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Primeiro levaram os livros que falavam da Palestina, mas não me importei com isso. Eu não era palestino, nem árabe, nem sequer sabia onde ficava Gaza no mapa-múndi que decorava a parede da minha sala de estar burguesa. Que me importavam as críticas de Ilan Pappé ao massacre que Israel impõe àquele pedaço de terra distante? Eu tinha meus próprios problemas, minha própria literatura segura, meus próprios autores palatáveis.
Em seguida levaram os debates sobre quilombos, mas não me importei com isso. Eu também não era quilombola, nem descendente direto de escravizados – ou pelo menos preferia não investigar muito a fundo essa genealogia incômoda. Que me importavam as vozes de Silvia Cusicanqui ou Cynthia McLeod ecoando pelas praças públicas? Eu tinha minha cultura erudita, meus clássicos europeus, minha literatura que não incomodava ninguém na mesa de jantar.
Depois prenderam os debates sobre violência do Estado, mas não me importei com isso. Porque eu não sou vítima dessa violência – pelo menos não diretamente, não visivelmente, não de forma que me tire o sono ou me faça questionar meu lugar no mundo. Que me importavam as denúncias sobre a militarização da vida, sobre a necropolítica que governa os corpos periféricos? Eu tinha minha segurança, meu condomínio fechado, minha literatura que não mexe com feridas abertas.
Depois agarraram os militantes da flotilha humanitária, como Thiago Ávila, mas como tenho meu encouraçado imperial, minha posição confortável no mundo das letras, também não me importei. Que me importava se interceptassem navios carregados de esperança e solidariedade? Eu tinha minha própria embarcação segura, navegando em águas tranquilas, longe das tempestades geopolíticas que assolam o mundo.
Agora estão levando a própria FLIPEI, cancelando contratos a cinco dias do evento, apagando posts das redes sociais, silenciando vozes que ousaram falar o que não deveria ser dito. E eu? Bem, eu deveria me importar agora, não é mesmo? Ainda há tempo?
A Festa Literária Pirata das Editoras Independentes não é apenas um evento cultural. É, como seu próprio nome sugere, um ato de pirataria contra a ordem estabelecida do mundo literário brasileiro. Pirataria no melhor sentido da palavra: aquela que rouba dos ricos para dar aos pobres, que democratiza o acesso ao conhecimento, que fura o bloqueio naval imposto pelos grandes conglomerados.
Quando os organizadores da FLIPEI decidiram tornar o evento 100% gratuito – tanto para o público quanto para as editoras independentes – eles não estavam apenas organizando uma feira de livros. Estavam declarando guerra à lógica elitizada que governa o mercado editorial brasileiro, onde o acesso à cultura letrada continua sendo privilégio de poucos, onde as vozes periféricas, negras, indígenas, LGBTQIA+ raramente encontram espaço nas grandes vitrines.
Mas a pirataria, como sabemos, sempre incomodou os impérios. E o império das letras brasileiras, com suas capitanias hereditárias bem estabelecidas, não poderia tolerar que 180 editoras independentes se reunissem na “Praça das Artes” – justamente ali, no coração do centro de São Paulo, onde correm as águas soterradas do Vale do Anhangabaú, território marcado por lutas sociais e apagamentos das histórias indígenas e afro-brasileiras.
O diretor da Fundação Theatro Municipal, Abraão Mafra, não precisou ser muito criativo em sua justificativa. Alegou que a FLIPEI teria “cunho político-ideológico”, como se a cultura pudesse existir em um vácuo apolítico, como se a literatura fosse uma atividade neutra, desprovida de visão de mundo. É a velha estratégia: quando não se pode atacar o conteúdo diretamente, ataca-se sua suposta “politização”, como se existisse uma cultura pura, imaculada, livre das contradições do mundo.
Mas que ingenuidade seria essa, não é mesmo? Como se os grandes eventos literários não fossem também políticos, como se a escolha de quais autores promover, quais vozes amplificar, quais narrativas privilegiar não fosse, ela mesma, um ato profundamente político. A diferença é que a política dos grandes eventos é a política do status quo, a política invisível porque hegemônica, a política que não precisa se declarar política porque já é o próprio ar que respiramos.
