O cinema produzido no Amazonas ganhou espaço na programação cultural com a mostra “O Cinema de Fidel Graça”, realizada no último sábado, 19 de setembro, durante o Cinema de Arte SEC. A sessão reuniu três trabalhos do diretor e artista amazonense Fidel Graça: o documentário “Beiradão, o Ritmo do Interior” e os curtas “O Surto” e “Atrás da Porta”.
Com propostas e linguagens distintas, as três produções apresentaram diferentes vertentes do trabalho de Fidel Graça no audiovisual, passando pelo registro da memória musical amazônica, pelo cinema experimental e por uma narrativa de ficção protagonizada por crianças.
Para o diretor, a experiência com o audiovisual representa também a possibilidade de aproximar diferentes expressões artísticas.
“Trabalhar com a sétima arte é de um prazer e satisfação enorme. O cinema possibilita que várias linguagens interajam entre si, um local onde todas as artes se encontram”, afirma Fidel Graça.
Beiradão e a memória musical do interior
Principal obra apresentada na mostra, o documentário “Beiradão, o Ritmo do Interior”, com 51 minutos de duração, percorre as origens e a trajetória de uma manifestação musical profundamente ligada às comunidades do interior do Amazonas.
O filme parte das festas realizadas nos seringais e nas comunidades de beira de rio para mostrar como o chamado beiradão atravessou gerações, ganhou espaço nas transmissões de rádio e se consolidou como uma expressão da identidade musical amazônica, marcada especialmente pela presença dos saxofones e das guitarradas.
Idealizado por Fidel Graça e contemplado pela Lei Aldir Blanc, por meio do Prêmio Feliciano Lana, o documentário reúne depoimentos de músicos, pesquisadores e personalidades ligadas à cultura amazonense, entre eles Aurimar Ribeiro, Diquinho do Sax, Cláudio Abrantes, Edvar Souza, Eliberto Barroncas, Neil Armstrong, Otávio de Borba, Serginho Rendres e Ricarth Donna, além dos empresários Toinho Cidade e Bruno Souza e de Antônio Graça.
Filmada em Borba e também em Manaus, a produção lança um olhar sobre as influências e transformações do gênero, ao mesmo tempo em que registra histórias de artistas que ajudaram a manter viva essa tradição.
Para Fidel Graça, o projeto possui também uma dimensão afetiva. Natural de Borba, o artista encontrou no documentário uma maneira de homenagear a própria terra e os músicos que fizeram parte de sua formação e de suas referências culturais.
“A música de beiradão tem um significado muito especial para quem é do interior, é algo indescritível. Parece estar no DNA do caboclo. Em Borba você sente a energia e a magia quando se toca o sax. Eu quis mostrar a cara de Borba e homenagear os artistas que são minha inspiração”, destaca.
O filme tem codireção de Luiz Almeida, edição e sonoplastia de Thiago Alencar e música-tema inédita composta por Fidel Graça e produzida por Anderson Cantalice, que também atuou como assistente de direção. A produção é da ML Produções, com assistência de Wildley Colares e Marcelo Gomes. Fidel também assina a captação de imagens e a direção de fotografia e divide o roteiro com Luiz de Almeida, com imagens de apoio de Maurício Motta.
Do experimental à ficção
A mostra também apresentou “O Surto”, curta experimental e sensorial de quatro minutos protagonizado pelo ator e cantor Ângelo Esperança. A produção acompanha o cotidiano de um aluno de doutorado em sofrimento psíquico, utilizando a linguagem audiovisual para construir uma experiência centrada nas percepções e sensações do personagem.
Já “Atrás da Porta”, com um minuto de duração, segue por um caminho mais leve e lúdico. Protagonizado pelas atrizes mirins Isabella Graça Ale e Maria Luiza Graça, o curta acompanha as personagens em uma experiência divertida dentro de uma casa mal-assombrada.
As três produções têm classificação indicativa livre e, reunidas em “O Cinema de Fidel Graça”, revelam diferentes possibilidades narrativas exploradas pelo diretor, da preservação da memória e da identidade amazônica à experimentação e à ficção.
Ao reunir essas obras em uma mesma sessão, a mostra apresentou ao público um recorte da produção de Fidel Graça e de sua relação com o cinema como espaço de encontro entre música, interpretação, memória, pesquisa, imagem e outras manifestações artísticas.



