Encerrando a primeira noite de desfiles do Grupo Especial do Carnaval do Rio, neste domingo (16), na Marquês de Sapucaí, a Estação Primeira de Mangueira levou para a avenida o enredo ‘Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra’. A escola prestou homenagem a Mestre Sacaca, referência dos saberes afro-indígenas no Amapá, que completaria 100 anos em 2026. A apresentação celebrou a chamada “Amazônia negra”, valorizando ancestralidade, espiritualidade e resistência cultural.
Última agremiação a desfilar na noite, a Mangueira apostou em um espetáculo marcado por simbolismo, religiosidade e forte conexão com as raízes amazônicas. Mesmo após um incidente no encerramento, quando um carro alegórico tocou a base do monumento da Praça da Apoteose, a escola concluiu o desfile dentro do tempo regulamentar.

O enredo mergulhou na história de Mestre Sacaca, considerado um guardião dos conhecimentos tradicionais do Amapá. Reconhecido como símbolo dos saberes populares e da medicina tradicional, ele se tornou uma figura emblemática da cultura afro-indígena da região Norte.
A proposta da Mangueira foi além de uma biografia convencional. A escola construiu uma narrativa que conectou espiritualidade, natureza e identidade, ressaltando a importância da preservação dos territórios amazônicos e da valorização das culturas originárias e negras.
Na comissão de frente, os componentes representavam povos e forças ancestrais. Em um ritual coreografado de saudação à natureza, o grupo encenou a invocação do xamã Babalaô, que se manifestava em sua forma encantada, o próprio Mestre Sacaca. O momento foi marcado por efeitos cênicos e por uma atmosfera mística que emocionou o público nas arquibancadas.
A força do ‘encanto tucuju’
A expressão “encanto tucuju” faz referência ao povo tucuju, denominação histórica associada à população do Amapá. No desfile, esse conceito apareceu como símbolo de resistência cultural e espiritual.
A Mangueira utilizou cores vibrantes e elementos da floresta para compor alegorias que remetiam aos rios, à fauna e à flora amazônica. As fantasias destacavam grafismos indígenas, referências às religiões de matriz africana e símbolos da medicina tradicional.
Ao longo do desfile, alas representaram a transmissão de saberes entre gerações, reforçando a ideia de que a memória coletiva é instrumento de sobrevivência cultural. A escola construiu uma ponte entre passado e presente, lembrando que a Amazônia não é apenas território ambiental, mas também espaço de identidade negra e indígena.
Homenagem no ano do centenário
A escolha do enredo ganha ainda mais significado pelo fato de Mestre Sacaca completar 100 anos em 2026. A Mangueira antecipou as celebrações do centenário ao colocar sua trajetória no centro da narrativa do Carnaval.
A escola reafirmou sua tradição de levar para a avenida temas ligados à história afro-brasileira e às lutas sociais. Ao destacar a “Amazônia negra”, ampliou o debate sobre a presença e a contribuição da população negra na formação cultural da região Norte do país.

Carnaval como palco de memória e resistência
A passagem da Mangueira pela Sapucaí reforçou o papel do Carnaval como espaço de valorização da memória e de afirmação identitária. Ao homenagear Mestre Sacaca e a cultura afro-indígena do Amapá, a escola transformou a avenida em território de reconhecimento histórico.
Mais do que espetáculo, o desfile propôs reflexão sobre ancestralidade, espiritualidade e preservação cultural. Em uma noite marcada por diferentes homenagens e exaltações regionais, a Mangueira encerrou a programação com um chamado à valorização da Amazônia e de seus guardiões.



