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quarta-feira, 25 março, 2026
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Multidão exige memória, verdade e justiça nos 50 anos do golpe na Argentina

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Por Gabriel Vera Lopes – Brasil de Fato

Sob o lema “São 30 mil e nos digam onde estão”, milhares de pessoas se mobilizaram na Argentina em uma das maiores manifestações em repúdio ao golpe de Estado de 24 de março de 1976.

“A 50 anos do golpe genocida, estamos juntos novamente nesta histórica praça — e em todas as praças do país —, com profunda convicção, para reafirmar que a memória se defende lutando e porque sabemos que é necessário unir as lutas para fortalecê-las em tempos difíceis”, começou o documento oficial lido na Praça de Maio. “São 30 mil! Foi e é genocídio. Não esquecemos, não perdoamos e não nos reconciliamos!”.

Por volta do meio-dia, várias horas antes de a mobilização começar oficialmente, o centro da Cidade de Buenos Aires já estava lotado. Famílias inteiras, grupos de amigos e companheiros de militância alimentavam as intermináveis colunas, repletas de bandeiras e tambores.

“Todos os anos marchamos, mas este é o primeiro em que viemos com as meninas”, conta Gustavo, professor do ensino fundamental, enquanto suas filhas nos mostram uma bandeira com bordados feitos por elas mesmas, com a frase “Florescerão mil flores”, ao lado do tradicional lenço das Mães e Avós da Praça de Maio.

Poucas mobilizações na Argentina conseguem uma transversalidade geracional tão marcante quanto as marchas de 24 de março, nas quais se reúnem desde centros de estudantes do ensino médio até grupos de aposentados, passando por organizações de bairro, sindicais, culturais, movimentos sociais e partidos políticos. Até as torcidas de futebol se mobilizam. “Quem não pula é militar”, cantam, no meio da Nove de Julho, um grupo de torcedores com suas camisas, enquanto as pessoas passam e, entre piadas de futebol, os filmam e os cumprimentam.

“Que feio, que feio, que feio deve ser, reprimir aposentados pra poder comer”, cantavam nas colunas de estudantes secundaristas, enquanto sustentavam um boneco gigante com o rosto de Milei.

Entre os cantos e as bandeiras, a mobilização parecia um gigantesco abraço coletivo: uma verdadeira maré humana que envolve e acompanha esse símbolo de dignidade e firmeza moral que representam as Mães da Praça de Maio.

Membros da associação de direitos humanos Mães da Praça de Maio seguram os retratos de seus filhos e filhas desaparecidos nos 50 anos da ditadura militar | Crédito: Luis Robayo/AFPargentina
Membros da associação de direitos humanos Mães da Praça de Maio seguram os retratos de seus filhos e filhas desaparecidos nos 50 anos da ditadura militar | Crédito: Luis Robayo/AFP

“Queremos memória completa: onde estão os bebês roubados?”, perguntava um enorme cartaz pendurado na Avenida de Maio, em resposta às provocações do governo de Milei, que reivindica explicitamente o projeto da última ditadura. Horas antes do início da mobilização, o governo publicou um vídeo de mais de uma hora, no qual voltava a insistir na narrativa dos militares condenados por crimes contra a humanidade.

“Memória completa” foi o lema apropriado pelos manifestantes, que inundaram as ruas com cartazes de frases irônicas que interpelavam o governo. As denúncias contra o governo de extrema direita de Javier Milei foram constantes ao longo da mobilização. “O governo de La Libertad Avanza aprofunda a dependência de Trump e do imperialismo norte-americano. Ataca os direitos populares e obedece aos mandatos do FMI [Fundo Monetário Internacional] com uma reforma trabalhista de caráter escravizante, aprovada pelas forças governistas e aliadas. Para isso, contou com o apoio imprescindível de deputados e senadores que respondem a governadores que aplicam o ajuste”, apontava o documento lido na praça.

Ao mesmo tempo, advertia que “esses modelos capitalistas neoliberais não podem ser impostos sem repressão; é assim que aprofundam os ataques à organização popular, perseguem aqueles que lutam, equipam as forças repressivas, armam processos, proscrevem, ampliam ilegalmente as atribuições dos serviços de inteligência, formam comandos de forças federais e provinciais para intervir nos conflitos sindicais, avalizam o gatilho fácil e militarizam funções civis, avançando rumo a um regime mais autoritário, antidemocrático e repressivo”.

Cinquenta anos se passaram desde aquele golpe genocida, quando o próprio Estado impôs um plano sistemático de extermínio contra sua própria população. O terrorismo de Estado foi a forma concreta pela qual os setores dominantes encarnaram a contrarrevolução na Argentina.

“Reivindicamos todas as suas lutas, que fizeram parte da militância como ferramenta de transformação da realidade”, afirmou o documento lido na praça, antes de enumerar uma longa lista de organizações e experiências revolucionárias que atuaram na Argentina durante a década de 1970.

As Mães sempre fizeram uma reivindicação explícita da militância de seus filhos e filhas, que deram a vida para transformar o mundo e a Argentina. “Aqueles a quem tiraram a vida eram filhos e filhas deste povo, como vocês, cheios de alegria, sonhos e esperanças, que assumiram a tarefa de mudar o mundo e o país”.

O documento continua fazendo um chamado a dar continuidade à luta dos desaparecidos; “Essa tarefa está inconclusa e é nossa responsabilidade tomar suas bandeiras neste momento, em que governos de ultradireita, integrados por setores fascistas junto ao imperialismo, voltaram a atacar os povos de nosso continente e do mundo”.

Com o passar inclemente dos anos, restam cada vez menos mães e avós. Ainda assim, estão ali — a maioria em cadeiras de rodas —, liderando, ano após ano, a maior mobilização do país. Encabeçam a marcha levando como estandartes as imagens de seus filhos, com as datas de seu desaparecimento; atrás delas, uma imensa bandeira — sustentada por centenas de mãos anônimas —, com os rostos dos desaparecidos, as acompanha ali, à entrada da Praça de Maio.

Os olhos de quem as vê passar se enchem de lágrimas. É difícil explicar a emoção que provocam no olhar de quem as acompanha. “As Mães da Praça, o povo as abraça”, cantam, entre aplausos da multidão. A imagem é comovente: aquelas mulheres que tantas vezes, na escuridão mais terrível da ditadura, estiveram sozinhas nessa praça, denunciando as atrocidades do regime militar, são agora escoltadas por uma multidão indefinível.

“Passaram-se 50 anos e seguimos lutando por Memória, Verdade e Justiça; por pão, saúde e trabalho; por educação e moradia”, dizia a voz no alto-falante, pouco antes do fim do ato. “Levantemos agora, bem alto, as fotos dos desaparecidos e desaparecidas. Neste momento, eles olham para a Casa de Governo, para esse poder do Estado que não os procura, enquanto os nega”.

Enquanto isso, a multidão gritava: “30 mil detidos-desaparecidos, presentes!”.

Ao sair da marcha, um grupo de estudantes — entre 16 e 17 anos — de um centro estudantil escrevia em uma parede um antigo poema de Paco Urondo, militante e poeta desaparecido: “Arderá a memória até que tudo seja como sonhamos”.





ICL Notícias

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