A FLIPEI, ao contrário, teve a ousadia de explicitar sua política. Teve a coragem de dizer que sim, literatura é política, cultura é política, e que eles estavam do lado dos oprimidos, dos silenciados, dos que não têm voz nas grandes editoras. Teve a audácia de trazer Ilan Pappé para falar sobre Palestina, de dar espaço para debates periféricos, de discutir a violência do Estado brasileiro.
E isso, convenhamos, é imperdoável em tempos de “pacificação” cultural, quando se espera que os intelectuais sejam decorativos, que a literatura seja ornamental, que a cultura seja um verniz civilizatório sobre a barbárie cotidiana. Em tempos em que se espera que os escritores sejam como aqueles poetas áulicos da corte, cantando as glórias do reino enquanto o povo passa fome do lado de fora do palácio.
O cancelamento do uso da Praça das Artes para a FLIPEI a cinco dias do evento não foi apenas um ato administrativo. Foi um ato de violência simbólica, um lembrete de quem manda no mundo das “artes” brasileiras. Foi uma demonstração de força, um recado claro: vocês podem brincar de revolução, mas quando a coisa fica séria, quando vocês começam a incomodar de verdade, nós temos o poder de apertar o botão e fazer vocês desaparecerem.
Mas há algo de profundamente irônico nessa censura. Ao tentar silenciar a FLIPEI, os censores acabaram amplificando sua voz. Ao tentar esconder o debate, acabaram colocando-o sob os holofotes. Ao tentar impedir que 40 debates nacionais e internacionais acontecessem em um local, acabaram espalhando-os por vários locais, multiplicando seu alcance, democratizando ainda mais seu acesso. Quanto mais se tenta esconder algo na era da internet, mais visível ele se torna. Quanto mais se tenta silenciar uma voz, mais alto ela ecoa.
Em todo caso, talvez ainda haja tempo para que compreendam que, quando se ataca a liberdade de expressão de uns, ataca-se a liberdade de expressão de todos. Quando se censura a literatura crítica, abre-se precedente para censurar qualquer literatura que incomode os interesses escusos de todo tipo.
Talvez ainda haja tempo para que se lembrem de que a literatura, em sua melhor tradição, sempre foi subversiva. Que os grandes escritores da história foram, quase sempre, vozes dissidentes, críticos de seu tempo, inimigos do conformismo. Que Machado de Assis era subversivo, que Lima Barreto era subversivo, que Carolina Maria de Jesus era subversiva.
E talvez, quem sabe, ainda haja tempo para que se juntem aos piratas da FLIPEI, para que embarquem nessa nau que navega contra a corrente, para que compreendam que a efetiva literatura não é aquela que confirma nossas certezas, mas aquela que nos obriga a questionar nossas convicções mais profundas.
Porque, no final das contas, a FLIPEI vai acontecer. Pode não ser na Praça das Artes, pode não ser no formato originalmente planejado, mas vai acontecer. Porque a literatura verdadeira, aquela que incomoda, aquela que transforma, aquela que resiste, sempre encontra um jeito de furar o bloqueio.
E quando ela acontecer, quando as 180 editoras independentes se espalharem pelos espaços de resistência da cidade, quando os 40 debates ecoarem pelas periferias e pelos centros culturais alternativos, quando as vozes de Ilan Pappé, Silvia Cusicanqui e Cynthia McLeod se fizerem ouvir apesar da censura, talvez alguns de nós se lembrem de que ainda há tempo para escolher de que lado da história queremos estar.
Do lado dos que censuram ou dos que resistem. Do lado dos que silenciam ou dos que falam e lutam. Do lado dos que se importam apenas consigo mesmos ou dos que se importam com todos os que são levados, um por um, pelo autoritarismo que avança.
Não podemos controlar todas as escolhas que fazemos, mas esta certamente sim, a escolha é nossa. E o tempo, como sempre, está passando.



