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sexta-feira, 17 abril, 2026
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Conselheiro da JBS que virou amigo de Lula lidera frente para derrotar extremismo em SC

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Após articulações que envolveram uma série de conversas com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do PT, Edinho Silva, finalmente Santa Catarina tem uma chapa formada para duelar com Jorginho Mello (PL), Caroline de Toni (PL) e Carlos Bolsonaro (PL). E embora o eleitor não vá ver o número 13 na urna na disputa ao governo, a construção da frente democrática catarinense seguiu a lógica que vem permeando outros estados: dialogar com atores e agentes de espectros mais ao centro, à semelhança do movimento que levou o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) a ser um dos principais braços de Lula em seu terceiro mandato.

O nome de Gelson Merísio (PSB), pré-candidato ao governo, não é uma novidade na política catarinense. Depois de atuar como vereador em Xanxerê e de chegar à presidência da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, ele foi ao segundo turno na disputa ao governo de 2018, pelo PSD. Derrotado, saiu de cena. Saiu, na verdade, dos holofotes públicos, pois sua vida nos últimos oito anos envolveu um amplo trânsito no mundo empresarial, junto aos irmãos Batista da JBS.

Foi aí que encontrou na figura de Lula um aliado inesperado. Merísio construiu sua carreira política em partidos de direita, inclusive com filiação no PSDB no auge em que os quase extintos tucanos polarizavam com o PT na cena nacional. Mas foi ele quem articulou e coordenou, nos bastidores, a campanha de Décio Lima (PT) ao governo catarinense em 2022. Ao contrário do que previam as pesquisas e os analistas mais experientes, o petista  foi ao segundo turno após um comício histórico de Lula, no centro de Florianópolis.

O nome do ex-deputado começou a ganhar força como candidato ao governo por conta do conhecido racha na extrema-direita após a vinda de Carlos Bolsonaro para a disputa ao senado. A cisão prevista de votos entre ele, Esperidião Amin e Caroline de Toni levou o PT local a resgatar um projeto antigo de Décio Lima de concorrer ao senado para surfar na dispersão dos votos radicais.

Mas para concorrer ao senado, Décio precisava de alguém disposto a disputar o governo, com o aval e a benção de Lula. Não foi uma tarefa fácil. O primeiro nome aventado foi o do ex-senador Paulo Bauer, tucano histórico e muito amigo de Geraldo Alckmin. A ideia não vingou, mesmo com a benção e o esforço do vice-presidente, e Merísio passou a ser um caminho alternativo.

O ex-deputado percorreu uma via sacra e, com discrição, planejou sua migração ao PSB, primeiro partido de centro da sua biografia. Também buscou interlocução com Alckmin e se sentou com quadros históricos do PT local, bastante fragmentado e envolto em disputas antigas de poder. Nesse interim, comemorou aniversário com uma festa repleta de convidados da esquerda, inclusive militantes históricos na defesa da reforma agrária – Merísio é do Oeste catarinense, região com predominância do agronegócio e também com a resistência da agricultura familiar.

Aliados reconhecem que a proximidade com Décio Lima foi um dos fatores que fortaleceu sua entrada no projeto. Como em 2022 a parceria foi considerada sólida, já que o PT chegou ao segundo turno de forma histórica, o nome foi visto como uma possibilidade de flertar e atrair eleitorado de centro sem romper com a agenda progressista pró-democracia.

Um dos desafios, no entanto, é apagar da memória do eleitor os vídeos de apoio a Jair Bolsonaro em 2018, quando venceu a disputa ao primeiro turno para ser atropelado pelo PSL de Carlos Moisés na segunda etapa do pleito. Depois, saiu de fininho, com discrição, para retornar como companheiro com o aval e as bençãos de Lula.

A chapa das cinco mulheres

Merísio terá ao seu lado, na vice, a também ex-deputada estadual e federal, Angela Albino (PDT). Tal como ele, estava afastada da política, ao menos daquela que recebe holofotes públicos. Angela construiu carreira no PC do B, mas migrou para o PDT para ser parte da frente democrática e mexer num componente importante da disputa eleitoral em Santa Catarina: ela é a primeira mulher a aparecer na pré-campanha à majoritária.

Com índices de feminicídio crescendo e sempre ocupando espaço incômodo nas manchetes sobre violência contra a mulher, Santa Catarina viu as primeiras pré-candidaturas surgindo sem mulheres no protagonismo. Jorginho Mello (PL) dispensou a vice governadora e se aliou a um homem, João Rodrigues (PSD) também não dá sinais de que comporá com alguma mulher.

Ao contrário, a frente articulada pelo campo democrático trouxe outras quatro mulheres, ainda que em posição quase que de coadjuvantes em uma chapa liderada por homens – além de Merísio e Décio Lima, Afrânio Boppré (PSOL) também é candidato ao senado.

Uma delas, a ex-deputada federal Luci Choinacki (PT) também volta à política depois de anos afastada da vida pública. Foi um dos nomes resgatado por Merísio para fortalecer a agenda das mulheres e também para neutralizar parte de sua verve nas estruturas do agronegócio. Luci é militante histórica da luta pela terra.

As outras três mulheres a comporem a majoritária são a psicóloga Aparecida da Silva (PT), Elaine Cristina Huber (PDT) e a empresária Fernanda Klitzke (PT), todas na suplência do Senado. A frente tem uma expectativa sólida e clara de garantir o voto de esquerda na dupla Décio e Afrânio para aproveitar as dúvidas na direita com três candidatos com discurso bastante parecido.

Filho de Jorginho Mello teme estratégia

Embora surja como corrente contra-hegemônica em um Estado cada vez mais tomado pela radicalização bolsonarista, a frente formada com as forças da esquerda em Santa Catarina tem acendido o alerta ao projeto de reeleição de Jorginho Mello (PL).

O atual governador apostou em um projeto com foco na polarização radical, deixando sua chapa conservadora e afastando-se de qualquer partido com verve mais centrista, como o MDB e o próprio PSD. Em recente entrevista, o filho de Jorginho e estrategista do PL, Bruno Mello, comentou que a frente é o principal oponente ao projeto do pai, construindo a polarização da qual seu grupo político depende.

Para o PL, bater em Décio Lima ou em qualquer candidato do PT seria mais fácil e estratégico, mas alvejar Merísio é uma tarefa mais complexa. O novo candidato de Lula faz uma linha semelhante a de Rodrigo Pacheco (PSB) em Minas Gerais e também foi seduzido da centro-direita à centro-esquerda para compor com um projeto pró-democracia e anti-extremista.

Jorginho, por outro lado, precisa se radicalizar cada vez mais para dispersar as intenções de voto em João Rodrigues (PSD) sem deixar Merísio aproveitar o vácuo. Prova disso foi um vídeo repleto de fuzis que lançou na sua rede social nesta quarta-feira, às vésperas do lançamento da frente democrática.

Merísio é conhecido como um politico de diálogo, com trânsito no meio empresarial, embora tenha o desafio de convencer o eleitor de esquerda de que está aberto para alavancar debates alinhando-se às posições históricas do campo. O primeiro passo oficial foi dado nesta quinta-feira, em entrevista coletiva de apresentação do grupo que pretende varrer o espírito de radicalização de um dos estados mais bolsonaristas do país.





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