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domingo, 17 maio, 2026
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Violência sexual infantil triplica em dez anos no Brasil

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Por Bárbara Sá

(Folhapress) – O número de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual no Brasil mais que triplicou nos últimos dez anos, segundo dados do Ministério da Justiça. Em 2025, foram registrados 59.366 casos, ante 19.496 em 2015 –alta de 204,5% no período.

O volume permanece em patamar recorde no país: os registros de 2025 ficaram praticamente estáveis em relação a 2024, quando foram contabilizadas 59.666 vítimas.

Esta segunda-feira (18) é marcada como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, que foi instituído em 1998.

O painel nacional contabiliza 486.001 vítimas entre 2015 e 2025, média de 121 registros por dia no país. Os três maiores números da série histórica foram entre 2023 e 2025, período em que os casos permaneceram acima de 59 mil vítimas anuais.

Em 2023, o país atingiu o pico da série, com 59.779 registros. Os números de estupro de vulnerável incluem violência sexual contra PCDs e outras vítimas, além de menores de idade.

As meninas concentram a maioria dos casos no período. Os dados oficiais do MJ apontam que 412.025 vítimas eram do sexo feminino, o equivalente a 84,7% do total. Entre meninos, foram registrados 68.718 casos. Outros 5.258 aparecem sem informação de sexo.

Em 2025, a taxa nacional foi de 27,82 vítimas a cada 100 mil habitantes.

Os cinco estados com maior número absoluto de vítimas registradas desde 2015 são São Paulo, com 100.571 casos e população de 46 milhões de habitantes, Paraná, com 55.809 registros para uma população de 11,8 milhões, Minas Gerais, com 41.703 vítimas e 21,3 milhões de habitantes, Rio Grande do Sul, com 40.921 casos e população de 11,2 milhões de habitantes, e Pará, com 34.969 registros para cerca de 8,7 milhões de habitantes.

Apesar de São Paulo liderar em números absolutos, estados como Pará e Paraná apresentam taxas proporcionais mais elevadas. Em 2025, o Pará registra 54,21 vítimas por 100 mil habitantes e o Paraná, 44,93, índices acima da média nacional. São Paulo aparece com taxa de 26,56 por 100 mil habitantes.

O Ministério da Justiça foi procurado por email para comentar sobre os números e medidas adotadas nacionalmente contra o problema, mas a reportagem não obteve retorno na sexta-feira (15).

Para a delegada Monique Lima, titular da 6ª Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo, o crescimento dos registros reflete uma combinação entre aumento das denúncias e maior capacidade da rede de proteção em identificar casos que antes permaneciam invisíveis.

“A violência sexual contra crianças e adolescentes ainda é um problema muito grave e subnotificado, mas houve um avanço importante na capacidade de identificar e denunciar esses casos”, afirma.

A delegada explica que profissionais de saúde, professores, assistentes sociais e policiais passaram a reconhecer melhor os sinais de violência.

“Muitas situações que antes ficavam escondidas dentro de casa agora chegam ao conhecimento das autoridades.”

Lima afirma que a maioria dos registros envolve vítimas menores de 14 anos, casos enquadrados como estupro de vulnerável.

Ela explica que, somente em 2025, o estado de São Paulo registrou mais de 10 mil ocorrências nessa faixa etária, sendo quase 9.900 classificadas como estupro de vulnerável. No primeiro trimestre deste ano, já foram mais de 2.600 registros.

Monique Lima afirma que os crimes atravessam todas as classes sociais e, na maior parte das vezes, são praticados por pessoas próximas das vítimas. “São casos cometidos por alguém do convívio familiar ou social. Não é um problema de um bairro ou de uma classe específica. É uma violência estrutural.”

A delegada explica ainda que, embora não exista uma unidade exclusiva para crimes sexuais contra crianças e adolescentes, todas as delegacias paulistas são preparadas para atender esse tipo de ocorrência.

Ela pontua que as DDMs (Delegacias de Defesa da Mulher) concentram experiência nesse atendimento, especialmente em casos envolvendo meninas e adolescentes, e que parte das unidades atua também em palestras escolares e integração com a rede de proteção.

A delegada Gabriela Segarra, da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher, conta que os casos envolvendo crianças e adolescentes fazem parte da rotina diária da especializada.

Em uma das investigações acompanhadas pela delegada, um menino autista não verbal de 5 anos foi abusado sexualmente por um amigo que estava hospedado na casa da família, na zona leste de São Paulo. Ele foi preso preventivamente e confessou a violência.

“Eu me sinto aliviada em, de alguma forma, ter ajudado uma vítima vulnerável”, afirmou Segarra. “Além da vulnerabilidade sexual, era uma criança autista, não verbal.”

O pesquisador Daniel Cerqueira, um dos coordenadores do Atlas da Violência, afirma que parte do crescimento pode ser explicada pela redução da subnotificação, impulsionada por campanhas de conscientização, mudanças legislativas e maior preparo das autoridades para enquadrar e investigar os crimes.

Cerqueira diz, porém, que a alta dos registros não pode ser atribuída apenas a esse fator. “Eu acredito também que os casos tenham aumentado”, afirma. O pesquisador aponta que o avanço de discursos misóginos e da chamada machosfera entre jovens pode ter influência nesse cenário.

“Há um recrudescimento dessas culturas misóginas e machistas, associado ao radicalismo político e à importação dessa cultura red pill”, diz. O pesquisador cita ainda episódios recentes de violência sexual coletiva envolvendo adolescentes como exemplos desse ambiente.

Para Cerqueira, os dados disponíveis representam apenas parte do problema. “Isso ainda é a ponta do iceberg”, afirma.

Segundo ele, estudos do Atlas da Violência e notificações da área da saúde mostram que boa parte dos abusos ocorre dentro de casa e é praticada por pessoas próximas da vítima, como pais, padrastos e avôs. “A calamidade maior da vulnerabilidade das nossas crianças surge dentro do próprio lar”, afirma.





ICL Notícias

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