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segunda-feira, 23 março, 2026
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A armadilha da escalada

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A guerra assimétrica envolve um estranho paradoxo que podemos descrever mais ou menos assim – a parte forte é obrigada a ter objetivos de vitória mais exigentes; a parte fraca pode ganhar com objetivos modestos.

Assim, no caso concreto, para os Estado Unidos, ganhar a guerra só pode significar mudar o regime iraniano (só assim pode impedir o projeto nuclear, o desenvolvimento do programa de mísseis balísticos e acabar com o apoio aos proxies na região); para os iranianos, ganhar é apenas sobreviver. A assimetria da força impõe assimetria nos objetivos – ganhar a guerra não é a mesma coisa para um lado e para o outro.

E se a ideia era mudar o regime, objetivo que foi declarado nos primeiros dias de guerra, então a tática militar de matar os dirigentes inimigos parece bastante estúpida. Primeiro: os assassinatos alvo são vistos pelos exércitos rivais como um método sujo e covarde. Segundo: as lideranças são normalmente símbolos nacionais (neste caso são também líderes religiosos) e, assim sendo, os assassinatos não fomentam a divisão indispensável à mudança de regime, mas, pelo contrário, reforçam a coesão nacional.

Finalmente, quando um exército mata um dirigente inimigo está a dificultar as soluções diplomáticas e a possibilidade de o dirigente seguinte fazer a paz sobre o cadáver de quem o antecedeu. “Regime change with jazz improvisition”, escreveu o intelectual iraniano Karim Sajapor. Bem observado.

Aqui chegados, e olhando friamente para a situação, o que vejo é que, passados as primeiros dias sem a “rendição incondicional” inicialmente exigida, o Irã está mais perto de ganhar (basta sobreviver) e os Estado Unidos com dificuldades em encontrar soluções de saída. Não estou vendo como conseguirão os Estados Unidos vir embora, abandonar o teatro da batalha e declarar vitória depois de, como dizem, terem destruído grande parte do poder militar iraniano.

Essa solução, por mais tentadora que pareça neste momento, será vista pelo resto mundo como o que efetivamente é: uma derrota militar e política dos Estados Unidos que confirmará o descrédito da sua liderança nos assuntos do mundo (e que deixará todo a região mergulhada numa paz fria e profundamente instável). Aliados e inimigos sentiriam imediatamente o cheiro de sangue no mar – já nada é certo, tudo está em convulsão, não há ordem, nem direito, nem instituições capazes de impor regras.

O poder mundial está em mudança. É esta situação que coloca os Estados Unidos na armadilha da escalada. Depois das primeiras semanas, o que sobrevive desta guerra é a eterna fascinação de dominar a partir de cima.

O bombardeamento aéreo é o referencial que antecede – o “carpet bombing” da segunda guerra mundial e o “beneficial bombing” do Vietnam. A linha genealógica destas guerras é a aposta na dominação imperial, na dominação a partir do alto.

Mas esta dominação tem limites – nos dois casos a situação escalou, na segunda guerra para a bomba atômica; no Vietnam para o aumento do contingente militar. Hoje, como antes, o que mais temo é a reação furiosa de quem tem meios poderosos e não consegue vencer rápido: atacar mais e dobrar a aposta militar.

Dizem que vão  fuzileiros navais a caminho, mas se põem botas no terreno arriscam passar de uma guerra de atrição para uma guerra de insurgência e nenhum soldado dos Estados Unidos terá paz enquanto pisar solo persa.

Este é o cenário que me preocupa – quando não há forma de resolver rápido o combate, a tendência da potência dominante é alargar o conflito e preservar o prestígio militar. Esta é a armadilha da escalada.





ICL Notícias

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