A Itália anunciou nesta sexta-feira (31) a suspensão temporária da livre circulação de pessoas com a Espanha, no âmbito do acordo do Espaço Schengen, em resposta à crise migratória sem precedentes registrada em Ceuta, enclave espanhol localizado no norte da África. A decisão acontece após a entrada de cerca de 60 mil migrantes vindos do Marrocos em menos de 48 horas, o que já deixou ao menos 57 mortos.
FO governo da primeira-ministra Giorgia Meloni determinou a retomada dos controles de passaporte em aeroportos e portos para viajantes vindos da Espanha. Apesar de os dois países não compartilharem fronteira terrestre, Roma justificou a medida como necessária para impedir que migrantes em situação irregular se desloquem para o território italiano. A França também reforçou a fiscalização em sua fronteira com a Espanha.
“A suspensão temporária do espaço Schengen com a Espanha é uma decisão necessária para proteger a segurança dos nossos cidadãos e defender as fronteiras da Europa. É uma medida prevista pelos tratados e que agora se tornou inevitável”, escreveu o ministro das Relações Exteriores italiano, Antonio Tajani, em comunicado.
Como tudo começou?
A tragédia se iniciou na madrugada de quinta-feira (30), quando milhares de marroquinos atravessaram a fronteira em direção à cidade espanhola de Ceuta. Muitos entraram pela passagem terrestre de Tarajal, enquanto outros contornaram o quebra-mar a nado, enfrentando mar agitado e forte correnteza. Imagens registradas no local mostram multidões correndo pela praia e comemorando ao alcançar o território espanhol.
Segundo autoridades espanholas, a maior parte das mortes ocorreu justamente durante essa travessia marítima. Equipes de resgate seguem realizando buscas no mar, enquanto a Guarda Civil recupera corpos ao longo da costa. O número de vítimas torna esta a maior tragédia migratória já registrada em Ceuta.
Maior entrada de migrantes da história de Ceuta
Ceuta é um território espanhol situado no continente africano e faz fronteira com o Marrocos. Por integrar a Espanha e, consequentemente, a União Europeia, a cidade é considerada uma das principais portas de entrada para migrantes que tentam chegar ao bloco europeu.
A cidade possui uma cerca de aproximadamente oito quilômetros que separa o território espanhol do Marrocos, mas muitos migrantes optam por contornar a barreira pelo mar. A rota de Tarajal é considerada uma das mais perigosas da região e já protagonizou outras tragédias envolvendo afogamentos. Desta vez, porém, o fluxo superou todos os registros anteriores, ultrapassando inclusive a crise de 2021, quando cerca de 10 mil pessoas cruzaram a fronteira em dois dias.
De acordo com o governo espanhol, a entrada em massa teria sido impulsionada por mensagens falsas disseminadas por redes de tráfico de pessoas, que afirmavam que seria possível entrar em Ceuta e permanecer legalmente na Espanha. O primeiro-ministro Pedro Sánchez responsabilizou essas organizações criminosas por estimular a travessia.
Crise humanitária e tensão política
Embora cerca de 48,3 mil migrantes já tenham retornado voluntariamente ao Marrocos até a noite desta sexta-feira (31), milhares ainda permanecem em Ceuta, pressionando os serviços públicos e a capacidade de acolhimento da cidade.
A maioria dos que voltou é formada por jovens que passaram a noite ao relento e desistiram de permanecer na Espanha após perceberem que não conseguiriam regularizar sua situação. O governo espanhol mobilizou policiais, militares e equipes de assistência para atender os migrantes que continuam no enclave.
A crise também provocou reações dentro da União Europeia. Além da Itália, outros países passaram a defender maior rigor no controle das fronteiras externas do bloco. A Comissão Europeia manifestou apoio à Espanha, enquanto governos conservadores pressionam por mudanças na política migratória europeia.
Especialistas apontam que o episódio evidencia o aumento da pressão migratória sobre a fronteira entre Europa e África, agravada por crises econômicas, conflitos e pela atuação de redes de tráfico de pessoas que exploram a vulnerabilidade de migrantes em busca de melhores condições de vida.



