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sábado, 14 fevereiro, 2026
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105 anos de Ana Primavesi: lascas ao vento

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Davi Kopenawa diz em seu livro A Queda do Céu:

“Quando não houver mais nenhum xamã vivo para sustentar o céu, ele vai desabar. A floresta é a carne e a pele de nossa terra, que é o dorso do antigo céu Hutukara caído no primeiro tempo. O metal que Omama ocultou nela é seu esqueleto, que ela envolve de frescor úmido. São essas as palavras dos nossos espíritos, que os brancos desconhecem. Eles já possuem mercadorias mais do que suficientes. Apesar disso, continuam cavando o solo sem trégua, como tatus-canastra. Não acham que, fazendo isso, serão tão contaminados quanto nós somos. Estão enganados. Muitas vezes pensei, durante a noite, nessas coisas debaixo da terra que os brancos cobiçam tanto. Perguntava a mim mesmo: como teriam vindo a existir? De que são feitas? Por fim, os xapiri me permitiram ver sua origem no tempo do sonho. O que os brancos chamam de ‘minério’ são as lascas do céu, da lua, do sol e das estrelas que caíram no primeiro tempo.”

Omama, na cosmologia Yanomami, é um ser criador, uma espécie de ancestral mítico que moldou o mundo e ensinou-os a viver. Ele criou os xapiri, espíritos que ajudam os xamãs a curar doenças, proteger a comunidade e a manter o equilíbrio entre os humanos e a natureza. Somente os iniciados podem ver os xapiri. 

Davi Kopenawa descreve exatamente este processo em seu livro: como se tornou xamã, como pôde ter acesso ao mundo oculto dos xapiri e como essas revelações podem nos ensinar a desenvolver outro olhar para a natureza.

As lascas do céu me fizeram pensar num trechinho de um dos contos mais lindos que Ana Primavesi escreveu, presente no livro A Convenção dos Ventos, o do Hidrogênio:

“Sabem por que se chama alguma coisa de preciosa? Porque existe pouco e muitos a querem. Se ninguém a procurasse, não valeria nada. Mas tem coisas que nos parecem muito comuns, e mesmo assim se faltar, morreremos, como, por exemplo, a água e o oxigênio.” 

Ana dizia que não é o solo rico que produz, mas o solo vivo, ativo. Há de se manter a matéria orgânica sobre o solo, simplesmente isso. E matéria orgânica são galhos, flores, sementinhas, principalmente folhas.

Cada folha abundantemente produzida pelas plantas deve depositar-se no solo. Já repararam que, antes da chegada da chuva, uma ventania se forma? Estariam elas combinadas, a primeira de desgastar as folhas fracas e derrubá-las, e a segunda de assentá-las, “colando-as” ao solo? Seria Omama o regente desta sinfonia, em que árvores balançam sob a força do vento? E seus galhos? Voltados em sua maioria para cima, louvam o espaço, o céu, o sol, essa força Criadora. Louvam a vida, como se dissessem: venham a mim, e eu lhes replicarei.

Quando a chuva cai, centenas de milhares de folhas em contato com o solo exalam o aroma mais gostoso que existe. Seria uma forma de casamento? Uma união de entes, ressignificando suas existências? 

Uma simples folha seca, que valor ela tem? Sozinha quase nenhum, mas somada às suas centenas de milhares de irmãs, torna-se como um diamante da vida. Sua decomposição vivifica o solo, tira da dormência muitos microsseres, faz a vida vibrar. E o solo “acorda”, ou melhor, é acordado, lembrado por esses entes que ele é fundamental. Ah, e como ele fica feliz! Tão feliz e grato que solta aquele cheirinho maravilhoso de terra molhada.

Simples folhas, às centenas de milhares, disponíveis em qualquer canto, a qualquer hora, mostram a generosidade da natureza. Folhas que deveriam formar camadas sobre o solo e ali esperar pela chuva, protegendo o solo e todos os seres que vivem nele, num ritual de acasalamento perfeito. 

