A rotina em Manaus impõe um teste diário de paciência e resistência. Quem habita a
cidade conhece de perto essa dinâmica: o calor insuportável logo cedo, o trânsito
saturado nas grandes avenidas e o transporte público lotado. Porém, mais do que os
gargalos habituais, a capital tem sido asfixiada por um agravante que paralisa o seu
próprio dinamismo: a densa fumaça das queimadas. Muito além de apenas encobrir a
paisagem, essa névoa cinza altera o funcionamento da cidade e converte o simples
ato de respirar em um desafio de saúde pública. Diante desse cenário exaustivo, a
capital passa a ser enxergada quase que exclusivamente por suas adversidades e por
sua infraestrutura precária. O mapa da cidade converte-se em um mero roteiro de
sobrevivência. Contudo, o que acontece quando desaceleramos o passo e passamos
a enxergar esse mesmo espaço através do prisma da literatura?
Uma resposta para essa pergunta encontra-se na Geografia Cultural. Como
argumenta o geógrafo Paul Claval, o espaço não é apenas um suporte físico, mas um
ambiente moldado e significado pelas representações culturais da sociedade, sendo
a literatura uma das ferramentas mais ricas para expressar essa relação. Ao unir o
texto e o território, compreendemos que escrever sobre a cidade é também produzir
Geografia. Essa perspectiva, no entanto, foge do senso comum. Para grande parte
das pessoas, a Geografia ainda permanece associada à imagem da escola tradicional:
uma ciência estritamente descritiva, focada em memorizar capitais, limites territoriais,
dados estatísticos ou, como provocou o geógrafo francês Yves Lacoste em seu livro
famoso, uma disciplina que “serve, antes de mais nada, para fazer a guerra”. No
entanto, a Geografia vai muito além de mapas frios e números. Existe um lado humano
e sensível do espaço conhecido como geograficidade, conceito criado pelo geógrafo
Eric Dardel. A geograficidade fala justamente daquele laço afetuoso, simbólico e
existencial que cada um de nós cria com o lugar onde vive. O espaço não é um cenário
neutro ou um punhado de coordenadas no GPS, ele é vivido, sentido e cheio de
memórias.
Essa transição ganha vida na literatura, pois é justamente quando saímos do mapa
frio e entramos no espaço vivido que a obra de Milton Hatoum revela sua potência.
No romance Dois Irmãos, o autor manauara resgata o dinamismo do Centro de
Manaus ao narrar a fragmentação de uma família de imigrantes libaneses e suas
marcas ao longo das décadas. Longe de ser apenas um pano de fundo, a cidade figura
na obra como um personagem vivo, que pulsa, envelhece e sofre com as
transformações da história. A narrativa expõe a geograficidade ao entrelaçar os
conflitos familiares com a própria dinâmica urbana. Em diversos momentos da obra, o
narrador Nael descreve a relação indissociável entre a cidade e o Rio Negro,
retratando o vaivém no porto, o cheiro forte dos peixes no Mercado Adolpho Lisboa e
a decadência dos antigos casarões como reflexos do próprio esgotamento da família.
Em um dos trechos marcantes do livro, a cidade revela suas fraturas e o contraste
entre as áreas consolidadas e as margens esquecidas, através do olhar atento do
narrador:
Aos domingos, quando Zana me pedia para comprar miúdos de boi no porto
da Catraia, eu folgava um pouco, passeava ao léu pela cidade, atravessava
as pontes metálicas, perambulava nas áreas margeadas por igarapés, os
bairros que se expandiam àquela época, cercando o centro de Manaus. Via
um outro mundo naqueles recantos, a cidade que não vemos, ou não
queremos ver. Um mundo escondido, ocultado, cheio de seres que
improvisavam tudo para sobreviver, alguns vegetando, feito a cachorrada
esquálida que rondava os pilares das palafitas. (Hatoum, 2022, p. 80-81).
Ao percorrer as páginas da obra, o leitor é conduzido por uma Manaus repleta de
nuances e de profundas contradições. Muito além da efervescência do comércio
central, a literatura de Hatoum não hesita em expor a “cidade invisível” formada pelas
palafitas, pontes metálicas e igarapés. Essa paisagem periférica, que abriga aqueles
que lutam diariamente pela sobrevivência, revela uma cidade cuja identidade e
expansão nascem indissociáveis das águas. O Rio Negro e seus afluentes surgem
como testemunhas desse processo de crescimento urbano, enquanto os casarões
antigos contam a história do declínio econômico do pós-Borracha e as marcas de um
espaço que foi mudando rápido demais.
Essa percepção sensível do espaço faz da literatura amazonense um verdadeiro cofre
da memória urbana. Enquanto o crescimento sem planejamento e as reformas
urbanas saem apagando o patrimônio e mudando a nossa paisagem, a escrita retém
a dimensão humana da geografia. Os livros guardam os cheiros, as cores e os afetos
de uma Manaus que o asfalto e o concreto tentam esconder, o que nos recorda que a
cidade se constitui de camadas invisíveis de histórias e vivências.
É inegável que a nossa real Manaus carrega feridas abertas e de difícil cicatrização,
evidenciadas na fumaça que polui o ar, no caos do trânsito e nas desigualdades
sociais em evidente contraste todos os dias. Em contraponto, debaixo desse colapso
urbano do presente, ainda resiste uma cidade de beleza poética singular, nascida do
encontro dos rios, da floresta e da história do nosso povo. A literatura amazonense de
Milton Hatoum surge como esse convite para que olhemos com mais atenção para o
chão onde pisamos. Afinal, ao enfrentar o ritmo exaustivo do cotidiano, resta a
provocação: qual Manaus escolhemos enxergar: apenas a cidade do caos que nos
sufoca, ou a cidade de memória e poesia que insiste em brotar sob os nossos pés?
Autores:
Ramon Pinto de Araújo, acadêmico de licenciatura em Geografia da UFAM
Amélia Regina Batista Nogueira – Professora Dra. do curso de Geografia da UFAM
Referências
CLAVAL, Paul. A Geografia Cultural. 4. ed. Florianópolis: Editora da UFSC, 2014.
DARDEL, Eric. O homem e a terra: natureza da realidade geográfica. Tradução de
Werther Holzer. São Paulo: Perspectiva, 2011.
HATOUM, Milton. Dois irmãos. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
LACOSTE, Yves. A Geografia: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra.
Tradução de Maria Cecília França. 18. ed. Campinas: Papirus, 1988.



