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Por Valter Mattos da Costa*
Num momento de aviamento e de desvalorização do trabalho do professor em todos os níveis, a pedagogia da autonomia nos apresenta elementos constitutivos da compreensão da prática docente enquanto dimensão social da formação humana (Paulo Freire).
A precarização da profissão docente, no Ensino Básico, anda a passos largos. Em meio a esse processo, a categoria docente, de base intelectual, vem sendo tragada por um fenômeno que remete à velha e conhecida proletarização. Não à toa, a escola pública e suas salas de aula são designadas aqui, creio que com certa
precisão crítica, como chão de fábrica. Um lugar onde o trabalho intelectual é comprimido pela lógica da produção em série, sob metas e prazos inatingíveis.
A expressão, ou termo, “pedagogia da métrica” nasce nesse cenário. Serve como denúncia contra o avanço de uma racionalidade tecnocrática, que subjuga a docência à lógica empresarial, substituindo a formação pela contabilidade de resultados. O que se vê é uma metodologia da obediência e da planilha, antagônica à pedagogia do diálogo proposta por Paulo Freire. A matematização do ensino anula a escuta, silencia a
crítica e converte o professor em executor de tarefas mecânicas.
Esse modelo desloca o centro da ação pedagógica para o campo do controle. As metas, indicadores e estatísticas se tornam o norte, eclipsando as realidades concretas do cotidiano escolar, suas contradições, e o trabalho de base com os estudantes. Não se trata de combater as avaliações, mas de denunciar o seu uso distorcido. Tornadas instrumentos de propaganda, servem mais aos interesses de governantes e à obtenção de verbas federais do que à melhoria real da educação.
Essa política, centrada na produção de números positivos, exerce pressão crescente sobre os professores, que são cobrados como máquinas, adoecem, pedem exoneração e, aos poucos, deixam de educar de fato. Estudos recentes comprovam esse quadro. Entre 2009 e 2021, o número de docentes com até 24 anos caiu de 116 mil para 67 mil — retração de 42,4%, revelando um envelhecimento sem renovação proporcional (MELLO. “Em 2040, Brasil poderá ter carência de 235 mil professores”. Agência Brasil, São Paulo, 2022.).
Outro dado alarmante é que diz o título do artigo citado: até 2040, o Brasil poderá enfrentar déficit de 235 mil professores (idem), caso a adesão dos jovens à carreira continue baixa. As novas gerações evitam o magistério, por razões óbvias.
A acentuada queda no número de concluintes de cursos de licenciatura tem gerado preocupação. No Rio Grande do Sul, por exemplo, entre 2010 e 2021, a redução ultrapassou 59 %, evidenciando uma grave crise na formação docente. Em vez de valorização, o que se constata é o avanço do desestímulo à profissão. (BIER et al., “Apagão de Professores…”, Instituto SESI-RS, Porto Alegre, 2023).
Mesmo com maior oferta de cursos públicos e gratuitos, como nos institutos federais, as taxas de evasão continuam altas. A estrutura das escolas, os salários, o status da profissão, tudo afasta os estudantes (FERBER; MARTINS. “Formação inicial de professores…” Revista Principia, João Pessoa, 2022.).
Há ainda um descompasso gritante entre a existência de cursos de licenciatura e o preenchimento de vagas por novos professores. A formação existe, mas não há motivação suficiente para seguir na carreira (INEP, 2019, apud RIBEIRO; COSTA. “Formação inicial de professores…” R. Principia. Instituto Federal de São Paulo2021).
A pedagogia da métrica se articula a esse colapso. É uma engrenagem que opera nas sombras da política educacional, legitimada por discursos meritocráticos e vendida como solução eficiente e neutra. Mas nada há de neutro no modo como se gerencia a educação. As secretarias, nos seus níveis centrais, tornaram-se espaços onde proliferam elementos carreiristas, preocupados mais com cargos e salários do que com o bem comum.
Esses quadros, bem remunerados (em contraste com a categoria), emergem, em sua maioria, não como resultado de uma trajetória consolidada em sala de aula ou de uma formação robusta, e, portanto, sem a devida vivência com os dilemas cotidianos da escola pública. Em geral, são frutos de estratégias pessoais, articulações de bastidor e redes de influência que priorizam a ascensão institucional em detrimento do
compromisso com a educação.
Muitos cargos de chefia, como diretores, coordenadores e até secretários de Educação, vêm sendo ocupados por indivíduos sem experiência docente, movidos por interesses fisiológicos ou apadrinhamento político (alguns nem professores são). Não se questiona a importância dessas funções, mas sim quando são assumidas por quem desconhece a sala de aula e age por cálculo oportunista.
Enquanto isso, os que estão no front da escola pública enfrentam salas superlotadas, ausência de climatização, falta de apoio pedagógico e a persistência do ensino baseado no “cuspe-giz”, sem tempo ou condições para inovar.
Na outra ponta, a cobrança por desempenho aumenta. Avaliações externas, sem levar em conta o contexto social dos estudantes, são usadas como chicote sobre as costas dos docentes, que pouco podem argumentar.
Paulo Freire sonhava com a educação como prática da liberdade. A pedagogia da métrica transforma essa utopia em pesadelo: o professor deixa de ser sujeito histórico e vira engrenagem de uma máquina que ele não construiu. Essa pedagogia se impõe não apenas como método, mas como regime de verdade. Controla o discurso, padroniza a ação, avalia a emoção e sufoca a dissidência. É uma forma de disciplinar corpos e domesticar mentes.
Diante disso, a formulação de um conceito crítico se impõe como urgência. A pedagogia da métrica deve ser entendida, aqui, como uma categoria e uma teoria em andamento, nascida do solo, pátio e sala de aula das escolas e da resistência dos que ainda acreditam no poder transformador da educação. Este é um chamado à crítica e à construção. A denúncia, por si só, não basta. É preciso disputar sentidos, resgatar a esperança pedagógica e reocupar o espaço público da escola com ética, justiça e autonomia — afinal, na educação, os elementos fundamentais são seus profissionais e os alunos — e onde estão eles?
A pedagogia da métrica aponta o problema. Que sejamos capazes de buscar, coletivamente, a resposta. Afinal, professor, de que lado está a Educação que se pretende emancipadora? Temos muitas questões a serem resolvidas.
*Professor de história, especialista em história moderna e contemporânea e mestre em história social, todos pela UFF, doutor em história econômica pela USP e editor da Dissemelhanças Editora



