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terça-feira, 31 março, 2026
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Tanure é investigado pelo BC, PF e MPF pela quebra do Master

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Nos próximos dias, Nelson Sequeiros Rodriguez Tanure se converterá, por meio das investigações da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e, sobretudo, da área de fiscalização do Banco Central, no maior protagonista dos escândalos financeiros descobertos com as liquidações do Banco Master e da operadora REAG DTVM.

Em ações coordenadas com o controlador da REAG, João Carlos Mansur, e com o amigo de velhos carnavais do mercado financeiro, Maurício Quadrado, o baiano Tanure, radicado no Rio desde 1977, surgirá como personagem central das fraudes executadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro e pelo pastor da Igreja Lagoinha, Fabiano Zettel.

Acionista com forte presença no controle de empresas como a Light (distribuição de energia no Rio de Janeiro), Gafisa (incorporação), Alliança Saúde (planos de saúde), Docas Investimentos (porto de Santos), Emae (águas e esgotos em São Paulo, fiel da balança na privatização da Sabesp), Tim Brasil (telefonia), Ligga (telecomunicações, resultado da incorporação de Sercomtel, Copel, Horizons e Nova Fibra), Prio (petróleo e gás, união de PetroRio com HRT) e Sequip (engenharia e serviços), Nelson Tanure é um dos bilionários brasileiros (em dólar) de acordo com o ranking da revista Forbes. Ele também teve participação nas telefônicas Oi e BrasilTelecom, que faliram ou foram levadas a processos de recuperação judicial.

No panorama de governadores eleitos na safra de 2022, tem especial proximidade com Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo, por causa da decisiva ação na privatização da Sabesp via Emae, com Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, em razão da Copel, e com o ex-governador inelegível do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), devido à relevância social da Light no estado.

Os investigadores do grupo multidisciplinar do BC, da PF e do MPF que se debruçam sobre o vasto material coletado nas buscas e apreensões efetuadas nas sedes do Master, da REAG, do BRB, nas casas de muitos ex-sócios e ex-executivos das duas instituições e também por causa da colaboração decisiva do antagonista de Tanure no mercado financeiro, Wladimir Timmerman, da Esh Capital, estabeleceram uma certeza: o padrão das fraudes financeiras e dos assaques ao sistema financeiro nacional pelos investigados se dava, em larga medida, para capitalizar a participação de Tanure nos grupos econômicos, corporações e empresas nas quais ele disputa o controle.

Um dos informantes da força-tarefa que esquadrinha as ruínas financeiras e operacionais do Master e da REAG contou, sem subterfúgios, que o objetivo do grupo formado por Daniel Vorcaro, seu sócio Augusto Lima, Fabiano Zettel, e mais a “trinca da REAG” (como eram chamados) João Carlos Mansur, Nelson Tanure e Maurício Quadrado, era estabelecer no país um grupo econômico que fizesse face à envergadura e ao modus operandi de André Esteves no BTG Pactual. Antônio Carlos Freixo Jr., do Grupo Entre, que controlava a fintech de pagamentos Entrepay, liquidada na semana passada, era aliado pontual do sexteto na aventura que deu com os burros n’água.

Tanure criou rede de ampla influência

A queda de Nelson Tanure ecoará na economia brasileira como a sagração de uma profecia que se auto cumpriria. Tendo começado sua ambiciosa carreira empresarial no mercado imobiliário de Salvador, em 1975, o empresário mudou-se para o Rio de Janeiro em 1977. Começou a trabalhar na área de construção civil e incorporação e, em 1980, adquiriu participações crescentes na Sequip, empresa de engenharia e serviços.

Rapidamente escalou o mercado de petróleo e se tornou da empresa francesa Comex e da canadense Hydrospace. Em seguida, viu abrirem as portas do setor elétrico e se associou à Alshton para fornecer peças para usinas hidrelétricas. Em 1986, adquiriu o estaleiro Emaq, quebrado, e logo depois, em 1990, o Verolme — esbulho do que havia sido uma das joias da Coroa dos grandes estaleiros brasileiros.

Por meio de ações judiciais e buscando sempre investimentos públicos a fundos que se perdiam de vista e raramente eram pagos, Nelson Tanure foi se tornando um célebre gestor de massas falidas e estabeleceu uma engrenagem que jamais deixou de capitalizar suas próprias contas.

