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sexta-feira, 17 abril, 2026
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Oficinas no Amazonas impulsionam proteção de patrimônios indígenas e fortalecem autonomia cultural no Alto Rio Negro

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Fidelis Baniwa, Beatriz Calheiros e Rose Bare

Na semana em que se celebra o Dia Nacional dos Povos Indígenas, em 19 de abril, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em parceria com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), promoveu oficinas estratégicas para a salvaguarda de dois importantes bens culturais no Amazonas. Realizadas entre os dias 14 e 15 de abril, as atividades reuniram lideranças indígenas, técnicos e representantes de instituições públicas no Distrito de Iauaretê e na sede do município de São Gabriel da Cachoeira, com o objetivo de definir e aprovar ações que integrarão os Planos de Salvaguarda desses patrimônios reconhecidos.

 

Os encontros foram voltados à preservação da Cachoeira de Iauaretê – Lugar Sagrado dos Povos Indígenas dos Rios Uaupés e Papuri – e do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, dois bens registrados como Patrimônio Cultural Imaterial. A iniciativa buscou consolidar estratégias de proteção que respeitem a realidade das comunidades detentoras, fortalecendo a autonomia e a sustentabilidade dos povos indígenas da região.

Fotos: Jenn Bonates e Cezar Nogueira.

Construção coletiva marca os encontros

Durante as oficinas, representantes do Iphan e das comunidades indígenas realizaram uma avaliação conjunta dos impactos das políticas públicas implementadas ao longo dos anos desde o reconhecimento desses bens culturais. O espaço também serviu para discutir desafios enfrentados, avanços conquistados e as próximas ações necessárias para garantir a continuidade e valorização desses patrimônios.

A participação ativa das comunidades foi um dos pontos centrais das atividades. Lideranças indígenas destacaram a importância do diálogo direto com o poder público na construção das políticas de preservação.

 

“O encontro é importante porque estamos discutindo sustentabilidade e autonomia para as novas gerações. Para nós que participamos diretamente da política do movimento indígena, essa oficina é sinônimo de soberania e ajuda muitas pessoas”, afirmou Arlindo Maia, liderança indígena e detentor do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro.

A superintendente do Iphan no Amazonas, Beatriz Calheiro, ressaltou que as oficinas reforçam o compromisso institucional com a proteção dos patrimônios culturais indígenas. Segundo ela, o processo de escuta é essencial para garantir a efetividade das ações.

“As atividades fortalecem a escuta, o diálogo e a construção coletiva das ações para a preservação desses patrimônios culturais”, destacou.

Planos de salvaguarda orientam ações futuras

Os Planos de Salvaguarda são instrumentos fundamentais para a gestão de bens culturais imateriais. Eles reúnem diretrizes e ações que visam garantir a continuidade das práticas culturais, respeitando os modos de vida e as especificidades das comunidades envolvidas.

 

No caso das oficinas realizadas no Amazonas, os participantes trabalharam na validação das principais propostas que irão compor esses planos. Entre os temas abordados estiveram a valorização dos saberes tradicionais, o fortalecimento das práticas culturais e a necessidade de políticas públicas integradas que considerem as realidades locais.

A condução das atividades contou com a participação de técnicos especializados do Iphan. A oficina voltada à Cachoeira de Iauaretê foi coordenada por Thaísa Lumie, do Departamento de Patrimônio Imaterial, e pela assistente técnica Roberta Valin. Já as atividades relacionadas ao Sistema Agrícola Tradicional foram conduzidas por Rafael Azevedo e Iury Frutuoso.

O processo também contou com o apoio de lideranças da FOIRN, como Carlos Neri e Maria Hildete, que contribuíram para garantir a representatividade e a participação das comunidades.

Parcerias institucionais ampliam o alcance

Além do Iphan e da FOIRN, as oficinas reuniram representantes de diversas instituições que atuam na região amazônica. Estiveram presentes membros da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM), da Empresa Estadual de Turismo do Amazonas (Amazonastur) e do Instituto Socioambiental (ISA).

A presença dessas entidades reforça a importância de uma abordagem integrada na preservação do patrimônio cultural indígena, envolvendo áreas como meio ambiente, educação, turismo e desenvolvimento sustentável.

A articulação entre diferentes órgãos também contribui para ampliar o alcance das ações previstas nos planos de salvaguarda, possibilitando a criação de políticas públicas mais eficazes e alinhadas às necessidades das comunidades.

 

Sistema agrícola tradicional preserva saberes ancestrais

O Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro é um dos principais exemplos de patrimônio cultural imaterial reconhecido no Brasil. Praticado por povos indígenas da região, ele reúne conhecimentos e práticas transmitidos ao longo de gerações, envolvendo técnicas de cultivo, manejo da terra e uso sustentável dos recursos naturais.

Esse sistema é desenvolvido em um contexto multiétnico e multilíngue, envolvendo 22 etnias que compartilham saberes e práticas. A troca de conhecimentos entre diferentes povos é uma característica marcante, contribuindo para a riqueza cultural da região.

A prática abrange municípios como São Gabriel da Cachoeira, Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro, consolidando-se como um modelo de sustentabilidade e convivência harmoniosa com o meio ambiente.

Além de garantir a segurança alimentar das comunidades, o sistema também desempenha um papel fundamental na preservação da biodiversidade e na manutenção das identidades culturais.

 

Cachoeira de Iauaretê é símbolo espiritual e histórico

A Cachoeira de Iauaretê representa um dos locais mais importantes para os povos indígenas do Alto Rio Negro. Considerada sagrada, ela reúne cerca de dez comunidades formadas por etnias de diferentes filiações linguísticas, como Tukano Oriental, Aruak e Maku.

O local possui um profundo significado simbólico, estando associado às narrativas de criação da humanidade e ao surgimento das diversas etnias da região. Essas histórias são transmitidas oralmente e fazem parte da identidade cultural dos povos que habitam a área.

Localizada no distrito de Iauaretê, no município de São Gabriel da Cachoeira, a cachoeira é um marco de referência para as comunidades, sendo considerada um território de memória e espiritualidade.

 

A preservação desse espaço vai além da proteção física do local, envolvendo também a valorização das narrativas, rituais e práticas culturais associadas a ele.

Desafios e perspectivas para o futuro

Apesar dos avanços na proteção dos bens culturais indígenas, ainda existem desafios a serem enfrentados. Entre eles estão a necessidade de maior investimento em políticas públicas, a valorização dos saberes tradicionais e o fortalecimento da autonomia das comunidades.

As oficinas realizadas pelo Iphan e pela FOIRN representam um passo importante nesse processo, ao promover o diálogo e a construção conjunta de soluções.

A expectativa é que os Planos de Salvaguarda resultantes dessas atividades contribuam para garantir a continuidade das práticas culturais e a proteção dos territórios indígenas, assegurando que esses patrimônios sejam preservados para as futuras gerações.

Ao integrar conhecimento tradicional e políticas públicas, iniciativas como essa reforçam a importância do reconhecimento e da valorização da diversidade cultural brasileira.

 

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