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domingo, 4 outubro, 2026
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O elogio do trabalho – ICL Notícias

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Aos quatorze anos, fui trabalhar numa metalúrgica em Santo André. Era 1998, e eu ainda não sabia que aquela idade podia significar outra coisa. Não sabia, ou não conseguia imaginar, que meninos de quatorze anos deveriam estar estudando, brincando, descobrindo o mundo sem que o mundo lhes cobrasse imediatamente uma função, uma produtividade, uma utilidade. Para mim, a vida parecia começar na linha de produção. O futuro era aquilo: acordar cedo, pegar condução, vestir o jaleco, cumprir a meta e receber, ao fim do mês, algum dinheiro que pudesse ajudar em casa.

A metalúrgica era a mesma em que meu irmão mais velho havia trabalhado dos quatorze aos dezoito anos. A mesma em que, aos dezesseis, ele perdera dois dedos da mão numa prensa. Havia uma espécie de silêncio em torno desse acidente, como se a máquina tivesse apenas feito o que as máquinas fazem, como se o corpo do trabalhador fosse um detalhe inevitável da produção. Meu irmão estava afastado, se recuperando, quando comecei na fábrica. Eu via o jaleco azul dele pendurado no armário. Aquele tecido azul, imóvel, com o “brasão” da forma, parecia guardar uma história que eu ainda não sabia ler.

Eu comecei como terceirizado. Meu jaleco era cinza. O azul pertencia aos funcionários da firma, aos que haviam atravessado uma fronteira invisível dentro da própria fábrica. O meu sonho de operário era passar para a empresa, ganhar o direito ao jaleco azul, vestir a mesma cor do meu irmão. Havia, naquele desejo, uma mistura de orgulho, necessidade e inconsciência. Eu queria ser reconhecido pela firma. Queria que a roupa dissesse que eu finalmente pertencia àquele lugar –  embora aquele lugar já tivesse marcado o corpo do meu irmão.

É estranho recordar isso agora: o desejo de entrar mais fundo numa estrutura que já havia mutilado alguém tão próximo. Mas o trabalho, quando aparece cedo demais, não chega como uma escolha entre muitas possibilidades. Ele se apresenta como destino. Antes de ser contrato, é uma pedagogia. Ensina o menino a admirar a disciplina, a pontualidade, a obediência, a resistência à dor. Ensina que ter um salário, qualquer salário, é uma forma de dignidade; e que questionar as condições em que esse salário é produzido pode parecer ingratidão.

Naquela fábrica, os adolescentes entre quatorze e dezoito anos eram a mão de obra majoritária. Éramos meninos ocupando o lugar de adultos, embora ainda estivéssemos aprendendo a lidar com o medo, com a autoridade, com o próprio corpo. Passávamos horas calibrando peças metálicas usadas como apoio para o encosto de cabeça dos automóveis. A indústria automobilística, tão distante e grandiosa, chegava até nós em pequenas peças. O carro pronto, com seu brilho, seus bancos, seus vidros e sua promessa de mobilidade, começava ali: nas nossas mãos jovens, nos olhos cansados, no metal que precisava ser medido, conferido e novamente medido.

Na bancada, da linha de produção, havia uma pequena amostra do Brasil. Um rapaz evangélico pregava para nós a glória de Deus e talvez encontrasse na fé uma maneira de suportar o peso das horas. Havia também o rebelde sem causa, que insultava gratuitamente, por diversão ou por defesa, como se a agressividade fosse a única linguagem possível contra a submissão. E havia o chefe sério, um rapaz de dezoito anos, que vestia a camisa da firma e passava pela nossa bancada a cada trinta minutos para verificar o andamento do serviço. Ele era quase da nossa idade, mas já ocupava o lugar da vigilância. Bastava a camisa da empresa para que um menino se tornasse, diante dos outros, representante da ordem.

Hoje, quando penso naquela cena, percebo que a fábrica já continha o país inteiro. A religião como promessa de salvação; a revolta sem organização, que se consome em insultos; a autoridade precoce, formada para controlar os que estão ao lado; e, acima de todos nós, a empresa como uma espécie de providência. Naquele espaço, aprendíamos que cada um deveria encontrar seu lugar, aceitar sua posição e esperar que o esforço individual abrisse alguma porta. O que não aprendíamos era a perguntar quem havia construído as paredes, quem decidia o tamanho das portas e por que alguns jamais poderiam atravessá-las.

Os gerentes passavam pelos corredores. Eu também via os donos que, se a memória não me trai, eram chamados por apelidos como Paulão e Xandão. Um usava Mercedes-Benz e terno de corte elegante. O outro, usava um audi, se vestia como um personagem de rodeio, com roupa de cowboy e chapéu. Às vezes passavam pela linha de produção acenando; às vezes, sisudos, dependendo da quantidade de encomendas das montadoras. Nós, os meninos da fábrica, olhávamos de longe para os carros, as roupas, os relógios, os gestos e tudo o que parecia pertencer àquele mundo.

Não sabíamos que aquela riqueza também era produzida por nós. Não sabíamos, sobretudo, que produzir uma coisa não significa possuir aquilo que se produz. O máximo a que poderíamos aspirar era um salário de duzentos reais, pago em duas vezes. O dinheiro vinha repartido, como se até o salário precisasse nos ensinar a escassez. Enquanto uns circulavam entre Mercedes e ternos, nós aprendíamos a dividir o pouco: uma parcela para atravessar a primeira metade do mês, outra para chegar ao fim dele.