Em 2001, depois de se convencer de que não havia adquirido o patamar de influência que achava ser justo para si, adquiriu por arrendamento as massas falidas do Jornal do Brasil e da Gazeta Mercantil, dois dos mais tradicionais títulos da imprensa brasileira. O JB havia sido o mais respeitável veículo impresso do país nos anos 1960 e 1970, inovador no trato da reportagem e no estilo de jornalismo moderno e ágil.

Foi veículo essencial ao processo de redemocratização. Qual vampiro, Tanure queria sugar o que restava do prestígio do jornal que pertenceu à Condessa Pereira Carneiro e aos seus herdeiros. Da Gazeta Mercantil, maior e mais influente publicação de economia da América Latina nos anos 1970 e 1980, queria o poder de influência em São Paulo. Não obteve nada do que tentou, pois nunca teve credibilidade suficiente para fazer o mercado e o mundo da política acreditarem em seus passos e em suas ambições.

Paulo Marinho, que era o principal executivo dele na área editorial e executor de lobbies na área jurídica em Brasília e junto ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, deixou o campo de gravidade de Tanure em 2018 para coordenar a captação de recursos e a mídia da campanha de Jair Bolsonaro à presidência da República. Marinho terminou se elegendo primeiro suplente de senador de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) neste mandato que se encerra agora em 2026.

Síntese do investidor abutre

A figura de Nelson Tanure sintetiza um tipo de capitalista recorrente no Brasil pós-estabilização monetária. Cínicamente, personagens assim são chamados de “investidores especializados em ativos estressados”. Operam em ambientes de incerteza jurídica e financeira, frequentemente estruturando participações por meio de fundos e holdings de difícil rastreabilidade pública. Foi o que foi feito por meio da REAG e do Master. Ele estruturou “fundos abutres”.

A trajetória do baiano radicado no Rio há meio século conecta estaleiros em concordata, empresas de telecomunicações nascidas da privatização, grupos de mídia em crise e companhias de energia e petróleo reposicionadas no mercado de capitais. Nesse sentido, Tanure encarna o capitalismo brasileiro da virada do século: um híbrido de reestruturação financeira, oportunismo regulatório e tentativa de captura de valor em setores submetidos a profundas mudanças tecnológicas e institucionais. Sempre, claro, comercializando favores e vendendo ou comprando acessos nos Três Poderes da República.

O conceito de investidor abutre — detentor de fundo abutre (vulture fund) — descreve agentes financeiros especializados em comprar ativos profundamente desvalorizados, geralmente de empresas em crise, em recuperação judicial, perto da falência ou com forte endividamento, apostando que esses ativos podem recuperar valor no futuro.

O termo “abutre” vem da metáfora do animal que se alimenta de carcaças. A metáfora é adequada porque esse investidor se aproxima quando a empresa já está fragilizada, adquirindo participações por preços muito baixos, frequentemente em situações de desespero financeiro ou pressão judicial.

A estratégia consiste em identificar oportunidades em que o preço de mercado está muito abaixo do valor potencial do ativo. O investidor compra dívidas, ações ou o controle da empresa, renegocia passivos, vende partes do negócio, substitui a gestão ou promove fusões e aquisições. Se o plano der certo, o ganho pode ser elevado, porque a valorização ocorre sobre uma base muito deprimida. É exatamente isso o que ora se investiga a partir dos escombros iluminados do Master e da REAG DTVM.

Os fundos abutres fornecem liquidez a mercados em momentos de estresse, mesmo que o dinheiro não exista, seja meramente escritural, e ajudam a reestruturar empresas que poderiam desaparecer. Alegam que “preservam empregos” e mantêm “atividades produtivas” para dar discurso aos empresários e políticos que os auxiliam na abertura de portas, aproveitando os flancos dos sistemas de fiscalização.

Esses investidores priorizam ganhos financeiros de curto prazo, promovem cortes agressivos de custos, venda de ativos estratégicos e redução de direitos trabalhistas, enfraquecendo a empresa no longo prazo. Há provas de que o investidor abutre se beneficia mais da fragmentação do negócio do que de sua recuperação e deprime as participações dos sócios minoritários.

O investidor abutre é uma figura típica do capitalismo financeiro contemporâneo, associada a operações complexas de reestruturação, alto risco e potencial elevado de retorno. A fantasia cabe à perfeição no perfil enxuto e sempre bem cuidado de Nélson Sequeiros Rodríguez Tanure e, com ela, ele está prestes a lançar Daniel Vorcaro num impensável papel de coadjuvante do próprio escândalo que o ex-banqueiro mineiro criou.





ICL Notícias

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