Por João Gabriel , José Marques , Luísa Martins , Nathalia Garcia , Mateus Vargas , Constança Rezende e Raphael Di Cunto
(Folhapress) – Uma rede de empresas ligadas ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) utilizou familiares, servidores públicos, beneficiários de programas sociais e dinheiro vivo para esconder recursos ilícitos, parte dos quais a Polícia Federal (PF) acredita que tenha origem no ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e na mesada paga por ele ao parlamentar.
A teia é descrita por investigadores em uma análise de Relatórios de Inteligência Financeira (RFIs) do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) sobre a movimentação do grupo ligado ao clã do senador e que atua no Piauí e no Maranhão.
A PF aponta a existência de um “circuito integrado” de movimentação financeira entre empresas das famílias Nogueira e Vorcaro, em especial a CNLF, do senador, e a BRGD, controlada por Vorcaro e seus parentes.
Foi por meio deste fluxo que o ex-banqueiro pagou uma mesada ao senador que soma ao menos R$ 6 milhões entre 2024 e 2025, período que coincide com o agravamento dos problemas do Master e as tentativas de salvar o negócio de Vorcaro.
A PF aponta então para uma estratégia de lavagem de dinheiro por meio de “estruturas recorrentes e interligadas, utilizadas, em tese, para a ocultação, dissimulação e reinserção de recursos de origem incompatível com a capacidade econômico-financeira formal dos envolvidos, tendo como possível beneficiário final o senador Ciro Nogueira”.
“Tais estruturas não se apresentam de forma isolada, mas operam de modo articulado, por meio de empresas do núcleo familiar, circulação intragrupo, uso intensivo de numerário [dinheiro] em espécie e interposição de terceiros, inclusive agentes públicos”, conclui a investigação.

A Folha procurou Ciro Nogueira, por meio de sua assessoria de imprensa, no final da tarde desta terça-feira (16), mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. Também tentou contato com a defesa de Vorcaro, por email e WhatsApp, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.
As investigações já identificaram diversos indícios da relação próxima entre Ciro e Vorcaro. Por exemplo, o pagamento de diárias em hotéis de luxo em Nova York e na Europa, viagens juntos e repasses feitos em dinheiro vivo. Além disso, o banqueiro se referia ao parlamentar como “grande amigo de vida”.
Segundo a PF, a estrutura funcionaria da seguinte forma: os recursos eram repassados ao clã Nogueira por meio da BRGD, administrada por Felipe Vorcaro (primo de Daniel), por meio de uma fintech chamada PJBank.
Os investigadores apontam que, no período analisado, entre 2020 e 2025, a fintech enviou R$ 3 milhões ao grupo do senador, mesmo sem ter autorização do Banco Central para esse tipo de transação.
A Folha enviou um email para a assessoria de imprensa da instituição financeira, na noite desta terça-feira (16), mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
A partir daí, entravam em ação duas empresas da família Nogueira, a CNLF e a CN Motos, que atua na venda de motocicletas.
A primeira companhia tem como sócios o senador e mais quatro familiares, enquanto a segunda, ele e mais dois.
As duas serviriam para receber os montantes ilícitos, segundo a PF, então misturá-los aos recursos legítimos das companhias e depois redistribuí-los dentro do clã do senador e sua rede de empresas.
Neste fluxo, a PF destaca uma série de relatórios do Coaf que citam especificamente o senador e que, segundo a reportagem contabilizou, somam mais de R$ 13 milhões em movimentações financeiras suspeitas, envolvendo a teia investigada.
“Em síntese”, conclui a PF, os dados do Coaf mostram um “circuito integrado” entre o aporte de recursos pela BRGD (que pagava a mesada), PJBank e dinheiro em espécie, que depois passam pelas companhias do clã do senador.
As duas companhias ligadas ao parlamentar mesclam os recursos com o dinheiro lícito e fazem a “redistribuição de valores dentro do grupo familiar/econômico, tendo Ciro Nogueira como possível beneficiário final”.
No caso da CN Motos, por exemplo, a polícia chama atenção para o fato de que um dos funcionários da empresa, chamado Bernardo, realizou R$ 3,5 milhões em depósitos em espécie para a empresa, “em períodos coincidentes com transferências subsequentes da empresa à pessoa física do senador”.
Segundo os registros do Coaf, a empresa de venda de motocicletas recebeu ao menos R$ 1,2 milhão vindo de servidores públicos que atuam no Piauí, no Maranhão e em estruturas da União.
“Esse padrão indica possível utilização de terceiros como instrumento de ocultação do real beneficiário das despesas e dos fluxos financeiros, reduzindo a exposição direta do agente político principal”, dizem os investigadores.
A PF aponta para o fato de que alguns desses integrantes teriam salário baixo e inclusive teriam sido beneficiários de programas sociais do governo federal, o que motiva a suspeita de que poderiam ter sido usados como laranjas.
Um deles, por exemplo, recebia um pagamento de R$ 2.000 mensais, mas transferiu R$ 90 mil para a CN Motos em um ano.
Outro, que recebeu auxílio emergencial durante a pandemia da Covid-19, pagou R$ 143 mil para a empresa no mesmo período de tempo.
No fluxo contrário, a CN Motos repassou R$ 412 mil a uma pequena empresa em Teresina, capital do Piauí, que tem capital social de apenas R$ 20 mil e como única sócia uma funcionária da assembleia legislativa do estado cujo salário atualmente gira em torno dos R$ 4.000.
Também houve transações entre parlamentares, como o deputado federal Jadyel Alencar (Republicanos-PI), que pagou R$ 357 mil à empresa.
Procurado, ele afirmou que o montante se refere a parte da compra de um avião.



