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sexta-feira, 29 maio, 2026
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Entre Telas e Parquinhos: o desafio de brincar no pós-pandemia

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Especialistas alertam para os impactos do excesso de telas e defendem o brincar livre como essencial para o desenvolvimento infantil.

O ato de brincar nunca foi apenas passatempo. Ao longo da história, o brincar constituiu-se como uma das principais linguagens da infância e uma necessidade essencial para o desenvolvimento humano. Entretanto, em tempos de hiperconectividade, essa prática enfrenta desafios cada vez mais complexos, especialmente após os impactos provocados pela pandemia de COVID-19.

A pesquisadora Tizuko Morchida Kishimoto, uma das maiores referências em educação infantil no Brasil, destaca que o brincar ocupa papel central no desenvolvimento das crianças. É por meio dele que elas socializam, constroem conhecimentos e interpretam a cultura ao seu redor. Mais do que diversão, ele integra o cuidado biológico, psicológico e social da infância, sendo inclusive reconhecido como um direito garantido pelas normas brasileiras.

Crianças desenvolvem habilidades socioemocionais através de brincadeiras coletivas e presenciais.

O IMPACTO DA ERA DIGITAL

Apesar disso, a realidade atual revela um cenário preocupante. O avanço tecnológico trouxe inúmeras facilidades para a sociedade e para a rotina familiar, mas também transformou profundamente as experiências infantis. O tempo antes dedicado ao chamado “ócio criativo” passou, muitas vezes, a ser ocupado por telas, jogos eletrônicos e aplicativos digitais. Hoje, é comum observar crianças interagindo intensamente em ambientes virtuais, enquanto os espaços coletivos — como praças, ruas e parquinhos — tornam-se cada vez menos frequentados. As brincadeiras presenciais com amigos, primos e vizinhos foram, em muitos casos, substituídas por interações online com grupos desconhecidos.

O DIVISOR DE ÁGUAS: A PANDEMIA

Embora a preocupação com o excesso de telas já existisse antes da crise sanitária, a pandemia intensificou esse processo. A Sociedade Brasileira de Pediatria já alertava para os riscos do uso precoce e prolongado de dispositivos eletrônicos, relacionando-os ao sedentarismo e a possíveis atrasos no desenvolvimento infantil.

Com o isolamento imposto pela pandemia de COVID-19 em 2020, as telas tornaram-se praticamente a única ponte entre crianças e o mundo externo. Escolas fecharam, parquinhos esvaziaram-se e o contato presencial foi drasticamente reduzido. Naquele período, a Organização PAN – Americana da Saúde também demonstrou preocupação com os prejuízos socioemocionais provocados pelo distanciamento social.

UM MOVIMENTO DE RESISTÊNCIA

Curiosamente, os primeiros meses de isolamento também despertaram um movimento contrário. Nas redes sociais, multiplicaram-se vídeos de famílias redescobrindo brincadeiras tradicionais dentro de casa: jogos de tabuleiro, pula-corda, futebol improvisado e atividades criativas surgiram como formas de fortalecer vínculos afetivos. No entanto, à medida que a pandemia se prolongava, essas iniciativas foram perdendo espaço e dando lugar, novamente, ao predomínio das telas.

Brincadeiras simples dentro de casa ajudaram famílias a fortalecer vínculos durante a pandemia

O QUE FICA PARA O “NOVO NORMAL”?

No chamado “novo normal”, o grande desafio passou a ser o equilíbrio. Embora os espaços públicos tenham sido retomados, o fascínio exercido pelas tecnologias digitais continua intenso. Ao mesmo tempo, pais e responsáveis retornaram às rotinas de trabalho e às múltiplas responsabilidades fora do lar, o que exige maior planejamento para garantir às crianças momentos de brincadeiras no mundo real.   Enquanto a tela oferece respostas rápidas e experiências individualizadas, o brincar coletivo estimula negociação, empatia, autonomia e resolução de conflitos. São nessas interações presenciais que as crianças aprendem a se colocar no mundo.

Diante desse cenário, o desafio contemporâneo não está em demonizar a tecnologia, mas em impedir que o brilho das telas apague experiências essenciais da infância, como correr, explorar ambientes e descobrir o mundo por meio da convivência com o outro.

A INFÂNCIA QUE SE DESENVOLVE EM EQUILÍBRIO

A infância contemporânea transita entre o virtual e o real.

O brincar ao ar livre continua sendo essencial para o desenvolvimento saudável da infância.

Cabe aos adultos garantir que o caminho de volta aos parquinhos, às brincadeiras coletivas e às interações presenciais permaneça sempre aberto, prontos para coexistir com os espaços virtuais.

Sobre a autora: Nayra Bandeira é assistente social formada pela Universidade Federal de São Paulo, pós-graduada em Saúde Coletiva e graduanda em Pedagogia pela Universidade Federal do Amazonas, com interesse em estudos sobre infância e o brincar.

Sobre o Conexões de Saberes: O PET, Programa de Educação Tutorial, é um programa gerenciado pela CAPES/MEC e, no âmbito da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), é desenvolvido em grupos e organizado a partir de cursos de graduação das unidades acadêmicas, orientados pelo princípio da indissociabilidade entre o ensino, pesquisa, inovação e extensão. As atividades extracurriculares que compõem o programa devem proporcionar aos alunos oportunidades de vivenciar experiências que atendam plenamente às necessidades dos cursos de graduação e/ou ampliar e aprofundar os objetivos e os conteúdos programáticos que integram sua grade curricular, além de contribuir para a sociedade onde atuam. O PET Conexões de Saberes é tutoriado pelo Prof. Dr. Manoel Carlos de Oliveira Júnior (FES/UFAM) e tem alunos de História, Geografia, Pedagogia e Letras.

Referências:

KISHIMOTO, Tizuko Morchida. O brincar e suas teorias. São Paulo: Pioneira, 2011.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Manual de orientação: uso saudável de telas. Rio de Janeiro, 2019. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/24604c-MO_MenosTelas_MaisSaude-Atualizacao.pdf. Acesso em: 25 de maio 2026.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). Pandemia de COVID-19 aumenta fatores de risco para suicídio. Washington, DC, 10 set. 2020. Disponível em: OPAS. Acesso em: 26 maio 2026

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