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Diretores de fundação que propôs elevar idade de aposentadoria integram equipe de Flávio 

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Por Cleber Lourenço

Dois diretores da Fundação Internacional para a Liberdade (FIL Brasil), entidade que participou da elaboração de um plano para elevar a idade mínima de aposentadoria a 67 anos e desvincular o piso previdenciário do salário mínimo, integram a equipe econômica de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). São eles Alexandre Ywata e Anne Caroline Marciquevik Alves, incorporados à campanha em agosto e julho deste ano, respectivamente.

Os dois constam como diretores da FIL Brasil desde abril de 2024. A entidade participou da elaboração do Projeto Brasil de Amanhã, entregue a Flávio durante um encontro com empresários em São Paulo, na terça-feira (13).

Como mostrou o ICL Notícias em reportagem anterior, o documento propõe elevar gradualmente a idade mínima de aposentadoria para 67 anos, desvincular o piso previdenciário do salário mínimo e revisar critérios do Bolsa Família.

A desvinculação abriria caminho para alterar a garantia constitucional que hoje impede que aposentadorias substitutivas da renda do trabalhador sejam inferiores ao salário mínimo. Já a mudança na idade mínima poderia obrigar trabalhadores atingidos pelas novas regras a esperar mais tempo para se aposentar.

A conexão entre a fundação e a campanha contrasta com as declarações públicas de Flávio, que rejeita uma nova reforma da Previdência e promete preservar os benefícios dos aposentados. Em 8 de outubro, o candidato afirmou que garantiria reajustes acima da inflação.

A participação da FIL Brasil na elaboração do plano, no entanto, não significa que suas propostas tenham sido incorporadas ao programa de governo. Também não há comprovação de que Ywata e Marciquevik tenham participado pessoalmente da redação das medidas previdenciárias.

Os diretores Alexandre Ywata e Anne Caroline Marciquevik Alves – Fotos: Reprodução

Diretores da fundação foram recrutados para equipe econômica

Alexandre Ywata foi anunciado oficialmente pela campanha em 21 de agosto como integrante do grupo responsável pela elaboração das propostas econômicas. Ex-secretário do Ministério da Economia no governo Jair Bolsonaro, ele também aparece no site da FIL Brasil como membro do Comitê de Economia e embaixador da instituição.

Anne Caroline Marciquevik Alves entrou na equipe técnica em julho, a convite de Daniella Marques, uma das responsáveis pela articulação econômica da candidatura. Ex-assessora especial do então ministro Paulo Guedes, ela também integra o Comitê de Economia da fundação.

Registros cadastrais identificam ambos como diretores desde 2 de abril de 2024. A FIL Brasil possui três diretores e um presidente registrados. Portanto, dois dos três diretores também participam da formulação do programa econômico de Flávio.

A fundação tem Paulo Guedes como presidente de honra. O ex-ministro comandou a equipe econômica de Jair Bolsonaro durante a aprovação da reforma da Previdência de 2019.

Ex-ministro da economia, Paulo Guedes, durante a gestão Bolsonaro – Foto: Reprodução

Plano empresarial foi construído com participação de Paulo Guedes

A participação de Guedes na elaboração da agenda empresarial foi mencionada por Alfredo Cotait Neto, presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), responsável pela entrega do Projeto Brasil de Amanhã.

Em entrevista ao Broadcast, do Estadão, publicada em 7 de outubro, Cotait afirmou que a agenda havia sido construída com Guedes. O documento foi elaborado pelo Instituto de Economia Gastão Vidigal, ligado à ACSP, em parceria com a FIL Brasil.

A declaração vincula o ex-ministro à construção geral das propostas, embora não esclareça sua participação específica no capítulo previdenciário.

A discussão sobre mudanças nos reajustes das aposentadorias já havia ocorrido durante sua gestão. Em 2022, na campanha de reeleição de Jair Bolsonaro, a equipe econômica de Guedes estudou substituir a inflação do ano anterior por uma projeção da inflação futura como referência para corrigir o salário mínimo e os benefícios previdenciários.

