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sábado, 14 fevereiro, 2026
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Chile entre Jara e Kast: enfraquecimento dos partidos tradicionais e segurança pública no centro do debate

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Por Carolina Ferreira*

Ao vencer as primárias presidenciais da esquerda em 2021, Gabriel Boric declarou que o Chile seria “o túmulo do neoliberalismo”. A frase sintetizava o impulso do “estallido social” de 2019, quando milhões protestaram contra desigualdade, alto custo de vida e décadas de políticas neoliberais. Boric foi eleito presidente naquele período e, por um momento, o início do processo constituinte em 2022 parecia apontar para um avanço duradouro do campo progressista.

Quatro anos depois, o país vive um cenário muito distinto. Boric enfrenta alta rejeição, o modelo neoliberal segue forte e a direita radical voltou a crescer. No primeiro turno realizado no domingo (16), Jeannette Jara, do Partido Comunista, saiu na frente com 26,8%. O ultradireitista José Antonio Kast, do Partido Republicano, ficou logo atrás com 23,9% e recebeu apoio rapidamente dos outros candidatos da direita: Johannes Kaiser e Evelyn Matthei.

Para a professora de Serviço Social da UFRJ, Rejane Carolina Hoeveler, essa união pode levar o Chile ao primeiro governo que reivindica abertamente o “pinochetismo” desde a redemocratização.

Talita Tanscheit, cientista política e professora da PUC-Rio avalia que a disputa atual mostra os limites de análises que tratam a política chilena como ciclos que “matam” a direita ou a esquerda. Ela lembra que, em 2021, a eleição de Boric foi lida como o fim do campo conservador, leitura que rapidamente se mostrou equivocada. Segundo Talita, interpretações semelhantes agora tentam decretar o desaparecimento da esquerda, o que considera um erro.

Além disso, para Hoeveler, a direita tradicional teve papel central nesse processo ao normalizar discursos extremistas. Ela avalia que Kast se apoia em um moralismo e em um conservadorismo popular que ganharam força nos últimos anos, abrindo espaço para uma agenda neofascista no debate público.

Segurança vira eixo central do primeiro turno no Chile

O tema da segurança pública se tornou o principal eixo da campanha eleitoral no país sul-americano. Pesquisa da Ipsos de outubro revela que 63% dos chilenos apontam crime e violência como suas maiores preocupações, porcentagem superior à registrada no México e na Colômbia, países que têm taxas de homicídio quatro vezes maiores. A cientista política chilena Javi Arce afirma que a percepção de insegurança foi subestimada pelo governo Boric e acabou se tornando “um ponto crítico”. Ela observa que muitos eleitores passaram a aceitar “a troca de liberdades por promessas de ordem”.

Embora o Chile continue entre os países mais seguros da região, a taxa de homicídios subiu de 2,32 por 100 mil habitantes em 2015 para 6,0 em 2024. O aumento ocorreu junto a uma forte onda migratória, especialmente de venezuelanos, ligação explorada pela direita. Uma pesquisa da Activa Research de 2025 mostra que 85% dos chilenos se sentem socialmente distantes dos venezuelanos, salto expressivo em relação a 2019.

Tanscheit reconhece que há mudanças reais na dinâmica da violência, mas destaca que a construção midiática tem amplificado o medo. Ela afirma que “indicadores subjetivos passaram a pesar mais que dados concretos” e que discursos que relacionam criminalidade, migração e desemprego criam “uma sensação de caos desconectada da realidade”. Ainda, quando essas narrativas são repetidas diariamente por lideranças conservadoras e reforçadas pelos meios de comunicação, acabam sendo percebidas como verdade.

Nesse ambiente, Kast tem se beneficiado de forma decisiva. Seu discurso de ordem replica estratégias adotadas por líderes conservadores da região e coloca segurança acima de qualquer debate sobre direitos. Arce acredita que a esquerda chilena demorou a assumir o tema com firmeza, o que prejudicou a candidatura de Jara, especialmente com o enfraquecimento do centro político.

 Chile na onda global da extrema direita

A disputa também se conecta ao debate sobre o modelo neoliberal chileno, um dos mais profundos do mundo. Para a cientista política Thais Pavez, o país vive uma “policrise” em que áreas como saúde, pensões, educação e endividamento enfrentam “colapso”, agravado pela pandemia e por uma crise institucional prolongada.

Esse cenário interno se articula a um contexto político mais amplo.. Pavez afirma que “existe um roteiro em comum entre essas figuras: Milei, Bukele, Kast, Trump. São narrativas compartilhadas, estratégias similares, redes que se conversam”. Ela acrescenta que, ao observar Brasil, Argentina, Chile e El Salvador, fica evidente que “as propostas econômicas e o discursos securitários circulam internacionalmente”, citando Johannes Kaiser como “exemplo concreto desse vínculo global”, com um discurso inspirado em Milei e no modelo de segurança de Bukele.

 

*Sob supervisão de Chico Alves



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