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sábado, 6 junho, 2026
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A bruxa da maromba velha

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Ilustração, Ana Clara Martins

Isaura tremia toda pelo frio da madrugada e pelo temor de ir visitar a bruxa. Sua mãe insistiu em sair na hora mais alta da lua, quando os vizinhos dormiam num sono pesado, sem a chance de vê-las remando na direção da maromba velha na boca do Jacaré.

Era como chamavam o lago daquelas bandas, Jacaré. Durante o período de cheia ficava sinuoso como a maioria dos rios, mas durante a seca virava um lago com vastos quilômetro no meio e um regato que desembocava no rio como um V, ou como os mais velhos chamavam, a boca do jacaré.

Remaram com cuidado para não bater no casco, tinham medo de serem pegas fazendo algo digno da reprovação dos outros. Aquela mulher era conhecida por ser sádica. Diziam que havia feito feitiços para deixar mulheres estéreis ou loucas, homens em cadeira de rodas ou sem voz, arrancava membros com a mesma trivialidade de quem varre uma casa, ou lava uma louça, como algo cotidiano.

Aquela era a última alternativa.

Na primeira semana, Isaura sentiu enjoos vertiginosos, colocava pra fora tudo que comia, segurava no estômago somente líquidos. Passou a viver tomando chá e se alimentando de caribé.

— Isso é infecção intestinal. Chá da japana-branca vai te fazer ficar boa!

Sua mãe, sempre prestativa, preparava ao menos três vezes ao dia o chá da japana, na esperança de fazer a filha melhorar. E Isaura ficou boa, durante o restante daquela semana.

Na semana seguinte, seus cabelos começaram a cair e os dentes a doer. Novamente, sua mãe tratou de arrancar folhas de goiabeira e macerar bastante em água limpa para lavar a cabeça da filha. Isaura sempre teve o cabelo bonito e o sorriso de fazer os olhos dos outros se encher de brilho.

— Não sei a quem puxou, mas é bonita que faz gosto — afirmava sua dócil mãe, toda orgulhosa da caçula.

A terceira semana chegou sem anúncio. Com suas unhas amarelando e caindo, uma a uma. Como se não fosse terror o suficiente, um dos molares caiu e um cheiro podre começou a exalar de seu corpo.

— O que tá acontecendo comigo, mãe?

— Acho que puseram um feitiço em tu.

Foi a conclusão mais sensata naquelas circunstâncias. Para tirar a dúvida, a velha sabida pegou um ovo de pata e mandou Isaura dormir com ele debaixo da cama. Noite após noite, Isaura rolava sobre o colchão fazendo o estrado ranger, aflita por uma conclusão. Após as três noites, sua mãe mandou que ela quebrasse o ovo dentro de um copo de vidro, então veio a certeza. Algo viscoso e preto escorreu para dentro do recipiente.

— É feitiço mesmo.

Dali em diante, o cheiro piorou. Isaura esfregava a pele com uma escova de lavar roupa, com cerdas grossas e rígidas, até o sabão virar espuma, na expectativa de tirar aquele odor pestilento. Parava ao sentir a pele arder, mesmo assim, o fedor permanecia. Voltou a colocar os intestinos para fora, o cabelo saía em tufos quando penteava, já os dentes caíam sem aviso, um ou dois por dia.

— Chega. Vamos até a bruxa — decretou sua mãe. — Vou usar nossa herança de família, tua vida vale mais.

Embora sua mãe fosse cheia de sabedoria, sabia reconhecer seus limites, pois feitiço no interior era coisa séria. Dona Ziló pegou o jogo de prataria que deveria ser herança de casamento de Isaura e pôs num caixote de madeira. Na noite de lua cheia, remaram na direção da maromba velha.

A casa decrépita flutuava em silêncio, feita de madeira antiga com colunas de acariquara. Era uma noite sem vento, as águas do lago do Jacaré estavam plácidas, refletindo o brilho da lua. Aportaram sobre madeiras úmidas que não rangiam sob os pés.

Sem manifestar palavra alguma, andaram na direção da porta e bateram. No mesmo instante, escutaram barulhos dentro da casa, sons de alguém revirando utensílios sobre a mesa. Uma luz acendeu dentro da casa, atravessando as frestas da madeira

— Quem é? — perguntou a voz de dentro.

— Ziló, vizinha. Moro perto das outras casas lá mais embaixo.

— Que quer, Ziló?

— Vim com minha filha, ela está doente. Quero sua ajuda.

— Volte amanhã, vizinha.

— Não posso, ela está por demais adoentada. Tenho medo do amanhã.

O silêncio atormentou Isaura, parecia que uma vida nascia, crescia, vivia e morria, enquanto a bruxa não respondia.

— Pois bem, entrem!

