A secretária de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Débora Freire, afirmou, em entrevista à Folha de S.Paulo, que as medidas adotadas pelo governo Lula para conter a alta dos combustíveis foram decisivas para o comportamento recente da inflação. “São medidas importantes para buscar suavizar esse choque nas famílias [renda]. É importante o governo fazer isso, inclusive para ajudar o Banco Central”, disse.
Segundo ela, sem essas ações, haveria maior pressão sobre a política monetária e, possivelmente, necessidade de elevação da taxa de juros. Na reunião de abril, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa básica de juros, a Selic, pela segunda vez seguida, para 14,50% ao ano.
A Secretaria de Política Econômica (SPE) elevou a estimativa a inflação oficial medica pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 3,7% para 4,5% em 2026, no limite superior da meta de inflação, que tem centro em 3% e margem de tolerância de 1,5 ponto percentual.
Mesmo com a revisão para cima, a projeção do governo indica que a inflação deve permanecer dentro da banda da meta, considerando as medidas de mitigação já adotadas — com exceção de um subsídio recente à gasolina ainda não incorporado.
De acordo com a SPE, essas ações ajudam a reduzir o índice em cerca de 0,3 ponto percentual. “Nossa última estimativa é de 0,3 ponto percentual para baixo na inflação”, afirmou Freire.
Choque do petróleo e vetores de alívio
A alta recente nas projeções está associada ao choque no preço do petróleo, que pressionou tanto expectativas quanto dados efetivos de inflação.
Apesar disso, a área econômica aponta vetores que ajudam a conter parte da pressão, como a valorização do câmbio e uma taxa Selic terminal mais elevada do que se esperava anteriormente.
A secretária avalia que o cenário segue incerto e dependente da evolução do choque externo. “O IPCA tem viés de alta esse ano e em 2027 pela inércia, mas a inflação fica dentro da banda superior da meta”, disse.
Juros e papel do Banco Central
Na avaliação do governo, as medidas sobre combustíveis também têm efeito indireto sobre a política monetária, ao reduzir a necessidade de aperto adicional nos juros.
“Num choque de oferta, a taxa de juros não é um instrumento que tem grande efetividade”, afirmou Freire. Segundo ela, a atuação do governo busca evitar que o Banco Central precise interromper o ciclo de cortes ou voltar a elevar a taxa Selic.
Ainda assim, ela ressalta que a decisão sobre ritmo e direção dos juros é do Banco Central. “A discussão é qual o ritmo. Mais acelerado? Menos acelerado? E aí essa decisão é do BC.”
Debate fiscal e programas de crédito
A entrevista também abordou medidas de crédito anunciadas pelo governo. Freire afirmou que as iniciativas têm caráter focalizado, voltado a setores específicos e a objetivos sociais, mas reconheceu que ainda não há estimativas consolidadas de impacto fiscal total.
“Não consigo dar estimativa, porque existem efeitos diretos (…) e efeitos indiretos”, disse, ao comentar as dúvidas sobre o custo agregado das medidas.
Cenário ainda depende de choques externos
Apesar da defesa das políticas adotadas, a SPE reconhece que o ambiente econômico permanece volátil, com forte dependência do comportamento do petróleo e de fatores externos.
A trajetória da inflação e dos juros, segundo o governo, continuará condicionada à duração e intensidade desses choques, que seguem sendo o principal fator de incerteza no cenário macroeconômico.



