Por Rodrigo de Andrade*
Desde 2019 o projeto Xadrez com X, se propõe a incentivar a conexão entre o universo do hip-hop e o pensamento estratégico do tabuleiro, promovendo o acesso e o encontro entre diferentes tribos. A iniciativa nasceu de uma ideia do rapper Xis em parceria com o coletivo paulistano Xemalami, encabeçado pelos artistas Hyt e Drezz.
O evento busca aproximar o jogo de xadrez das periferias e romper com a ideia de que se trata de uma prática elitizada. O último encontro aconteceu no sábado (25), na loja Patuá Discos, localizada na zona oeste de São Paulo.
Ao longo das seis edições, sendo três delas realizadas na loja Patuá Discos, em São Paulo, o projeto reuniu atividades recreativas, campeonatos e intervenções culturais que articulam música com a prática do xadrez. Mais do que um evento pontual, o Xadrez com X se insere em um debate histórico sobre o acesso ao jogo.
Embora tenha origens na China e na Índia, o xadrez foi, durante séculos, associado a uma prática europeia, ligada majoritariamente à elite branca e financeiramente privilegiada. Em entrevista ao ICL Notícias, o deputado estadual paranaense Renato Freitas (PT) comentou sobre essa segregação que as pessoas sofrem no esporte praticado no Brasil.
“Muitas atividades esportivas, artísticas e intelectuais, de modo geral, são vinculadas a pessoas brancas, orientais, bem-nascidas, porque a elas foi reservado esse espaço, não exatamente por mérito, mas pela conformação social e histórica do nosso país”, afirma Renato, que participou da edição realizada na Patuá Discos.

A relação de deputado com o xadrez é antiga. Ele sempre destacou sua ligação com o jogo, embora tenha se afastado por um período devido ao preconceito enfrentado nesse meio. Posteriormente, retomou a prática e passou a defender sua difusão nas periferias.
“Eu experienciei isso, enfrentei uma resistência dentro da comunidade enxadrística na minha juventude, que foi tão forte que me fez repensar se era naquele lugar que eu gostaria de estar, e acabei trilhando outros caminhos”, afirmou o deputado. “Hoje, dou aulas, já participei de projetos, ensino minha filha, pratico xadrez e busco torná-lo cada vez mais popular e acessível, justamente para romper esses tabus e ampliar os horizontes do nosso povo, o povo preto, pobre, favelado, que não se vê representado nesses espaços”.
Desde 2019, o coletivo Xemalami tem levado suas ações para regiões centrais da cidade, promovendo o encontro entre enxadristas e entusiastas de diferentes zonas de São Paulo e incentivando a fusão com a cultura Hip Hop.
Para o rapper Xis, há relação direta entre o cotidiano do brasileiro e o jogo. “O xadrez é um esporte que faz a pessoa refletir sobre seus atos, tanto de defesa quanto de ataque. É lúdico, e, como a maioria dos esportes, contribui muito para o desenvolvimento pessoal”, diz ele.
O artista também destacou a importância do jogo em sua vida. “No meu caso, posso dizer que o xadrez funciona quase como uma terapia. O mais importante não é ganhar ou perder, mas entender onde você errou, onde fraquejou. Isso ajuda, sem dúvida, na ressocialização, no desenvolvimento da compreensão, da calma. O xadrez é incrível”, diz Xis.
Entre os destaques do pódio do campeonato realizado na última edição, a enxadrista Ludovica marcou presença ao conquistar o 3º lugar. Ela também comentou o quanto um evento como o Xadrez com X é importante, especialmente para ela, que, além de ser do Grajaú, é uma mulher trans e se sente acolhida no evento.
“O xadrez é elitizado no âmbito profissional, das premiações, mas a cultura do jogo é muito popular. A gente vê, na periferia, pessoas jogando xadrez o tempo todo, e um projeto que valoriza isso, que tem isso como tema, é incrível”, comentou a participante.

Questionado sobre os desafios enfrentados por iniciativas como o Xadrez com X em um cenário de ascensão da extrema direita no país, Renato Freitas comentou: “Esse avanço de determinadas correntes políticas e ideológicas, com seus estigmas, pode representar um obstáculo. É como uma pedra no caminho de eventos que buscam democratizar e tornar o xadrez mais acessível”.
A Patuá Discos, localizada na Vila Madalena, vai além de uma loja de LPs. Coordenada pelo DJ Paulão, o espaço funciona como um polo cultural, recebendo lançamentos de discos, livros e outras produções artísticas, além de sediar eventos sociais como o Xadrez com Xis. Outro destaque é o evento gratuito “Vai Na Fé”, realizado semanalmente às sextas-feiras, que reúne DJs especializados em discotecagem com vinil.
Mais do que um torneio, o Xadrez com X se consolida como um espaço de encontro entre cultura, educação e estratégia, reforçando o potencial do jogo como ferramenta de inclusão e transformação social nas periferias de São Paulo.
*Estagiário sob supervisão de Chico Alves



