Por Felipe Rabioglio
Antes mesmo do encerramento do segundo turno das eleições presidenciais, neste domingo (25), aliados de extrema direita de Flávio Bolsonaro (PL) começaram a atacar a legitimidade do processo eleitoral e a sinalizar que podem não aceitar uma eventual derrota. Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Eduardo Bolsonaro e Alexandre Ramagem levantaram suspeitas de golpe após o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a prorrogação da votação até as 19h.
Entre os responsáveis pelas manifestações estão dois condenados pela Justiça brasileira que permanecem nos Estados Unidos. Eduardo Bolsonaro tem uma pena de quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo, enquanto Alexandre Ramagem foi condenado a 16 anos por participação na trama golpista que tentou impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após as eleições de 2022. Ambos estão fora do Brasil e têm penas a cumprir no país.
A declaração mais explícita partiu do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Em vídeo publicado nas redes sociais, o parlamentar afirmou: “Ou a gente ganha. Ou a gente ganha. Tá avisado”. Ele também ameaçou apresentar um pedido de impeachment contra Zanin e, questionado sobre a possibilidade de o PL contestar o resultado caso Flávio perca, respondeu: “Tem alguma dúvida?”.
Lucas Pavanato (PL-SP), eleito deputado federal, também publicou um vídeo em que questionou a decisão judicial e associou a ampliação do horário de votação a uma possível interferência no resultado. O político afirmou que não aceitaria uma tentativa de golpe, reforçando as suspeitas lançadas por aliados de Flávio Bolsonaro.
Condenados pela trama golpista e por coação também questionam eleição
Nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro reagiu à prorrogação durante uma transmissão realizada em Miami, ao lado de Alexandre Ramagem e do comentarista Paulo Figueiredo.
O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro afirmou que a decisão tinha “cheiro de queimado” e colocou em dúvida a credibilidade da votação. Eduardo teve a condenação por coação no curso do processo tornada definitiva e é alvo de mandado de prisão expedido pelo STF.
Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), também questionou a decisão e afirmou que resultados eleitorais considerados equivocados devem ser contestados. O ex-deputado fugiu do Brasil apesar de uma proibição judicial de deixar o país e foi condenado por integrar a trama golpista de 2022.
Durante a transmissão, Ramagem afirmou ainda que pretende retornar ao Brasil caso Flávio Bolsonaro vença a eleição, dependendo de uma eventual anistia ou revisão de sua condenação.
Eleitores ficaram sem votar enquanto direita denunciava suposto golpe
As manifestações ocorreram em meio a denúncias de dificuldades enfrentadas por eleitores para chegar às urnas. A decisão de Zanin foi tomada após relatos de problemas no transporte público, mas chegou quando diversas seções eleitorais já haviam encerrado a votação.
“Pessoal, boa tarde, informação repassada pelo juiz é a seguinte, urnas encerradas, não há mais o que fazer, mas as escolas que ainda estiverem como habilitar o eleitor, pode deixar votar”, dizia uma das mensagens.
Situações semelhantes foram relatadas em São Paulo, onde equipes de algumas seções já haviam sido desmobilizadas, e em Campina Grande, na Paraíba, onde urnas já haviam sido retiradas de um local de votação na Escola Feliz Araújo.
Em Salvador, a Justiça Eleitoral determinou o restabelecimento da frota de ônibus e ordenou a prisão do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, após denúncias de veículos retidos nas garagens durante a votação.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) esclareceu que a prorrogação valeria apenas para as seções que ainda não haviam encerrado suas atividades. As urnas fechadas não poderiam ser reabertas, e a totalização dos votos seria retomada após as 19h.
Apesar dos ataques à legitimidade da eleição, a própria campanha de Flávio Bolsonaro também havia solicitado a ampliação do horário de votação em municípios afetados por chuvas, alagamentos e dificuldades de deslocamento.
Enquanto eleitores enfrentavam obstáculos concretos para exercer o direito ao voto, aliados do candidato do PL passaram a colocar em dúvida o processo eleitoral antes mesmo da divulgação do resultado.



