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sexta-feira, 13 fevereiro, 2026
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Operação contra ‘bunker do PCC’ na Faria Lima é marco para segurança, dizem pesquisadores

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Por Paulo Batistella — Ponte Jornalismo

Imagine uma operação de sucesso contra o crime organizado. Não, ela não teria policiais militares armados até os dentes chutando portas de barracos e deixando rastros de sangue em uma comunidade. Muito longe disso, porque esse é o exemplo de fracasso na segurança pública. A avaliação é de pesquisadores ouvidos pela Ponte, segundo os quais a Operação Carbono Oculto, da última quinta-feira (28/8), tornou mais fácil entender qual deve ser o caminho no combate à criminalidade.

Deflagrada por diferentes órgãos estaduais e federais, a operação desmantelou um esquema bilionário de fraudes e de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis e no mercado financeiro com participação da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). A iniciativa cumpriu cerca de 350 mandados de busca e apreensão em oito estados e, junto das operações Quasar e Tank — deflagradas na mesma ocasião —, viabilizou o bloqueio e sequestro de mais de R$ 3,2 bilhões em bens e valores.

Em São Paulo, a investigação descobriu que o “bunker do PCC” — aludido por autoridades nos últimos meses para estigmatizar a Favela do Moinho — está, na verdade, na Faria Lima. No coração do mercado financeiro do país, a facção teria o controle de ao menos R$ 30 bilhões em fundos de investimentos. Em escritórios do local, foram cumpridos 42 mandados de busca e apreensão. Não houve mortes.

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Avenida Faria Lima, que concentra os maiores escritórios do mercado financeiro no país, teve 42 alvos de busca e apreensão em operação contra o PCC na última quinta (28/8) (Foto: Divulgação/Polícia Federal)

Segurança pública não é sinônimo de PM na rua

Para Adilson Paes de Souza, que é tenente-coronel reformado da Polícia Militar de São Paulo (PM-SP) e pós-doutor em psicologia social pela Universidade de São Paulo (USP), os resultados falam por si: “Foram presas pessoas, foi apreendida uma grande quantia de capital, foi desbaratado todo o esquema, e não foi morta uma única pessoa. A eficiência está aí. Tenho certeza de que essa operação produziu um dano ao PCC, e vamos ver como ele vai reagir. Mas ela comprova que segurança pública não é só ter polícia na rua, não se faz com truculência e letalidade, mas com inteligência e troca de informações”.

“Boa parte da população tem essa visão de que a segurança pública se dá com a polícia na rua e com letalidade, que uma operação com bom resultado é aquela que produziu bastante mortes. Isso tem sido propalado há muito tempo na nossa sociedade, e autoridades públicas e políticos em geral têm transmitido isso porque dá voto. Existe um populismo barato envolvendo a segurança pública, de que mais polícia na rua, mais truculência e mais letalidade significam um bom combate à criminalidade. A gente sabe que não é por aí, mas isso dá voto, tanto para a direita, quanto para a esquerda.”

O também pesquisador Bruno Paes Manso, que é jornalista e pós-doutor pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV), reafirma esse entendimento: “Acho que é bem didático e simbólico uma operação que tem começo, meio e fim, por ela identificar toda a inteligência de um setor econômico penetrado pelo crime. A gente fala há muito tempo: o mais importante do trabalho policial é justamente compreender a lógica de funcionamento dessa indústria para fragilizar o crime economicamente.”

Operação desmonta criminalização de territórios

Para ambos, a operação expõe a contradição de um modelo de segurança pública usualmente adotado que criminaliza as periferias como territórios dominados. “Ninguém chegou em prédios da Faria Lima derrubando portas, jogando bomba. E nunca fariam isso, porque entendem, entre aspas, que lá está um outro tipo de cidadão. Então, existe uma seletividade, uma narrativa na tentativa de justificar ações truculentas e letais em determinados territórios”, diz Adilson, que é autor de O Guardião da Cidade: Reflexões sobre casos de violência praticados por policiais militares (Escrituras, 2013).

Bruno acrescenta que, além de justificar a violência de Estado, a estigmatização de periferias sequer produz resultados efetivos contra o crime. “Durante muito tempo, em vez de se investir em inteligência, se optou por atuar nos territórios com foco em pessoas pobres, nos suspeitos de sempre, ‘os que causam medo, as classes e territórios perigosos’, para dar a impressão de que a polícia trabalhava. Mas, na verdade, ela produzia violência e não afetava a estrutura do crime, a indústria dele”, diz.

“A própria extrema-direita trabalha muito com essa ideia de que policiamento seria a atuação em territórios vistos como violentos, onde moram pessoas que devem ser colocadas como suspeitas. O crime já estava mudando, se transformando: ele é hoje virtual e exige um tipo de trabalho policial que envolve inteligência, troca de informações, compreensão financeira desse novo sistema, que é muito mais sofisticado. Ou seja, o policiamento vai muito além da Polícia Militar, do patrulhamento ostensivo, e acho que isso ficou claro com essa operação”, analisa Bruno, que é coautor de A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil (Todavia, 2018), além de ser um dos fundadores da Ponte.

Legado para PEC da Segurança Pública

Os dois pesquisadores concordam ainda que a operação poderia ter um legado pelo nível de integração dos envolvidos e de protagonismo da União, até então alheia à segurança pública. “Agora, vamos ver se isso permanece politicamente, se vamos ter outras operações desse porte”, diz Bruno.

“Tivemos várias agências ligadas a diversos temas nessa operação e governos distintos, que atuaram tecnicamente e em sigilo. É um fato raro”, afirma Adilson, segundo o qual a Carbono Oculto deveria servir para a revisão da proposta de emenda à Constituição 18/2025, a chamada PEC da Segurança Pública.

O texto entregue pelo governo Lula (PT) ao Congresso aposta, conforme a Ponte mostrou anteriormente, em um modelo repressivo e militarizado. A Polícia Rodoviária Federal (PRF), por exemplo, seria transformada em uma polícia ostensiva federal, com atribuições ampliadas. “A gente não precisa militarizar mais. A gente precisa desmilitarizar e atuar com inteligência”, afirma o oficial reformado.



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