Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrar no Salão Oval da Casa Branca, nesta quinta-feira, sua missão será apenas uma: desenhar um pacto de não ingerência por parte de Donald Trump. Num ano eleitoral, a prioridade declarada da diplomacia brasileira é a de defender a democracia do país contra ataques externos.
Todos os acordos ou acertos que forem anunciados, portanto, terão como pano de fundo a tentativa de construção de uma relação que dê garantias ao Brasil de sua capacidade de autonomia na região e a preservação do processo eleitoral sem a interferência do governo dos EUA.
A esperança é de que, com a visita, Lula consiga evitar que Trump se envolva diretamente numa tentativa deliberada de desestabilização do Brasil. O risco continua sendo alto mesmo com o republicano neutralizado. Para a diplomacia brasileira, essa ingerência pode ocorrer por meio das big techs, de grupos ultraconservadores da sociedade civil americana e por ações encobertas por parte de alas mais radicais do trumpismo.
A ausência de Marco Rubio do encontro – ele estará com o papa Leão 14 – é ainda um sinal de que a relação entre Trump e Lula não passa necessariamente por esse grupo em Washington.
Temas sobre a mesa
Pelo menos quatro temas estarão sobre a mesa: a situação política na América Latina, terras raras, comércio e crime organizado.
Lula, assim, quer ocupar o espaço do debate e se apresentar como o interlocutor de Trump para lidar com as prioridades políticas da Casa Branca- Mas, ao mesmo tempo, o Brasil negocia um arcabouço político que impeça atos que possam ser considerados como intromissões indevidas dos EUA na agenda política doméstica.
Na pauta de terras raras, o governo dos EUA enviou duas propostas diferentes. A primeira delas, revelada com exclusividade pelo ICL Notícias, previa um acerto para o Brasil e toda a região que permitisse que os norte-americanos ficassem com uma reserva de mercado para os minérios críticos da região. Argentina, Bolívia e outros toparam. O Brasil se recusou a assinar.
Um pacto bilateral foi então proposto ao Brasil. Mas, de acordo com a apuração da reportagem, tratava apenas de uma cooperação ampla, sem qualquer tipo de engajamento por parte dos EUA no desenvolvimento de um processo de maior valor agregado em território brasileiro.
A expectativa é de que um memorando de entendimento seja anunciado, ainda que vago e que dará apenas uma base para novas negociações.
No tema relacionado ao combate ao crime organizado, os EUA enviaram uma proposta concreta de cooperação com o Brasil. Mas vinha sendo protelada pelo Palácio do Planalto. Inicialmente, a ideia de que grupos criminosos como o PCC e o Comando Vermelho fossem declarados como entidades terroristas foi apresentada pelos EUA. O Itamaraty, a Polícia Federal e o Ministério da Justiça foram contra.
Lula, porém, não quer deixar que o tema da segurança – considerado como prioridade para muitos brasileiros nas eleições de 2026 – fique nas mãos dos bolsonaristas.
A esperança, portanto, é de que um acordo de cooperação possa ser anunciado na quinta-feira, uma vez mais delimitando uma estratégia na qual o Brasil se apresenta como parceiro. E não como submisso aos interesses de Trump.
O Brasil buscava ainda incluir na agenda o combate contra a lavagem de dinheiro e contra o tráfico de armas.
No comércio, a expectativa é de que haja algum tipo de diálogo para permitir que barreiras ainda existentes contra 20% dos produtos brasileiros possam ser finalmente reduzidos. Mas a ausência de uma ampla delegação do setor privado aponta, segundo observadores, que não haveria ainda espaço para garantir um novo acordo.
A situação de Venezuela e Cuba também deve ser tratada. Neste caso, diplomatas brasileiros admitem que a conversa terá seus limites. Ainda que a estabilização de Caracas seja um ponto de interesse de Lula e Trump, a forma pela qual a retirada de Nicolas Maduro foi realizada foi vista pelo Planalto como um sinal negativo sobre como os EUA estão dispostos a agir na região.
Sobre a crise em Havana, não há uma perspectiva de uma convergência na posição dos dois líderes. Mas, assim como ocorreu em 2023 quando Lula esteve com Joe Biden, o Brasil acredita que é seu dever apresentar sua posição sobre a situação.
Reunião de trabalho, não visita de estado
O formato do encontro também chama a atenção de observadores. Se em algum momento existiu a perspectiva de que o encontro fosse ser transformado em um ato de aproximação concreta entre os dois líderes, a agenda e o comportamento da Casa Branca revelam que a viagem está sendo tratada de uma forma mais pragmática.
Washington descreve o encontro como uma “reunião de trabalho”, o que dispensa jantares de homenagem ao brasileiro ou a viagem com equipes e delegações completas de ambas as partes.
Lula, ainda assim, decidiu aceitar o formato oferecido. Sua visão é de que, depois de um encontro com George W. Bush em 2003 e marcado por suspense por conta da distância ideológica entre os dois líderes, agora será a vez de traçar uma linha no chão sobre como o Brasil espera ser tratado por Donald Trump até o final do ano.



