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O ministro das Relações Exteriores (MRE) do Brasil, Mauro Vieira, se reuniu nesta quinta-feira (16) em Washington com seu homólogo dos Estados Unidos, o secretário de Estado, Marco Rubio, no primeiro encontro de alto nível entre os dois países para negociar as tarifas de 50% impostas pelo governo estadunidense a produtos brasileiros.
“Foi isso, foi um início, foi um princípio auspicioso de um processo negociador no qual trabalharemos para normalizar e abrir novos caminhos para as relações bilaterais”, disse o chanceler brasileiro em declaração à imprensa, após o encontro, que durou cerca de uma hora, incluindo 15 minutos de uma reunião reservada, em que participaram apenas os dois chanceleres e a embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti.
Em seguida, o encontro foi ampliado, com a participação dos embaixadores brasileiros Maurício Lyrio e Philip Gough, além de assessores do ministro Mauro Vieira, do representante comercial do governo dos Estados Unidos, Jamieson Greer, do secretário de Defesa assistente Michael Jensen e assessores do Departamento de Estado.
O chanceler brasileiro disse que reiterou a posição do governo do Brasil sobre a necessidade de reversão das medidas adotadas pelo governo estadunidense, o que vai demandar, segundo o ministro, um processo de negociação “a ser iniciado nos próximos dias”.
“Nós já estamos trabalhando na montagem de uma agenda de reuniões e manterei contatos diretos com o secretário Rubio nos próximos dias para monitorar o avanço e estabelecer prazos para novos encontros”, disse o diplomata.
Vieira disse ainda que está mantido o objetivo de que os presidentes do Lula e Trump se reúnam proximamente, mas disse que os detalhes do encontro ainda serão definidos.
“Queria concluir dizendo que o encontro foi, como disse desde o início, muito produtivo, num clima excelente de descontração e de troca de ideias e de posições de uma forma muito clara, muito objetiva e com muita disposição para trabalhar em conjunto para traçar então uma agenda bilateral de encontros para tratar de temas específicos de comércio”, finalizou o chanceler.
A chantagem acabou, por ora
Para Paulo Borba Casella, professor titular de Direito Internacional Público da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), o primeiro sinal positivo da reunião entre os representantes de Brasil e Estados Unidos é o caminho livre para colocar fim à chantagem bolsonarista.
“O que eu acho mais positivo é que em vez de trocas de acusações infundadas e abusivas, como nós tivemos algumas semanas atrás, inclusive o próprio Marco Rubio, falando que o Brasil não era um bom parceiro comercial, com uma linguagem ‘trumpiana’… [foi] o fato de sentar e conversar e dizer: ‘Temos uma pauta e precisamos fazer outros encontros para trabalhar’. Isso é ótimo. [E é ótimo também] que a questão do julgamento de [Jair] Bolsonaro fique completamente fora dessa discussão como tem que ser”, avalia o professor.
“O que esse resumo da conversa, bastante anódino e pasteurizado no linguajar, mostra é o seguinte: sentaram, conversaram, o Brasil reiterou a pauta que é a remoção da chantagem tarifária e das sanções contra autoridades brasileiras”, resumiu.
Casella considera que a disposição do governo estadunidense em dialogar não está pautada por uma mudança de perspectiva político ideológica, mas por razões concretas de cunho econômico, que alteram a política interna dos Estados Unidos.
“Se os americanos estão sentando para conversar, é porque essas tarifas já começaram a doer no calo do consumidor que está pagando mais caro pelos produtos que são onerados. Então isso é ruim para o exportador, mas é ruim para o mercado interno. E o consumidor é também eleitor e eles têm que se preocupar com os eleitores deles”, aponta o professor.
Para Casella, o Brasil possui um trunfo nas negociações comerciais com os Estados Unidos que pode enterrar de vez a chantagem em torno de uma suposta anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro, o que tem sido articulado por seu filho, Eduardo Bolsonaro, que segue nos Estados Unidos, tendo, para isso, abandonado o mandato parlamentar.
“É tão descabido o que foi feito pelo governo dos EUA, que eles estão tentando de alguma forma reabrir o diálogo. Não esqueçamos o interesse estratégico dos Estados Unidos, com a China endurecendo a posição em relação às terras raras. O Brasil tem a segunda maior jazida do mundo depois da China”, destaca o professor.
Por outro lado, Casella considera que a diplomacia brasileira não tem saída a não ser defender a soberania do país, o que inclui não só a suspensão das tarifas ou a ampliação dos produtos isentos, mas também o fim das sanções contra autoridades brasileiras.
“O Brasil não pode aceitar só a questão da remoção das tarifas ou a redução das tarifas, porque é uma agressão a um país soberano com o qual os Estados Unidos têm uma relação até a pouco tempo normal e consolidada”, avalia. “Eu acho que o Brasil precisa colocar esse conjunto de medidas na negociação e deixar fora a chantagem do clã Bolsonaro”, finaliza.
Aproximação com cautela
As tratativas com o governo estadunidense são vistas dentro da diplomacia brasileira como “altamente sensíveis”, já que envolvem temas sobre os quais o país não está disposto a negociar. “Estamos pisando em ovos”, disse uma fonte do Itamaraty ao Brasil de Fato.
O encontro desta quinta-feira foi combinado durante um telefonema de Rubio para Vieira, na quinta-feira passada (9), quando, segundo o Itamaraty, os chanceleres dos dois países mantiveram um “diálogo muito positivo” sobre a agenda bilateral. Na ocasião, o secretário de Estado dos Estados Unidos convidou o diplomata brasileiro para integrar o grupo de negociadores brasileiros em Washington, de modo a viabilizar um encontro entre os dois, que acabou acontecendo nesta quinta-feira.
Por sua vez, as negociações ratificam o que ficou acordado entre os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva, quando o estadunidense telefonou ao brasileiro, no dia 6 de outubro, para discutir a relação bilateral. Na oportunidade, os dois se dispuseram a marcar um encontro presencial nos próximos meses.
Na conversa, Trump designou Marco Rubio para coordenar as negociações por parte do governo estadunidense. Já do lado brasileiro, Lula indicou, além do chanceler Mauro Vieira, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), para representar o país nas tratativas.
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Fonte: Brasil de Fato