A mudança poderia resultar em reajustes inferiores à inflação efetiva, caso a projeção utilizada ficasse abaixo da alta real dos preços. Na ocasião, Guedes também defendeu o debate sobre a desindexação de despesas públicas, embora tenha negado que o governo pretendesse alterar imediatamente as regras de correção das aposentadorias.

Quatro anos depois, o tema reaparece em propostas elaboradas com a participação de uma fundação presidida honorariamente pelo ex-ministro e que mantém dois diretores na equipe de Flávio. Os mecanismos discutidos em 2022 e 2026 são diferentes, mas ambos envolvem mudanças nas regras que determinam os valores dos benefícios previdenciários.

No plano entregue em outubro, a proposta é elevar gradualmente a idade mínima dos atuais 65 anos para homens e 62 para mulheres até 67 anos para ambos, com períodos de transição distintos. O documento também defende desvincular o piso das aposentadorias do salário mínimo.

O Projeto Brasil de Amanhã foi apresentado como uma agenda do setor produtivo, não como programa oficial de Flávio. Seus organizadores também buscaram diálogo com a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Senador Rogério Marinho (PL-RN) – Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Coordenador de Flávio já defendeu nova reforma da Previdência

A discussão sobre mudanças previdenciárias também apareceu dentro da própria campanha. Em março, o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de Flávio e ex-secretário especial de Previdência e Trabalho do governo Bolsonaro, defendeu revisitar as regras do sistema, inclusive com a possibilidade de alterar seus parâmetros ou o próprio modelo previdenciário.

Em outubro, a Folha de S.Paulo revelou discussões entre interlocutores econômicos da candidatura sobre medidas para conter despesas obrigatórias. Entre elas estava a possibilidade de desvincular os reajustes das aposentadorias e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) dos ganhos reais do salário mínimo.

Nesse modelo, os benefícios poderiam receber apenas a correção da inflação, mesmo quando o salário mínimo tivesse aumento real. Não haveria necessariamente redução nominal dos pagamentos, mas os aposentados deixariam de acompanhar os ganhos concedidos aos trabalhadores que recebem o piso nacional.

A discussão fazia parte de um conjunto de medidas de ajuste fiscal estimado em até R$ 250 bilhões. A campanha afirmou que conversas informais e debates internos não representam propostas oficiais de governo.

A defesa de mudanças nas aposentadorias também aparece entre empresários próximos à equipe econômica de Flávio. Walter Maciel, presidente da gestora AZ Quest e apoiador declarado do candidato, mantém interlocução com Daniella Marques e Adolfo Sachsida, responsáveis pela formulação das propostas econômicas. Pela proximidade e participação em debates com a dupla, Maciel atua como uma espécie de guru econômico dos dois, embora não tenha cargo formal na campanha.

Em 14 de setembro, Maciel participou de uma transmissão da TV Celular, canal oficial da campanha, ao lado de Daniella, Sachsida e JH Fonseca. Durante a live, os participantes defenderam medidas de ajuste fiscal, redução de impostos e privatizações, incluindo a dos Correios. Não foi apresentado um detalhamento de como essas medidas seriam combinadas para equilibrar as contas públicas.

Em entrevista à Folha de S.Paulo publicada em 12 de outubro, Maciel defendeu que um eventual governo Flávio priorizasse a contenção de despesas com aposentados e servidores públicos. Para ele, os benefícios previdenciários deveriam deixar de acompanhar os aumentos reais do salário mínimo.

“Não existe o aposentado receber o crescimento futuro mais inflação. O cara participou do crescimento passado”, afirmou. Maciel estima que a desvinculação poderia gerar uma economia de R$ 1,2 trilhão, embora o período considerado no cálculo não tenha sido esclarecido.

O próprio Flávio votou a favor da reforma da Previdência de 2019, que endureceu as regras de acesso à aposentadoria e modificou o cálculo de benefícios e pensões. A reforma foi conduzida pelo governo de seu pai, Jair Bolsonaro, com participação de Rogério Marinho e Paulo Guedes.

Apesar desse histórico e das propostas discutidas por integrantes de seu entorno, Flávio afirma que não pretende retirar direitos previdenciários. Até o momento, não há comprovação de que tenha aprovado a elevação da idade mínima para 67 anos ou a desvinculação do piso previdenciário apresentada pelos empresários.





ICL Notícias

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