Mas tem mais. Quando verdes, prestam um serviço à planta como placas-mãe. São as “armadilhas” como Primavesi dizia. Armadilhas para captar a luz do sol, e transformar a luz em pacotinhos deliciosos de um nutriente (glicose) que os fungos adoram. É que eles trabalham lá embaixo, penetram na raiz, ajudam na absorção de elementos que a planta precisa. Esses fungos, chamados micorrizas, vivem em perfeita harmonia com a raiz, beneficiando-se mutuamente. Esses pacotinhos são deliciosamente mostrados no filme A Vida do Solo, de Ana Primavesi. O fungo que engole sua recompensa revira os olhinhos, enquanto laça os íons que a planta precisa e os joga numa escada rolante, que vai dar na seiva bruta. Puro encantamento.

Essa dinâmica entre sol, vento, folhas, solo, planta, raiz, fungos e outros elementos é muito maior, complexa e dinâmica. Não é algo simples de se compreender, justamente por ser um mundo minúsculo e oculto. Muito do que se sabe foi Ana que desvendou, mas esse era o dom de sua existência, essa era a missão de sua vida: demonstrar cientificamente que o solo é vivo. 

Com o alcance de seus ensinamentos, com a consciência cada vez mais ampla de que devemos cuidar do solo para que as plantas sejam saudáveis, o homem passa agora a escrutinar o solo, o que tem seu valor, por um lado, quando nos desvenda sua dinâmica de vida, mas por outro, transforma-o em negócio. Primavesi já havia previsto isso em um de seus escritos: O negócio da agricultura, a agricultura como negócio. E assim vemos profissionais da área agronômica criando produtos para “melhorar” o solo com os prefixos mais “eco-bio-naturais-sustentáveis” possíveis.

Melhorar o solo. Enriquecer o solo. Vivificar o solo. Adubar o solo: as folhas o fazem. De graça e de acordo com a programação da natureza.  Enterrado no solo está o tesouro da humanidade, não sob a forma de metais preciosos, mas na de uma cidade subterrânea, cheia de acontecimentos entrelaçados, sucessionais. Por cima, orquestrado por Omama, ou por Deus, por Omama-Deus, ou Deus-Omama, seja por qual nome chamemos, a fonte de riqueza é generosamente abundante, constante. 

No filme que Ana criou ainda na década de 1960, vemos como os grumos são agregados desde a decomposição da folha, na cena inicial. Tudo vai bem até que o homem chega com seu arado, e derruba tudo. Ela diz:

“Entra o homem nesta ordem com seus desejos e a sua avidez. Roça com fogo ou ateia fogo no campo desflorestado sem consideração com os danos que isso provoca à vida do solo. A biosfera do solo com todo seu sistema complicado de ar, água, micróbios, fungos, amebas e pequenos animais é calcinada. Morrem as bactérias, fungos, amebas, nematódeos, e todos os microsseres inclusive os actinomicetos. A matança é total e nada sobrevive.”

Se o solo sustenta toda a teia da vida, por que ainda teimamos em maltratá-lo? Por que machucamos a terra com máquinas pesadas e incutimos a ela substâncias as quais a forçam a produzir, ou que a envenenam? Por que maculamos o solo, trazendo à tona o que Omama enterrou para sustentar o céu?

Não são as pedras as lascas mais preciosas. Preciosas são estas que nos cercam, folhas, folhas, folhas, queridas folhas, aladas, amadas, necessárias. Lascas ao vento, a riqueza da humanidade.

Deixemos as lascas do céu, da lua, do sol e das estrelas onde Omama determinou, porque não precisamos delas, e passemos a valorizar as lascas de vida em forma de centenas de milhares de folhas, presentes ao nosso redor, comuns e acessíveis, mostrando a generosidade da natureza. 

A abundância está aqui, ao alcance das mãos. Reconhecê-la é cultivar o caminho que Ana semeou.

Texto em homenagem aos 105 anos de Ana Maria Primavesi celebrados em 03 de outubro de 2025, também dia da Agroecologia no Brasil.

*Virgínia Mendonça Knabben é geógrafa e professora. Em 2016, publicou a biografia Ana Maria Primavesi – Histórias de Vida e Agroecologia pela editora Expressão Popular.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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Fonte: Brasil de Fato

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