Durante a última Copa do Mundo, foi praticamente impossível escapar da publicidade das famosas cbets nas telas de televisão e nas redes sociais. O jogador Vini Jr. estrelou anúncios caracterizado como um idoso, no personagem “Vini Sênior”, enquanto o narrador Galvão Bueno e ex-atletas como Cafu, Zinho, Renato Gaúcho e Túlio Maravilha também emprestaram sua imagem ao setor. Mas o que o público realmente pensa dessas parcerias?
Uma pesquisa inédita da organização não governamental britânica More in Common, em parceria com o instituto Ipsos-Ipec, revela um cenário de forte desconfiança. Segundo o levantamento, 51% dos brasileiros têm visão negativa de influenciadores que anunciam apostas, enquanto 19% têm visão neutra e apenas 9% avaliam essas parcerias de forma positiva. Os demais 21% não souberam ou não responderam.
O estudo ouviu 2 mil pessoas com 16 anos ou mais, em 130 municípios, entre os dias 4 e 8 de julho, com margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. A pergunta foi feita de forma aberta, com respostas espontâneas posteriormente categorizadas pelos pesquisadores.

O que os brasileiros pensam desses influenciadores
Entre quem tem visão negativa sobre famosos que promovem apostas, 22% classificam esses influenciadores como “irresponsáveis”, “egoístas”, “manipuladores” e sem ética. Outros 17% acreditam que eles são más influências e exploram as pessoas, 8% dizem que pensam apenas no próprio benefício, e 4% afirmam que deixaram de seguir esses influenciadores ou defendem que eles sejam punidos e as propagandas, proibidas.
Em outra pergunta, dessa vez com respostas fechadas, sobre o impacto desse tipo de publicidade na confiança do público, 40% dos entrevistados disseram não confiar ou confiar menos em influenciadores, artistas e atletas que anunciam apostas. Para 53%, a confiança não muda, enquanto apenas 4% dizem confiar mais, e 4% não souberam responder.
A desconfiança é ainda maior entre os mais escolarizados, chegando a 48% entre quem tem ensino superior, e entre quem tem renda mais alta, 46% entre os que ganham acima de cinco salários mínimos.
Um cálculo de risco mal avaliado, segundo pesquisador
Para Pablo Ortellado, diretor-executivo da More In Common no Brasil, os dados revelam uma troca pouco percebida por quem aceita esse tipo de contrato publicitário. “Os dados sugerem um trade-off pouco percebido por quem aceita esses contratos: a receita imediata da publicidade de apostas é alta, mas a erosão de confiança é elevada e se concentra nas faixas de maior renda e escolaridade — aquelas de maior valor publicitário”, avalia. Segundo ele, “o influenciador troca, portanto, um ganho certo hoje, por um desgaste de reputação no público que sustenta sua própria capacidade de monetização no futuro.”
Ortellado, que também é professor da Universidade de São Paulo (USP), lembra que os investimentos do setor de apostas em marketing já eram estimados pelo Itaú, em relatório de 2024, entre R$ 5,8 bilhões e R$ 8,8 bilhões. “Esses números devem ser muito maiores em 2026: o patrocínio master da Série A do campeonato brasileiro de futebol cresceu 125% em dois anos e o setor de apostas passou a ser o terceiro maior anunciante da TV”, observa.

A defesa do setor
Questionado sobre os resultados da pesquisa, o presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), Plínio Lemos Jorge, argumenta que é preciso separar influenciadores que promovem operadores autorizados pelo Ministério da Fazenda daqueles que divulgam plataformas ilegais. “Isso faz muita diferença na percepção do público. O mercado ilegal não observa as normas de publicidade estabelecidas pelo governo federal e pelo Conar”, afirma. Segundo ele, “com frequência, promove campanhas direcionadas a menores de idade, utiliza promessas enganosas de ganhos fáceis e desrespeita regras básicas de proteção ao consumidor. As operações policiais constantes contra esse grupo têm mostrado o risco.”
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) não respondeu ao pedido de comentário até a publicação da reportagem.
“Destruíram minha vida”: o relato de quem processou influenciadores
Para o cabeleireiro Isaac Pinto de Andrade, de 43 anos, morador de Campinas, a desconfiança em relação a esses influenciadores tem um motivo concreto. Em junho, ele entrou na Justiça contra três empresas de intermediação ligadas a plataformas de apostas e contra os influenciadores Virginia Fonseca, Deolane Bezerra e Carlinhos Maia, a quem atribui parte da responsabilidade por ter desenvolvido transtorno de jogo.
