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Hoje, prossegue a genuflexão – impedidos de entrar na sala dos adultos, vão todos a Washington pedir uma oportunidade de consideração. Hoje é o seu dia. Emanuel Kant, talvez o mais importante filósofo europeu, classificou o paternalismo como o regime mais tirânico do mundo na medida em que trata os seus cidadãos como crianças de quem é preciso cuidar e a quem é preciso explicar quais são os seus verdadeiros interesses. No lamentável espetáculo de hoje o problema não é os Estados Unidos tratarem os europeus como crianças, mas os países europeus aceitarem ser tratados como crianças pelos Estados Unidos. Depois da reunião de adultos, parece que hoje é o seu dia.
Putin começou a ganhar a batalha diplomática quando a cimeira foi marcada com Trump. A ausência da Europa e da Ucrânia da mesa de negociações foi talvez a sua maior vitória. Putin continuou a ganhar quando a cimeira foi realizada em solo americano, passando, num instante, de proscrito na América a convidado de honra na América.
Putin ganhou ainda quando mudou a agenda de negociações de cessar-fogo para acordo de paz (cessar-fogo permite a quem está a perder no campo de batalha ganhar tempo para reagrupar e rearmar). Putin ganhou de novo quando impôs a ideia de que as trocas de território são inevitáveis. E Putin está ainda a ganhar quando incumbe Trump de impôr e empurrar, garganta abaixo, as suas condições à Ucrânia e a toda a Europa. Por favor, paremos com a fantasia: a reunião de hoje destina-se apenas a aceitar as condições de Putin. A vitória de Putin.
No fundo, bem lá no fundo da análise, talvez possamos dizer que Trump está apenas a administrar a derrota ocidental e a salvar o que resta. Talvez esteja implicitamente a reconhecer o erro da expansão da OTAN e talvez esteja a dizer a todos, pela única linguagem que conhece que é a sua megalomania, o que há muito era absolutamente evidente: para a Rússia esta guerra é uma questão vital, para os Estados Unidos não é. Seja como for — a derrota é da Europa, quem sai mal é a Europa, o actor político mundial que sai desta crise mais enfraquecida é a Europa.
E, no entanto, não consigo deixar de pensar que o mais repulsivo em tudo isto é a sabujice europeia. Von der Leyen, que não é dada a espertezas e sabe qual é o seu lugar no mundo, veio imediatamente agradecer a Trump as condições de segurança que vai oferecer à Ucrânia, como se estas condições de segurança fossem para levar a sério (depois do que aconteceu com a cimeira com Putin, as garantias americanas valem pouco). Pela sua parte, os líderes europeus correm, como estouvados jovens adolescentes, para os braços de Washington, fingindo que ainda participam nas decisões e na esperança de uma qualquer concessão de última hora. O espetáculo é deprimente. Depois de uma guerra tao cruel e devastadora a falta de dignidade é inadmissível. Na hora de assumir responsabilidades muito pode ser perdoado, não a falta de dignidade.



