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quinta-feira, 13 agosto, 2026
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TCC que compara casos de Elize Matsunaga e Eliza Samudio tira nota 10

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A estudante de Direito Clara Emilly de Souza, de 22 anos, viralizou nas redes sociais ao divulgar o tema do seu Trabalho de Conclusão de Curso: “Antes Elize do que Eliza: A violência de gênero e a escandalização midiática do processo penal nos casos Elize Matsunaga e Eliza Samudio”. Apresentado na UVA (Universidade Estadual do Vale do Acaraú),, no Ceará, o trabalho recebeu nota máxima da banca avaliadora e teve a continuidade da pesquisa em nível de mestrado recomendada pelos professores.

O TCC analisa dois casos de grande repercussão no país: O de Elize Matsunaga, onde ela foi condenada a 19 anos e 11 meses de prisão por matar e esquartejar o marido em São Paulo, em 2012, e está solta desde 2022. E o outro da modelo Eliza Samudio, que foi morta em 2010 a mando do ex-namorado, o ex-goleiro Bruno, que foi condenado a 23 anos e um mês de prisão. O corpo de Eliza nunca foi encontrado.

Moradora de Sobral (CE), Clara parte dos dois casos para discutir como a cobertura da imprensa e o julgamento social podem interferir na percepção sobre processos criminais. Segundo a pesquisa, mulheres envolvidas em casos de grande repercussão podem ser submetidas a um “tribunal moral” que ultrapassa a análise jurídica, independentemente de ocuparem a posição de vítima ou de ré.

A escolha dos casos também está relacionada à experiência da estudante no atendimento jurídico a mulheres vítimas de violência. Foi nesse contato que, segundo Clara, ela passou a observar com mais atenção questões como o descrédito da palavra das mulheres, a exposição de suas vidas pessoais e as relações de poder presentes nesses casos.

A pesquisa, de 134 páginas, sustenta que a chamada “escandalização midiática” transforma crimes e processos judiciais em espetáculos voltados ao consumo do público. Para desenvolver a análise, Clara recorre aos conceitos de “sociedade do espetáculo”, do escritor francês Guy Debord, e à aplicação dessa ideia ao processo penal feita pelo jurista Rubens Casara.

Na avaliação da estudante, a exposição da vida pessoal de Eliza e Elize contribuiu para a construção de imagens que ultrapassaram os fatos jurídicos. Eliza, vítima de feminicídio, teve aspectos de sua vida usados para questionar sua imagem, enquanto Elize, além de responder pelo assassinato do marido, passou a ser retratada como uma mulher fria e monstruosa, rompendo com expectativas sociais sobre o papel de esposa e mãe.

TCC analisou como a cobertura midiática interfere no processo penal, argumentando que a imprensa cria um “tribunal moral” em torno de mulheres envolvidas em processos criminais, sejam rés ou vítimas (Foto: Reprodução)

De onde vem “Antes Elize do que Eliza”

A frase que dá nome ao TCC já circulava nas redes sociais e foi usada por Clara como ponto de partida para uma discussão sobre violência de gênero e proteção institucional. A estudante afirma que a expressão não representa defesa ou relativização do crime cometido por Elize.

Na pesquisa, a frase é analisada como uma manifestação do medo e da desconfiança de mulheres em relação à capacidade das instituições de protegê-las. A comparação parte da ideia de que Eliza, apesar de ter buscado proteção, acabou assassinada, enquanto Elize cometeu um crime, foi julgada e condenada dentro do sistema de Justiça.

Para Clara, a frase permite discutir por que mulheres podem chegar à conclusão de que uma reação extrema seria mais segura do que depender de uma rede de proteção considerada insuficiente. O objetivo, segundo ela, é compreender o que essa percepção revela sobre a confiança das mulheres nas instituições, e não defender que crimes sejam cometidos.

Viralização

A pesquisa viralizou depois que Clara divulgou o tema do TCC em um vídeo no TikTok, que ultrapassou 2,1 milhões de visualizações. A repercussão levou a elogios, mas também a críticas, principalmente de pessoas que, segundo a estudante, julgaram o trabalho a partir do título sem conhecer o conteúdo da pesquisa.

Clara afirmou que parte das críticas acabou reforçando uma das questões discutidas no próprio TCC: a tendência de julgar mulheres antes de conhecer sua história ou analisar os fatos.

Orientação e nota máxima

O TCC foi orientado pelo professor Bruno Moraes, doutor em Direito Penal, e apresentado no fim de julho. A banca, formada pelo orientador e por outros dois docentes da UVA, deu nota 10 ao trabalho e recomendou a continuidade da pesquisa em nível de mestrado.

Além de discutir a cobertura midiática, a pesquisa também aborda a diferença entre responsabilização jurídica e julgamento moral. A autora defende que mulheres vítimas de violência não deveriam ter sua vida pessoal usada para determinar se merecem proteção, enquanto mulheres acusadas de crimes não deveriam ser submetidas a uma condenação social que ultrapasse a responsabilização prevista no processo penal.





ICL Notícias

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