“Na primeira vez que entrei, acabei ganhando um prêmio muito alto, eu coloquei R$ 700 e, em menos de quatro horas, ganhei R$ 12 mil”, contou Andrade à BBC News Brasil. “Aquilo foi surreal para mim e correspondeu muito ao que os influenciadores passavam, aquela facilidade [de ganhar dinheiro]. Depois de dois ou três meses, me percebi totalmente refém daquilo, hoje estou com a vida destruída, dilacerada por conta das consequências que isso me trouxe.”
Ele estima suas perdas financeiras em mais de R$ 100 mil. “Eu tinha casa própria, eu tinha um salão de beleza, eu era um cidadão de bem, mas perdi tudo isso em um período de dois anos.” Segundo Andrade, sua intenção ao processar os influenciadores foi provocar reflexão sobre as consequências de suas ações. “São pessoas que vieram ao mundo e foram agraciadas de alguma forma. E que, infelizmente, não põem a mão na consciência para saber as consequências que elas estão gerando na vida de pessoas comuns e simples”, disse. “Então espero que eles repensem essas atitudes. Pessoas que já têm tudo — será que elas têm mesmo a necessidade de se associar a coisas que estão devastando o mundo?”
O desfecho judicial até agora
Na semana passada, porém, o juiz responsável pelo caso excluiu duas das empresas processadas e os três influenciadores da ação, extinguindo o processo em relação a eles sem análise do mérito. O juiz Bruno Gonçalves Mauro Terra, da 5ª Vara Cível da Comarca de Campinas, entendeu que duas das empresas, por atuarem como intermediadoras de pagamento, não mantiveram relação jurídica direta com o autor da ação, limitando-se a prestar serviços financeiros. Em relação a Virginia, Deolane e Carlinhos Maia, o magistrado avaliou que eles se restringiram à veiculação de conteúdo em redes sociais, sem integrar diretamente a relação jurídica de apostas questionada no processo.
O juiz também negou o pedido de Andrade para obter justiça gratuita, argumentando que suas perdas superiores a R$ 100 mil em apostas, somadas a aportes vultosos em plataformas de jogos de azar, seriam incompatíveis com a concessão do benefício. A ação segue, no entanto, contra uma das empresas indicadas na petição inicial, e a decisão ainda pode ser contestada no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).
Apesar da decepção com a exclusão dos influenciadores do processo, Andrade afirma que pretende continuar a ação contra a empresa restante. “Eu acredito que ele [o juiz] se baseou nos estudos dele, jamais vou julgar, mas não vou perder minha esperança e nem vou desistir”, disse.
As assessorias de Virginia Fonseca e Deolane Bezerra informaram à BBC News Brasil que elas não se pronunciariam sobre o caso. Já a defesa de Carlinhos Maia declarou, em nota, que a decisão do juiz reforça o entendimento de que não há fundamento jurídico para atribuir ao influenciador responsabilidade pelos prejuízos alegados, e que seguirá acompanhando o processo, adotando “as medidas cabíveis caso haja recurso contra a decisão”.
Regras já começam a mudar
Em julho, após a repercussão negativa em torno dos anúncios de apostas durante a Copa, o governo federal criou novas regras para esse tipo de publicidade. Agora, toda propaganda de empresas autorizadas deve vir acompanhada de mensagens de advertência, no mesmo modelo usado em anúncios de cigarros, bebidas alcoólicas e medicamentos. As novas regras também proíbem apresentar apostas como forma de investimento ou ganho fácil, criar senso de urgência para estimular apostas e usar comentaristas, especialistas ou influenciadores para induzir o público a apostar.
Paralelamente, segundo levantamento da Folha de S.Paulo, ao menos cinco capitais e dois estados já apresentaram medidas para restringir esse tipo de propaganda. Belo Horizonte, Rio de Janeiro (capital) e Rio Grande do Sul já aprovaram legislações específicas, enquanto São Paulo (capital), Recife, Florianópolis e Paraná têm projetos de lei em tramitação.
Para Ortellado, essas mudanças são bem-vindas, mas ainda insuficientes. “Há modelos internacionais bem mais restritivos, incluindo restrições de horário e de veiculação em ambiente esportivo”, exemplifica. “O que nossas pesquisas mostram é que há grande apoio popular para um endurecimento, e apoio popular independente de coloração partidária.”