A casa era estranhamente organizada. Tinha um petisqueiro de madeira com duas gavetas e portinhas com o centro de vidro, de onde era possível observar a prataria e um jogo de porcelana. Uma mesa enorme ocupava a maior parte da sala, cheio de sementes e vidros escuros, tapetes de crochê enfeitavam o chão.

— O que sua filha tem? — perguntou a bruxa.

— Jogaram um feitiço nela — respondeu a mãe, imediatamente.

— Ah, é mesmo?

Isaura não gostou do tom da mulher, quase como um desafio. A bruxa não correspondeu às suas expectativas, era apenas uma velha de cabelo grisalho, olhos limpos de catarata e um camisão comprido, do tipo que as pessoas gostam de usar para dormir. Era decepcionante de tão banal.

A velha acenou para que sentassem à mesa, depois colocou sobre o tampo da mesa um casco de tracajá aberto e limpo, apanhou um punhado de sementes de Jarina e jogou no centro vazio do casco.

— Que interessante — pontuou a bruxa.

— O que é interessante? — perguntou a mãe.

— Parece que sua filha é solteira, não é?

— Isaura tem vinte e quatro anos, está em idade de casar, mas não encontrei um homem decente para ela.

— Parece que você já arranjou casório para a sua filha mais velha, não é?

— O que isso importa?! — manifestou-se Isaura, que não estava gostando nenhum pouco do rumo da prosa.

— Quando eu joguei as sementes de Jarina, mentalizei a razão de alguém enfeitiçar você menina. Mas veja só, vizinha, vi sua outra filha chorando muito. Porque será? — perguntou a bruxa matreira, em tom de quem saboreia um segredo.

— Minha Firmina estava grávida, perdeu o neném de seis meses, a primeira gestação pode ser difícil. Digo como mulher.

— E se eu contar que alguém atrapalhou a gestação? Sua filha caçula, por exemplo…

— Como se atreve?! Me recuso a continuar aqui, mamãe. Vamos embora! — exclamou Isaura, saltando da cadeira enfurecida.

— Em nome de Nossa Senhora! Não pode acusar minha menina de fazer mal para a irmã! — retrucou dona Ziló, defendendo Isaura.

— Quando eu abri esse jogo, vi que sua caçula é solteira. Ela ficou com raiva porque a irmã casou com o homem que ela queria. Isaura deu um jeito de fazer a irmã perder o bebê. Deu um bicho podre para as piranhas comerem, depois fez um caldo para tua outra filha comer.

Isaura segurou o braço da mãe, pronta para içá-la da cadeira e fugir daquele lugar. Dona Ziló, no entanto, permaneceu imóvel com os olhos fixos nos lábios da bruxa. Então, começou a chorar.

— Não acredita nela, mãe! É mentira, essa mulher é conhecida por fazer maldade para os outros, não se confia em gente assim!

— Eu nunca matei criança — respondeu a velha. — Tudo tem seu preço, Isaura, você veio aqui esperando encontrar uma bruxa assustadora, parece-me que para encontrar o monstro, bastava se olhar no espelho.

A bruxa levantou e foi buscar uma vela no outro cômodo, entregando nas mãos de dona Ziló que não conseguiu segurar o soluço.

— Sua filha não está enfeitiçada, vizinha, ela tá é amaldiçoada pelo que fez com a irmã. No sétimo dia, depois de hoje, acenda essa vela e pede a liberdade de tua caçula, isso vai te trazer pelo menos paz.

Isaura arrastou com força sua mãe para longe daquele lugar. Quando chegaram em casa, dona Ziló foi se recolher sem dizer nada. Dali em diante, as coisas pioraram.

Isaura vomitava tudo, até mesmo a água que bebia, depois o sangue de seu corpo. A pele começou a craquelar, os lábios ficaram partidos de tão ressecados, o corpo emagreceu drasticamente. Caiu fraca no fundo da rede, perdendo a cor do rosto e exalando podridão.

Ao fim daquela semana, Isaura começou a arrancar o que restava de cabelo, ensandecida com o choro de um neném que somente ela escutava. Um som que não cessava dentro de sua cabeça.

— Faz parar, mamãe, faz parar… — implorava aluada.

No sétimo dia, sua mãe sentou ao lado da sua rede e disse:

— Eu lembro, Isaura. Lembro do dia que tu foi visitar sua irmã com um montante de piranhas frescas. Tu disse que tinha acabado de pescar. Eu me lembro que depois disso ela perdeu o bebê.

Então, acendeu a vela e a deixou ardendo até o fim.

Isaura esqueceu o próprio nome e vagou sem rumo pela floresta, naquele corpo seco.

 

Ilustração: Ana Clara Martins
Revisão: Deuziane Sackamulth

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