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quarta-feira, 3 junho, 2026
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Deus e o Diabo na copa sem rua

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A Copa do Mundo que marcou a minha vida foi a de 1982. No começo do torneio, eu era um moleque mergulhado na expectativa do triunfo certo da seleção brasileira. No fim das contas, passei a desconfiar de algo que desde então me acompanha: Deus criou o futebol e entregou o controle do jogo ao diabo. É o inverso do basquete, jogo que (tenho convicção) foi criado pelo demo e é conduzido por Deus.

Mas não é disso que quero falar. Tenho a nítida lembrança de que, naquela Copa, as ruas da cidade inteira estavam enfeitadas. Hoje ocorre o inverso: as ruas enfeitadas são a exceção. O que isso diz sobre o futebol e as cidades?

Preparar a cidade inteira para a Copa era um ritual que incluía a rifa para arrecadar dinheiro, o pedágio da meninada para comover os adultos, o bolo de cenoura – oferta da vizinha – para vender e juntar mais grana. Com o dinheiro arrecadado, era só comprar papel fino verde e amarelo para as bandeirinhas, a tinta para pintar a rua, reunir todo mundo no fim de semana para colocar a mão na massa e mandar brasa no churrasco para comemorar a inauguração. Sacanear a rua vizinha, propagando a superioridade da sua, era de praxe.

Há quem diga que hoje a seleção não cria empatia com a população como acontecia em outros tempos. Os jogadores não têm vínculos com clubes brasileiros, são celebridades inatingíveis, cercados de seguranças e do cordão dos puxa-sacos que blindam os caras. A desumanização dos boleiros, distantes das ruas e presentes nas redes, com discursos ensaiados em treinamentos de midia, não convence.

Ao mesmo tempo, a rua concebida como lugar de encontro anda perdendo de lavada para a rua como um lugar de passagem, marcado pela pressa e pela violência urbana. A disputa entre o território funcional – desencantado – e o terreiro, espaço praticado pelos ritos de pertencimento, como eram as ruas quando enfeitadas para as copas, tem sido demasiadamente cruel para quem se recusa a compactuar com o desencanto.

A cidade, a rigor, anda sendo pensada como o futebol: disciplinada onde devia ser espontânea, esculhambada onde devia ser organizada, mais gerenciada que vivida, mais pensada como empreendimento de gestão que como paixão. Parece que não estamos nela e ela não está em nós, a não ser como lembrança. Não nos reconhecemos na cidade, como não reconhecemos o jogador na camisa do clube.

O futebol e a rua ainda me apaixonam, mas fica a bronca. Apesar de tudo, vou curtir a Copa, torcer pela seleção, patrimônio nosso que os poderosos que comandam o futebol teimam em sequestrar, queimar a carne e gelar a cerveja.

Que Deus e o diabo nos acompanhem nessa jornada.





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