É disso que me lembro quando ouço o elogio do trabalho. Não do trabalho como atividade humana, como criação, cooperação ou maneira de transformar o mundo. Esse trabalho – que pode ser belo, necessário e até fonte de realização – não precisa ser elogiado como um sermão. Ele se justifica naquilo que permite fazer: sustentar a vida, construir vínculos, produzir conhecimento, cuidar dos outros, inventar formas de existência.

O problema começa quando o trabalho é transformado em virtude absoluta; quando se elogia o trabalho sem perguntar quem trabalha, em que condições, para quem, por quanto tempo, sob qual salário e com quais riscos; quando se celebra o trabalhador apenas porque ele suporta o insuportável; quando o acidente é narrado como azar individual, e não como consequência de uma organização produtiva que coloca jovens diante de máquinas perigosas; quando a mutilação de um corpo é absorvida pela rotina, como se fosse o preço natural de uma peça bem calibrada.

O elogio do trabalho, muitas vezes, é o elogio da loucura da razão econômica. Tudo passa a girar em torno do trabalho: quem faz, quem produz, quem explora, quem humilha, quem pode descansar, quem tem direito ao tempo e quem precisa vender cada minuto da própria vida. A pergunta deixa de ser se o trabalho é digno e passa a ser apenas se ele é rentável. A eficiência ocupa o lugar da justiça. A meta substitui o cuidado. O lucro aparece como medida de todas as coisas, enquanto o corpo do trabalhador se torna uma variável de ajuste.

No capitalismo neoliberal, essa lógica se aperfeiçoou. Já não basta trabalhar; é preciso apresentar-se como empresa de si mesmo. O trabalhador deve ser flexível, resiliente, disponível, empreendedor, capaz de transformar o fracasso em oportunidade e a precariedade em liberdade. Se não há emprego, que se invente um negócio. Se o salário não basta, que se trabalhe mais. Se a jornada adoece, que se aprenda a administrar a própria ansiedade. A exploração deixa de ser reconhecida como relação social e passa a ser vendida como escolha individual.

Na metalúrgica, ao menos, a exploração tinha uma forma visível: a bancada, o chefe, o relógio, a prensa, o corredor por onde passavam os donos. Hoje, ela pode caber num aplicativo, numa avaliação, num algoritmo que determina a próxima entrega, no discurso motivacional que diz ao trabalhador para não desistir. A antiga fábrica não desapareceu; ela se espalhou. Está nas plataformas, nos galpões logísticos, nos call centers, nas oficinas, nas escolas precarizadas, nos hospitais exaustos e nas universidades capturadas por metas. A linha de produção ganhou novas linguagens, mas continua exigindo corpos disponíveis e vidas subordinadas.

Fiquei um ano naquela firma. Lembro-me de ter vivido esse período melancolicamente, longe de casa, tentando me adaptar a uma vida que parecia grande demais para mim. Um dia, num lampejo de sorte e cuidado, minha mãe saiu de Minas Gerais e foi me buscar em Santo André. Voltei para Pouso Alegre. Recomecei. Trabalhei na fábrica de vitrais do Altair e, no terceiro colegial, ganhei uma bolsa de estudos para prestar vestibular. Passei na USP, no curso de História.

A universidade abriu diante de mim outros mundos. Também me mostrou outras linhas de produção, embora em outros termos. Aprendi que as sociedades não são naturais, que as desigualdades têm história, que aquilo que parece destino foi construído por decisões humanas. Aprendi a nomear coisas que, aos quatorze anos, eu apenas sentia: exploração, classe, alienação, desigualdade, violência, direitos. A História não apagou a fábrica nem devolveu os dedos do meu irmão. Mas me deu palavras para compreender que nossas vidas não deveriam ser reduzidas ao lugar que ocupávamos na produção.

Ainda hoje, não consigo olhar para o trabalho sem ambivalência. O trabalho me afastou da infância, mas também me conduziu a uma consciência que eu não possuía. Me deu alguma autonomia, mas me ensinou cedo demais o preço dela. Abriu portas, mas portas que poderiam ter permanecido fechadas se minha mãe não tivesse ido me buscar. Minha trajetória não é uma prova de que o trabalho precoce redime. É, ao contrário, a lembrança de que ninguém deveria depender de um golpe de sorte, de uma bolsa ou do gesto salvador de uma mãe para escapar de uma fábrica aos quatorze anos.

Por isso, desconfio de toda celebração abstrata do trabalho. Antes de elogiar o trabalho, é preciso garantir o direito de não trabalhar na infância. Antes de falar em mérito, é preciso perguntar quem começa a corrida sem sapatos. Antes de enaltecer a produtividade, é preciso proteger o corpo que produz. Antes de repetir que o trabalho dignifica, é preciso saber se ele não está humilhando, adoecendo, mutilando e roubando o tempo de viver.

O jaleco azul do meu irmão continuou por muito tempo pendurado na minha memória. Eu queria vesti-lo porque imaginava que aquela cor me daria um lugar. Hoje penso que a verdadeira dignidade não está em pertencer à firma, mas em poder pertencer à própria vida. E esse é o ponto que o elogio neoliberal do trabalho tenta esconder: não há futuro do trabalho digno quando a economia exige a entrega total dos corpos e chama essa entrega de liberdade.

O futuro só será digno quando o trabalho estiver subordinado à vida, e não a vida ao trabalho. Quando nenhum menino ou menina precisar escolher entre estudar e produzir peças para automóveis. Quando nenhum irmão perder os dedos para que uma cadeia industrial cumpra sua encomenda. Quando o salário não for uma esmola parcelada, e o descanso não for privilégio de quem observa a produção do alto. Até lá, elogiar o trabalho sem criticar o mundo que o organiza será apenas elogiar a máquina – mesmo quando ela ainda estiver girando sobre as mãos de uma criança.





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