Por Igor Mello e Cleber Lourenço
Investigação da Polícia Federal (PF) na mais nova fase da Operação Compliance Zero atribui a um ex-sócio do blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo o papel de intermediar os aportes bilionários do governo Cláudio Castro no Banco Master. O lobista Ricardo Siqueira Rodrigues foi sócio de Figueiredo no projeto de um Trump Hotel no Rio de Janeiro, negociação que foi alvo da Operação Lava Jato em 2019.
O ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ) foi alvo de novo mandado de busca e apreensão em sua residência, uma cobertura de luxo na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste do Rio.
Segundo a PF, Rodrigues foi o “articulador, captador e lobista” na obtenção de investimentos da Rioprevidência — autarquia responsável pelas aposentadorias e pensões de servidores do Rio de Janeiro — em aplicações ligadas ao Banco Master, de Daniel Vorcaro. Ao todo, o órgão investiu R$ 3,69 bilhões no conglomerado de Vorcaro, seja diretamente no Master ou em fundos controlados pelo banco. As informações são mencionadas na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a operação.
Ainda de acordo com a decisão de Mendonça, os investigadores identificaram uma comissão de 0,6% paga por Vorcaro a Siqueira por meio da empresa Mídias Promotora Ltda. A empresa foi usada para a lavagem de dinheiro e pagamento de propina a agentes públicos, segundo a PF.
“As conversas e registros analisados indicam pagamentos expressivos por supostos ‘serviços de captação’, sem aparente correspondência com atividades lícitas compatíveis, sugerindo que a empresa funcionou como canal para escoar recursos oriundos das operações fraudulentas, facilitando a lavagem de ativos e o repasse de valores aos agentes envolvidos”, diz outro trecho citado no despacho de Mendonça.
Uma mensagem trocada entre Rodrigues e Vorcaro, interceptada pela PF com autorização da Justiça, indica que o banqueiro estabeleceu metas de captação de recursos públicos de fundos previdenciários na tentativa de salvar o Banco Master.
“Daniel, quero deixar registrado aqui meu agradecimento a toda a equipe q vc disponibilizou desde novembro. Atingimos a meta estabelecida em apenas 45 dias, o banco foi o segundo maior captador de LF [letra financeira] nesse período e temos um pipeline para o primeiro semestre já em reta final de mais de bilhão”, escreveu Siqueira ao banqueiro.
Em outro trecho da decisão, Mendonça cita que Siqueira “teria indicado que o RPPS [RioPrevidência] possuía um “dono” que precisava autorizar os agentes internamente”. A decisão, contudo, não identifica quem seria esse dono.
Relação com Paulo Figueiredo
O lobista Ricardo Siqueira Rodrigues esteve ao lado de Paulo Figueiredo em um empreendimento que tentava construir um Trump Hotel — rede hoteleira da família do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — no Rio de Janeiro. Os dois tinham como sócios o empresário Arthur Soares Filho, o Rei Arthur, conhecido como o maior detentor de contratos no estado do Rio de Janeiro durante o governo Sérgio Cabral.
Uma operação da PF autorizada em janeiro de 2019 pela Justiça Federal do Distrito Federal ocorreu por conta da suspeita do pagamento de R$ 40 milhões em propina a diretores e ex-diretores do Banco de Brasília (BRB) para viabilizar investimentos no projeto. Siqueira e Figueiredo foram presos na ocasião.
A investigação já apontava a influência do grupo em fundos de pensão, nos mesmos moldes do que agora é investigado a respeito do Banco Master. O empreendimento teria captado recursos do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Santos (SP), mediante o pagamento de propina. O Postallis, previdencia dos funcionários dos Correios, e Serpros, fundo de previdência dos funcionários do Serpro, também teria feito aportes no fundo de Figueiredo, Rodrigues e Rei Arthur, segundo a investigação.
Delação premiada
Rodrigues firmou uma delação premiada em 2019 que entregou diversas informações sobre políticos do Rio. Informações dadas pelo empresário foram usadas nas investigações do chamado QG da Propina, que chegou a prender o ex-prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos-RJ). Um restaurante do qual Rodrigues era sócio chegou a ser alvo de um atentado em novembro de 2020.
Ele também disse às autoridades ter recebido uma proposta do advogado criminalista Nythalmar Dias Ferreira de facilitar a situação dele junto à Operação Lava Jato do Rio de Janeiro.
Após o STF passar a anular processos da Lava Jato, o delator chegou a pedir a devolução de R$ 10 milhões que ele havia restituído aos cofres públicos como parte do acordo de colaboração.



