A biografia de Carlos Bolsonaro é vastamente conhecida pela notoriedade pública que sua figura tem desde os anos anteriores à eleição do pai como presidente, em 2018. Carlos ficou conhecido pela sua atuação na comunicação, naquilo que muitos chamam até hoje de “gabinete do ódio” e de “milícias digitais” e pouco conseguiu impactar com os feitos em seu mandato de vereador, cargo público no qual comemorou bodas de prata.
Prestes a se lançar oficialmente como candidato ao Senado por Santa Catarina e com evento público agendado em Florianópolis no próximo dia 9 de maio, o desafio é fazê-lo apresentar uma carteira de trabalho convincente em um Estado no qual políticos exploram o rótulo de “trabalhador”. Hoje, Santa Catarina tem o segundo menor índice de desemprego do Brasil, com percentual de 2,3%, abaixo da média nacional em 5,6%.
Carlos, por enquanto, não está nas estatísticas do desemprego. Após renunciar ao mandato no Rio de Janeiro, veio para o estado bancado pelo PL. Paralelamente ao importante dever de cuidar da imagem pública do pai nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp, Carlos exercia o papel de vereador na Câmara do Rio de Janeiro, função na qual esteve desde o início dos anos 2000, sendo eleito pela primeira vez aos 17 anos.
Enquanto muitos jovens da classe média começavam a frequentar universidades ou rolês dos abastados, Carlos foi eleito vereador em uma disputa contra a própria mãe, na época separada de Bolsonaro. Segundo relatos, ele respondeu a uma convocação do pai para instituir o racha familiar, dividir votos e eliminar Rogéria da Câmara, onde ela exercia mandato. Começava ali o seu único trabalho desde então: manter o poder e construir a oligarquia bolsonarista que hoje tenta se instalar em Santa Catarina.
Foram mandatos em sequência, amparados pelo sobrenome e por uma agenda ideológica que já projetava sua imagem como um conservador. “Carlos não se preocupava em herdar um espólio; mas ele tinha em mente que ajudaria a construir um império de ideias”, diz um audacioso texto do blog Família Bolsonaro, que ele divulga no seu site oficial.
No mesmo texto congratulatório, Carlos é enaltecido por 44 projetos aprovados no Rio em 25 anos, dentre elas o Dia da Liberdade de Expressão, pauta que é de interesse constitucional e que, portanto, tem pouco impacto real quando aprovada por uma Câmara. A “neutralidade ideológica” também é uma de suas bandeiras, mesmo que ele próprio de neutro não tenha nada.
“Povo que trabalha”
“Carlos Bolsonaro não vai a Santa Catarina para pedir; ele vai para somar forças com um povo que produz, que trabalha e que não aceita a doutrinação ideológica”. O festival de clichês sobre um estado visto como vitrine do bolsonarismo é também um alerta: como um povo que produz e que trabalha pode ter identificação com um político profissional que passou a vida dedicado a assuntos que não interessam ao trabalhador?
Sobre os sindicatos, por exemplo, disse que recebem milhões “e transformam parte disso em meia dúzia de clássicos militantes nas ruas”. Por óbvio, Carlos Bolsonaro nunca precisou de um sindicato para garantir ou discutir seus direitos, já que desde os 17 anos de idade tem o conforto do salário de vereador. Em 2025, último ano de mandato, ele recebia mais de R$ 23 mil. Não precisou esperar nenhuma data-base para ver seu salário ampliar para R$ 38 mil como dirigente do PL.
O passado do trabalhador Carlos Bolsonaro traz algumas polêmicas. Em fevereiro de 2026, foi reaberto um inquérito para investigá-lo sobre suspeita de rachadinha. A decisão foi por considerar que o arquivamento de um processo realizado pelo Ministério Público em 2024 teria sido prematuro. A prática foi investigada nos mandatos de Flávio e do próprio Jair Bolsonaro e também é bem documentada no livro “O negócio de Jair”, da jornalista e colunista do ICL Notícias, Juliana Dal Piva.
A “rachadinha” nada mais é do que um roubo do trabalhador, quando o político captura para si parte do salário de algum colaborador. Se o trabalhador for fantasma, a situação é ainda mais grave – alguém ganha para não fazer nada e devolve a maior parte do bolo para o proprietário do mandato.
O suposto trabalho de Carlos Bolsonaro em Santa Catarina, por enquanto, não produziu registros de peso. O maior buzz da sua campanha foi o fato de ela entrar em conflito com os anseios do PL-SC, que em parte espera a superação do bolsonarismo e em parte acredita que o filho do ex-presidente deveria ficar no seu próprio quintal e deixar as lideranças locais ascenderem com seu brilho próprio.
Depois de 25 anos atuando como vereador e sem uma única experiência no mercado formal, Carlos Bolsonaro pode até tentar vender o discurso de que se identifica com Santa Catarina pela vocação para o trabalho, mas falar isso sem apresentar um único compromisso real com o trabalhador e suas especificidades regionais, enquanto confunde nome de bairro com nome de cidade, é flertar com o mundo fantasioso – talvez este sim seu trabalho preferido.



