentos nas quais se apoia. Ela revela que ainda persiste uma forte crítica social relacionada à ausência do Estado no que diz respeito ao fenômeno criminal, mas acompanhado de um forte senso de responsabilidade individual e à percepção da necessidade de punição.

Entre aqueles que compreendem o assalto como um ato grave que pode admitir, inclusive, uma resposta violenta, observam-se maiores índices entre homens (38%), pessoas entre 30 e 44 anos (42%) e pessoas pretas (40%). Em contraponto, os percentuais são menores entre mulheres (25%), indivíduos com mais de 70 anos (19%) e pessoas brancas (30%). No que se refere à questão racial, eleva-se uma complexidade que frequentemente é negligenciada por determinados atores políticos: pois a população que mais sofre com a violência, em praticamente todas as suas manifestações conhecidas, é a população pobre, especialmente em seu estrato preto. Em tal contexto, é compreensível que esses grupos sociais tendam a expressar posições mais rígidas em relação a criminosos, uma vez que vivenciam de forma aguda e cotidiana os efeitos concretos da insegurança, e isso retornará em outras situações, como veremos.

Há ainda outra posição que se sobressai: a dos mais ricos. Entre eles, 60% optaram pela resposta “não sei”, enquanto essa mesma alternativa foi escolhida por apenas 1% entre os mais pobres. Embora possa soar como uma resposta que beira a extravagância, mas quando observada a partir da experiência cotidiana da maioria da população, ela evidencia de forma contundente uma realidade específica: quem sofre, não esquece.

Quanto à opção “falta de oportunidades”, alguns recortes se destacam: entre aqueles que não acreditam em Deus (28%), entre indivíduos identificados com a centro-esquerda (26%) e moradores da região Centro-Oeste (20%) — dado que surpreende, considerando tratar-se de um reduto atualmente mais conservador. Os eleitores de Lula também aparecem com elevada adesão a essa interpretação (51%). Em contraste, apenas 8% dos evangélicos, 1% dos eleitores identificados com o centro político, e 10% dos eleitores de Bolsonaro e residentes da região Norte do país adotaram essa mesma leitura.

*Policial civil e historiador

 





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