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sábado, 7 novembro, 2026
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O FUTURO APONTA PARA O NORTE

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Participei do FIINSA 2026, em Manaus, e saí de lá com boas reflexões, algumas inquietações e a certeza de que a Amazônia tem muito a ensinar sobre novos caminhos para a economia. O evento reuniu pessoas, ideias, negócios e experiências que mostram que a sociobioeconomia deixou de ser apenas uma pauta de futuro. Ela já está acontecendo, embora ainda existam muitos desafios para que ganhe escala.

Um dos painéis que mais me chamou a atenção foi “Da intenção à sociobioeconomia: um guia de boas práticas para o setor privado”. A conversa reuniu representantes do setor empresarial, como Denis Minev, da The Nature Conservancy (TNC), com sua atuação em políticas públicas voltadas às comunidades, e um agente territorial. Foi uma discussão muito rica, especialmente por trazer diferentes perspectivas sobre como aproximar empresas, comunidades e negócios da floresta.

Uma questão ficou bastante evidente: existem produtos da sociobioeconomia com alto valor agregado, que atendem a mercados específicos, mas que dificilmente chegarão ao consumo da classe C, por exemplo. Isso não diminui seu valor, mas nos faz pensar sobre mercado, escala, preço e acesso. A defesa da adaptação das empresas para ampliar a compra e a contratação de produtos e serviços da sociobioeconomia foi importante, mas também ficou claro que ainda há uma construção pela frente. Não basta querer comprar diferente. É preciso rever processos, modelos de contratação, critérios de fornecimento e, principalmente, entender as realidades de quem produz.

O painel de ESG também me deixou pensativa. Confesso que senti falta de ver essa agenda mais aproveitada na discussão, os pilares ambiental, social e de governança bem observados. Afinal, quando falamos de negócios sustentáveis, desenvolvimento territorial, inclusão produtiva e responsabilidade empresarial, estamos falando de dimensões que dialogam diretamente com o ESG. Ainda assim, foi muito bom conhecer iniciativas como Natura Ingredientes e Mahta, especialmente porque alguns projetos foram apresentados por pessoas que vivem e trabalham nos territórios. Ouvir essas experiências de quem está perto das comunidades dá outra dimensão à conversa.

E, se os painéis trouxeram reflexões, o mercado do FIINSA foi um convite à descoberta. Passeei entre produtos de alimentação, acessórios, bebidas e tantas outras iniciativas que mostram a diversidade e a criatividade dos negócios amazônicos. Fiquei encantada ao encontrar um produto com Selo B. Ver um empreendimento da região associado a esse movimento de compromisso com práticas empresariais de impacto positivo foi motivo de alegria.

Tais Kokama, artista.

Também tive um encontro especial com a artista indígena Thaís Kokama. Fiz um grafismo com ela e, como sempre acontece quando tenho a oportunidade de ouvi-la, fiquei encantada com a maneira como compartilha os significados de sua arte e a presença do conhecimento ancestral em cada traço. É importante lembrar que a sociobioeconomia não se resume a transformar recursos da biodiversidade em produtos. Ela também envolve cultura, identidade, saberes e pessoas.

Aliás, um detalhe que merece reconhecimento: a comida típica presente nas refeições e a contratação de serviços locais deram ao evento um charme muito próprio. Sou defensora de que eventos realizados na Amazônia contratem fornecedores locais e valorizem a cultura da região. Isso também é gerar impacto positivo. Não faz sentido discutir desenvolvimento territorial sem olhar para a economia que movimentamos ao organizar nossos próprios encontros.

E já que estamos falando de aprendizado e networking, preciso registrar uma expressão que adorei: “galinhagem”. Foi assim que uma das conversas e conexões do evento ganhou espaço na programação. No painel “Conversas à Beira do Rio”, os participantes compartilharam o que sentem quando estão diante de um rio e o que os fez permanecer no Amazonas. Entre tantas falas, uma frase ficou comigo: “Embaixo da floresta tem gente, tem vida”.

É uma afirmação simples, mas que carrega uma reflexão enorme. Defender a floresta em pé também significa reconhecer e valorizar quem vive nela, quem produz, empreende, preserva e constrói sua história nesse território. Precisamos aprender a fazer dinheiro com a floresta viva, criando oportunidades econômicas que mantenham a biodiversidade e melhorem a vida das pessoas.

Para fechar, tivemos uma festa linda, com muito carimbó e música nortista. Faço aqui um registro especial à banda Chora Cachorro, por uma preferência assumidamente pessoal: adoro ver as pitadas de rock que eles incorporam ao brega, ao carimbó e a outros ritmos da nossa região. É a cultura amazônica se reinventando sem perder sua identidade.

Voltei do FIINSA pensando que o futuro da Amazônia não será construído apenas com boas intenções, painéis ou discursos sobre sustentabilidade. Ele depende de negócios que funcionem, empresas dispostas a mudar, mercados capazes de reconhecer o valor da biodiversidade e, sobretudo, de pessoas que estejam no centro das decisões. O futuro aponta para o Norte porque é daqui que podem surgir respostas importantes para o mundo. Mas precisamos garantir que esse futuro seja construído com a Amazônia, e não apenas a partir dela.

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