O Dia dos Pais no Brasil nasceu de uma estratégia publicitária. Diferente de outros países, onde a data carrega origens atreladas a veteranos de guerra ou tradições religiosas espontâneas, por aqui a celebração foi arquitetada em 1953 pelo publicitário Sylvio Bhering, então diretor do jornal e rádio O Globo. O objetivo era pragmático: aquecer as vendas do comércio no segundo semestre, preenchendo a lacuna comercial entre o Dia das Mães e o Natal. Bhering escolheu inicialmente o dia 16 de agosto, associando a data a São Joaquim, pai de Maria, para conferir um verniz de tradição a uma invenção mercadológica.
A data, portanto, sempre carregou em seu DNA a habilidade de vender uma ideia, de embalar sentimentos em narrativas convenientes. Décadas depois, essa mesma tradição de propaganda encontra apelo na alta política nacional, onde a realidade frequentemente é distorcida para criar produtos consumíveis por uma base de apoiadores.
Neste Dia dos Pais, impedido pelo Supremo Tribunal Federal de visitar o pai, o senador Flávio Bolsonaro recorreu à velha tática publicitária. Escreveu uma carta aberta a Jair Bolsonaro, uma peça de propaganda que mira um mundo de distorções e privilégios. O texto é uma aula de como ignorar a realidade. Flávio fala em “saudade”, em “oração” e na “missão de disputar a Presidência”, descrevendo o pai como um herói injustiçado que será recebido de braços abertos pelo Brasil. A carta apaga, com a conveniência de um comercial de margarina, o rastro de destruição deixado pelo governo anterior.
A narrativa de Flávio é o ápice do marketing político da ilusão. Ele transforma a restrição legal – fruto de investigações sobre crimes contra a democracia – em martírio. Transforma a inelegibilidade em “projeto de Deus”. Contudo, se a carta fosse escrita não com a tinta da propaganda, mas com a caneta retificadora da História, o texto seria radicalmente diferente.
Se a caneta escrevesse por conta própria, revelando os fatos que a propaganda tenta ocultar, a carta de Flávio ao pai, neste dia, soaria mais ou menos assim:
“Pai,
Acabei de fazer uma agenda em Itapetininga/SP, quando tomei ciência de que o nosso pedido havia acabado de ser negado. Por isso lhe escrevo, pois não poderei te dar um abraço.
A Justiça não permitiu nossa aproximação, e, no fundo, nós sabemos o porquê. Cada pessoa que encontro na rua me lembra do país que deixamos. Não posso dizer que levarei o abraço deles, porque muitos desses abraços foram perdidos para sempre. Fico sabendo da sua saúde, e lembro das mais de 700 mil vidas ceifadas na pandemia, quando a sua gestão escolheu a negação, o deboche da falta de ar e o atraso deliberado das vacinas. Um genocídio sanitário que a história não esquecerá.
Quanto à caminhada política, seguimos tentando fechar palanques, mas a sombra do que fizemos nos persegue. O centro se afasta, pois o “Gabinete do Ódio” que operamos para destruir reputações e espalhar desinformação deixou cicatrizes profundas na democracia.
Quando recebi a missão de tentar manter nosso nome na política, sei que não é um “projeto de Deus”, mas uma tentativa desesperada de manter o foro privilegiado e escapar da Justiça. Somos instrumentos, sim, mas de um projeto de poder que flertou abertamente com o autoritarismo.
Nos meus discursos, minto quando digo que você vai colocar a faixa de presidente em mim. A verdade é que você tramou contra as urnas, arquitetou uma tentativa de golpe de Estado, insuflou apoiadores a invadir as sedes dos Três Poderes e fugiu para a Flórida quando o plano fracassou.
Pai, a realidade bate à porta. O Brasil não te receberá como herói, mas como o líder que aparelhou o Estado, que se aliou a milícias desde os tempos do Rio de Janeiro, e que institucionalizou a corrupção familiar — desde as rachadinhas nos nossos gabinetes até o contrabando de joias do acervo presidencial.
Proibir um filho de visitar um pai no Dia dos Pais pode parecer triste, mas é a consequência legal de quem tentou proibir o Brasil de ser uma democracia.
Tô com saudade, sim. Mas não tem mal que dure para sempre. A Justiça está apenas nos capacitando para responder por tudo o que fizemos.
Até breve, nos tribunais e na prisão,
Flávio”



