[ad_1]
Iniciou nesta segunda-feira (13), na Granja do Torto, em Brasília, o 2º Congresso Nacional do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC). O encontro, que se estende até quarta-feira (15), reúne mais de 2 mil mulheres do Brasil, América Latina, Moçambique e Países Baixos, marcando um importante momento de articulação internacional e reafirmação das lutas históricas das mulheres do campo por direitos, justiça social e preservação dos territórios.
A abertura do Congresso foi marcada por uma cerimônia intensa e simbólica, que reuniu místicas, cantos e homenagens às mulheres que construíram a trajetória do Movimento de Mulheres Camponesas ao longo das décadas. O momento também foi palco do lançamento oficial do Coletivo de Igualdade Racial do MMC, reafirmando o compromisso do movimento com o enfrentamento ao racismo estrutural e à valorização das identidades negras e indígenas no campo.
Outro marco inédito foi a realização do 1º Congresso da Infância Camponesa, que reuniu crianças de diversos territórios rurais do Brasil em uma programação pensada especialmente para valorizar suas vivências, culturas e o papel das novas gerações na continuidade das lutas camponesas.

A solenidade contou ainda com a presença de representantes do governo federal do Ministério das Mulheres, Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), além de lideranças de movimentos sociais aliados, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e demais organizações que integram a articulação internacional da Via Campesina.
Momento histórico
O 2º Congresso Nacional do MMC ocorre 20 anos após a realização do primeiro, em 2004. Desde então, o movimento, que está presente atualmente em 17 estados brasileiros, tem consolidado sua atuação a partir do trabalho de base e da formação política das mulheres rurais. O evento, além de ser um espaço de deliberação e planejamento, é também um momento de celebração das conquistas e de reconhecimento da longa trajetória de resistência construída coletivamente.
A camponesa Isanete Maria Collor, do município de Ibiaçá, no norte do Rio Grande do Sul, relembrou a transformação pessoal e coletiva proporcionada pelo movimento. “O movimento nasceu da necessidade que as mulheres sentiram de conquistar direitos, espaço na sociedade, dentro da família e na comunidade. Historicamente, esses espaços foram sequestrados. A gente costuma dizer que nossas avós e mães fizeram o que podiam. Nós demos outro passo na caminhada”, contou.
Ela também recorda a importância de garantir direitos básicos, como aposentadoria e salário-maternidade, frutos da luta organizada das mulheres do campo. “Tudo o que sou hoje, como mulher, como pessoa, como trabalhadora, foi a partir do movimento. Ele me despertou para os direitos que eu tinha em todos os espaços”, disse Isanete.
Tendo como um dos lemas “bordar o chão, cuidar da vida”, o Congresso também cumpre o papel de resgatar a memória das que vieram antes. Para Valsilene Lobato dos Santos, do Espírito Santo, que compõe a Coordenação Nacional do movimento, o momento é de honra e continuidade. “Tem mulheres que já não estão entre nós. Hoje estamos aqui celebrando conquistas, como o SUS, a pensão por viuvez e o salário-maternidade, e traçando novas metas. Vamos sair daqui renovadas, com mais força para buscar outras mulheres e fortalecer nossas lutas”.
Entre os momentos marcantes, Valsilene destacou o lançamento oficial do hino nacional do movimento, composto de forma colaborativa pelas militantes dos 17 estados participantes. “Cada estado tem sua mão nesse hino. Foi uma emoção muito grande,” afirmou.
Protagonismo da luta camponesa
Vindas de diferentes realidades, as mulheres camponesas também compartilham os desafios específicos de seus territórios. Raniele Barbosa Soares veio de Roraima, na região amazônica, onde atua em comunidades diretamente impactadas pela presença do garimpo.
“O garimpo afeta diretamente nossa vida, as águas que bebemos, os territórios indígenas e ribeirinhos, tudo a serviço do capital. Mas isso não nos abate. Estamos aqui para lutar e resistir”, declarou.
Ela destaca a força simbólica do Congresso como um espaço de reconstrução coletiva: “Esse encontro anima as mulheres, as jovens e até as crianças. Nos dá fôlego e reforça a luta. Como diz o hino que lançamos: ‘somos terra e filhas das sementes, e com a nossa coragem, bordamos o chão e cuidamos da vida para sempre’.”

O Congresso recebe delegações de países da América Latina, como as integrantes da Coordenadora Latino-Americana de Organizações do Campo (CLOC-Via Campesina), bem como representantes de Moçambique e dos Países Baixos. A diversidade geográfica tem como objetivo refletir os vínculos internacionais da luta camponesa e a solidariedade entre mulheres do campo em todo o mundo.
A ministra Márcia Lopes, do Ministério das Mulheres, também participou do evento e ressaltou o papel fundamental das mulheres rurais na sustentação da vida durante os períodos mais críticos do país, como a pandemia. “Vocês produziram, plantaram, colheram e distribuíram solidariamente. Enquanto outros negavam a vacina, vocês estavam na terra, organizadas, cuidando da população,” afirmou.
Ela destacou ainda o compromisso do governo federal com a visibilidade e protagonismo dessas mulheres. “Ainda estamos repetindo os mesmos problemas de 30, 40 anos. Por isso, o compromisso é fazer com que a voz das mulheres da roça, das florestas e das águas seja ouvida em todos os espaços de decisão.”
42 anos de trajetória
Durante três dias, o Congresso do MMC vem sendo palco de debates sobre temas centrais como violência de gênero, soberania alimentar, preservação ambiental, direitos previdenciários, saúde pública e identidade de gênero e raça. Ao final do evento, serão apresentadas as principais deliberações políticas e os novos rumos da atuação do movimento.
O Congresso, que vai até quarta-feira (15), tem como objetivo central fortalecer a organização nacional do movimento, consolidar suas diretrizes e celebrar os 42 anos de história da luta das mulheres do campo.
Como pontua a camponesa Isaneta Collor, “a sociedade muda, e a gente precisa acompanhar. Reafirmamos diretrizes antigas e também pensamos novas bandeiras. Enquanto houver uma mulher sofrendo opressão, o movimento continuará existindo.”
[ad_2]
Fonte: Brasil de Fato



