24.3 C
Manaus
quinta-feira, 26 março, 2026
InícioBrasilQue a Europa também se abstenha de lucrar com a escravidão

Que a Europa também se abstenha de lucrar com a escravidão

Date:


Gana propôs, 123 países — incluindo o Brasil — concordaram, três (Eua, Argentina e Israel) foram contra e toda a União Europeia se absteve. Este é o resumo da votação que declarou o tráfico transatlântico de escravizados para as Américas como o crime mais grave contra a humanidade.

O Brasil, graças a um trabalho muito bem articulado de informação e diálogo feito pela Coalizão Negra por Direitos, aderiu. Não passamos a vergonha histórica de ser a nação que por último aboliu a escravidão e ainda ir contra a esta constatação.

Os número estão todos fartamente comprovados em alguns milhões de documentos de época, nos mais diversos arquivos ao redor do mundo. Até 15 milhões de pessoas comerciadas, ao menos dois milhões mortas pelo caminho, torturas inomináveis, mortes incontáveis nas chegadas e durante a permanência no sistema que oferecia expectativas de vida de períodos pré-históricos.

No entanto, não é só isso.

A escravidão transatlântica aniquilou populações inteiras, aniquilou possibilidade de futuros, dispersou famílias, legou doenças e inventou uma perversidade tão sofisticada, que sentimos seus efeitos até hoje: o racismo. Foi neste período que a humanidade pela primeira vez aprendeu a colar em um fenótipo — o negro — a condição intrínseca de escravo e por tanto subalterno, e por tanto sub-humano, e por tanto merecedor de quase nada em direitos. Alguém igualado às bestas e objetos de um senhor ou senhora qualquer.

No entanto, não é só isso.

Tudo com as bençãos de bulas papais. A ‘Dum diversas’, de 1452, concedeu ao rei Afonso V de Portugal autorização para invadir, buscar, capturar e subjugar sarracenos (muçulmanos), pagãos e outros “inimigos de Cristo”, e submetê-los à escravidão perpétua. Dois anos depois, a ‘Romanus Pontifex’ confirmou e ampliou esses direitos, concedendo a Portugal o monopólio da navegação e comércio nas regiões ao sul do Cabo Bojador, e legitimando a posse de territórios e a escravização dos povos africanos. Estas e ainda a Inter Caetera (1493) formaram a “Doctrine of Discovery” (Doutrina da Descoberta) e abriu a porteira para um massacre incomensurável.

Papas pediram desculpas pelo envolvimento da Igreja Católica na escravidão e em abusos coloniais. João Paulo II pediu perdão pelo comércio de escravos na África (1992) e em 2000 pelos erros históricos da Igreja, enquanto o Papa Francisco pediu desculpas pelos abusos contra indígenas no Canadá (2022)

No entanto, não é só isso.

Todo o ouro, prata, outros metais, pedras preciosas, recursos naturais retirados do solo africano e/ou do solo americano pelas mãos de escravizados escoaram para um comércio que financiou o capitalismo nascente e o mantém até os dias atuais. Foi no braço negro que tudo foi erguido e é no braço de seus descentes — que seguem na base dos trabalhos e condições mais aviltantes — que tudo é mantido.

É o grau de crueldade, longevidade, multiplicidade, complexidade e perenidade desta chaga a faz a maior.

No entanto, não é só isso.

Depois de obterem reservas de ouro que não estão em seus territórios, se beneficiarem de recursos que construíram sociedades seguras, tecnológicas, confortáveis, etc enquanto atiraram na pobreza extrema nações inteiras. Os 52 países da União Europeia —, entre eles os criadores e maiores beneficiados da excrescência que significaram e significam estes fatos na história da humanidade — se abstêm de votar.

Podem abster-se de apertar este botão, mas jamais abrirão mão do que lucraram e seguem lucrando com os efeitos da escravidão. Os representantes destes países lavaram suas mãos com o argumento de que não se pode criar hierarquias de dores. Como se não tivessem sido eles a inventar a hierarquia de cores.

Haverá muito choro e ranger de dentes com este anúncio, pois a humanidade é seletiva na escolha das dores que mais a comovem e que merecem ser lembradas e sentidas pela eternidade. Não é apenas isso. É tudo isso e bem mais do que cabe nestas páginas. São cinco séculos.

Este é o típico caso em que não há meio termo. Estados Unidos, Israel e Argentina votando contra, considerando os atuais rumos de tais nações, o surpreendente seria o contrário. No entanto, a Europa optou pelo silêncio acovardado. Antes tivessem se juntado aos três negacionistas da história.

Quem se abstém, cala. E quem cala, assume e consente.

 

 





ICL Notícias

spot_img
spot_img