Por Cleber Lourenço
O influenciador Mateus Fernandes, conhecido nas redes sociais como @omateuso, recebeu oito ameaças de morte e tortura após declarar apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições. As mensagens, publicadas no Facebook, continham ataques racistas, referências à organização supremacista branca Ku Klux Klan e elogios a um comandante nazista do campo de extermínio de Auschwitz. Diante das ameaças, algumas delas com informações sobre o local onde mora, o comunicador deixou sua residência por medo de ser assassinado.
O caso foi levado ao Ministério Público de São Paulo nesta segunda-feira (12). Na representação, à qual o ICL Notícias teve acesso, a defesa pede a abertura de investigação criminal, a identificação dos responsáveis e medidas urgentes de proteção ao influenciador e seus familiares.
Os ataques começaram em 7 de outubro, após Mateus publicar conteúdos políticos e participar da articulação de uma campanha de mobilização eleitoral com mais de 500 influenciadores. Segundo a denúncia, diferentes perfis passaram a publicar ameaças de assassinato, decapitação, mutilação e tortura, acompanhadas de ofensas raciais e religiosas.
Em uma das mensagens, um usuário afirmou que sonhava em matar o influenciador e que não desistiria até encontrá-lo. Outro estabeleceu um prazo para sua morte. Houve ainda ameaças de esquartejamento e referências explícitas à Ku Klux Klan, organização racista responsável por episódios históricos de violência contra a população negra nos Estados Unidos.

Uma das publicações também exaltava Rudolf Höss, comandante do campo de concentração e extermínio de Auschwitz, e defendia a construção de um país racialmente puro.

A gravidade das ameaças aumentou quando os autores passaram a mencionar informações sobre a localização da residência de Mateus. Seu endereço também foi exposto em comentários na plataforma.
“Eu só queria poder voltar para a minha casa, mas tenho medo de que tentem tirar a minha vida”, afirmou o influenciador.
Defesa pede identificação dos autores
A representação apresentada pelo advogado Thiago Farias reúne 13 capturas de tela e aponta indícios de que os ataques possam ter ocorrido de maneira coordenada.
Segundo o documento, mensagens semelhantes foram publicadas por diferentes perfis em intervalos próximos. Parte das contas teria sido desativada ou excluída depois das ameaças.
A defesa relata ainda uma dificuldade para identificar os responsáveis: os links de alguns perfis não foram preservados durante a primeira onda de ataques. Sem esses registros, a investigação dependerá da recuperação de informações armazenadas pela plataforma.
Por isso, o advogado solicitou ao Ministério Público que busque judicialmente a preservação dos dados digitais e a identificação dos usuários junto à Meta, responsável pelo Facebook.
O pedido inclui registros de acesso, endereços IP, dados cadastrais e recuperação de mensagens apagadas. A defesa também solicita medidas de proteção pessoal, incluindo rondas policiais preventivas.
Os advogados sustentam que as mensagens podem configurar crimes de ameaça, perseguição, racismo, injúria racial e apologia ao nazismo. A eventual existência de uma ação criminosa coordenada também deverá ser investigada.
Mateus denunciou os comentários à Meta em 11 de outubro, mas, segundo sua assessoria, não havia recebido resposta até a elaboração da denúncia.
“Essa violência não pode ser normalizada, muito menos utilizada como instrumento para silenciar quem defende a democracia”, declarou.
Aos 26 anos, Mateus produz há cinco anos conteúdos sobre participação política, questões raciais e ambientais, especialmente voltados à população das periferias. Segundo sua assessoria, suas publicações alcançam mais de 2 milhões de acessos mensais.
O caso conta com acompanhamento jurídico e apoio da Coalizão Negra por Direitos. A defesa também realiza uma nova análise das publicações recentes do influenciador para identificar possíveis ameaças adicionais e preservar os registros.



